“Corneacione”, a novela nobre da Globo


Que as novelas da oito horas da noite 4.ª maior rede de televisão do mundo são a verdadeira versão ficcional do Big Brother, primando pela exaltação glamourizada da falcatrua e da putaria sexual sádica da burguesia de São Paulo e Rio até reclusos monges tibetanos sabem!

O mundo no filtro de suas lentes digitais toma cores de conto de fadas trágico e mambembe, com requintes de teatro de marionetes de lugarejo do sertão nordestino da década de vinte do século passado. No seu tacanho esquematismo a sociedade se reduz ao frenético e sobressaltado círculo dos burgueses de “sangue azul”, arrastados neuroticamente de um lado para o outro nas ondas da vigarice mútua e da histeria geral, e a um caricato e abobalhado “núcleo pobre” em que os personagens ganham o pão que o diabo amassou trabalhando de criados nas “casas grandes” do núcleo rico, ou vivendo de esquemas na favela, mas tem um quotidiano temperado de alegria e descontração no samba do buteco da esquina e nos fuxicos das comadres da rua.

Nada disto é novidade, mas, simplesmente, a surrada e velhíssima lavagem cerebral eletrônica que quem conta no mínimo quarenta anos de idade está acostumado a receber desde criancinha, a tal ponto que se tornou mais banal que zumbido de mosquito em barraca de farofeiro bêbado dormindo às duas da manhã em praia poluída.

O grande ineditismo, e a verdadeira sensação do momento, da última pérola da testa de ferro brasileira da yankee Time-Life, entretanto é a ênfase explícita e total no esporte favorito da burguesia segundo Karl Marx: “a corneação”.

O protagonista da novela, por exemplo, protótipo do ingênuo  chato (daqueles de doer) cai nas mãos de uma sofisticada puta falcatrua cuja brincadeira favorita é gastar seus cobres com um sobrinho doidão do idiota, fudendo a varrer num luxuosíssimo hotel italiano às custas do imbecil. Outro irmão do “mocinho” da novela (que, pra variar, é “meio-irmão”) é um pedófilo histérico que, como conseqüência de seus ataques paranóicos acaba sendo chifrado pela mulher com o mais sonso e puxa-saco agregado de sua mãe presidente de metalúrgica S.A. A irmã deste pedófilo, por sua vez, desiste do casamento com um vigarista que explora toda a família após passar a tarde, em pleno horário da cerimônia religiosa, fudendo com o tal agregado. A cunhada da ex-noiva, ao seu turno, trata de cornear o marido com o sobrinho dele (filho do protagonista), que acaba comendo a filha da sua parceira de safadeza. Para coroar o festival de guampas a avô da família “nobre” aparece com a perna quebrada na cama do motorista de décadas da família, casualmente pai do sonso empregadinho da firma que come a mulher e a irmã do pedófilo. Tudo sob a justificativa mais imbecil possível das contradições amorosas entre o casamento  compulsório e as imposições do jogo econômico-social.

Antes que o leitor me berre aos ouvidos que estou me tornando um velho rabugento, moralista e fascistóide, vou esclarecendo, anarquista e reichiano, além de boêmio e sacana, que sou: o problema não está na fodelança desenfreada (e o conseqüente excesso de galhada por metro quadrado, que quase impede os personagens de se movimentarem), nem na pretensa tensão entre o amor livre e as amarras do sistema. O detalhe escandoloso e torpe, para não dizer ridículo, é que toda esta sarabanda de trepadas às escondidas, inédita pelo volume e insistência (que é, claramente, a tônica da novela, que não faz questão de enfatizar qualquer outra “tensão dramática”) se dá da forma mais carrancuda e crua possível. Com uma “seriedade”, aliás, que beira o olhar grave de defensor do júri em performance demagógica.

Os personagens não se deixam levar nas ondas de um tesão gaiato e avassalador, nem no fogo da paixão romântica absoluta que anula o resto do mundo e nos conduz às loucuras quixotescas de “fuder” com tudo. Mas a coisa se dá da forma mais banal e descolorida possível (com exceção do par de velhinhos safados), com todos os matizes imagináveis da psicopatia e da esquizofrenia. Ninguém apronta por que seja movido por uma emoção fortemente arrebatadora e envolvente, mas antes parece movido por um automatismo robótico filho de uma hipnose mal feita. A “traição” parece se dar de forma automática, gratuita e rotineira como o próprio ruído sem graça e consciência das esteiras de uma fábrica de tecido conduzindo a matéria-prima.

A conclusão necessária cagada sobre a mente dos telespectadores desavisados é de que a omissão e a meia-verdade são peça fundamental a quem não queira sucumbir no jogo social e que fora dela não há sobrevivência. O que não deixa de ser verdade, afinal a hipocrisia é a pedra de toque do sistema burguês. Sem ela, a falsa verdade, a maquiagem sentimentalista tosca, não há como justificar a redução do operário braçal ou mental a ferramenta de geração do luxo sádico e sofisticado de um brutal patrão, que faz questão de humilhar, além de reduzir o explorado à miséria material. Somente a fantasia da colaboração entre órgãos de um mesmo corpo pode sustentar a idéia de que o resultado das relações de produção da existência material das criaturas (o trabalho), sem o qual nada nem ninguém existe, se faça nas condições de opressão e diferenciação absurda entre algozes e escravos assalariados.

O problema é que a natureza concreta do sadismo psicopático social (o capitalismo) não se esclarece com a propaganda de seu principal instrumento (a deslealdade), na medida em que tudo aparece como conseqüência lógica e sem escapatória da pretensa natureza absoluta da sociedade humana e não como distorção atroz a ser combatida e superada. Mas seria muito ingenuidade (pior do que aquela que os autores da peça novelística devem atribuir à grande maioria de seus espectadores) esperar outra coisa. Afinal, além tudo, parafraseando o companheiro Karl Marx, no Manifesto do Partido Comunista, de 1848, ao abordar a questão da opressão entre os sexos e sua relação com o sistema capitalista: “Para o burguês, sua mulher nada mais é que um instrumento de produção. Ouvindo dizer que os instrumentos de produção serão explorados em comum, conclui naturalmente que haverá comunidade das mulheres. Não imagina que se trata de arrancar a mulher de seu papel atual de simples instrumento de produção.

“Nada mais grotesco, aliás, que a virtuosa indignação de nossos burgueses sobre a pretensa comunidade oficial das mulheres que os comunistas adotariam. Os comunistas não precisam introduzir a comunidade das mulheres. Esta quase sempre existiu.

Nossos burgueses, não satisfeitos em ter à sua disposição as mulheres e as filhas dos proletários, sem falar da prostituição oficial, têm singular prazer em cornearem-se uns aos outros.”

Ubirajara Passos

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2 comentários em ““Corneacione”, a novela nobre da Globo

  1. mariaalves disse:

    gostei muito quero receber as cronicas um grande abraço

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  2. Cara Maria:

    para receber os textos deste blog diretamente em seu computador, basta clicar, no pé da página, em RSS 2.0 e, aberta nova página, clicar no botão “inscrever-me no feed” e seguir as instruções. Obrigado pela manifestação de agrado.

    Bira

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