Dos velhos bordéis, a velha putaria, as putas velhas e os antiquários!


Escrevo esta crônica na última meia-hora do domingo à noite, embora ela só vá ao ar na tardinha de segunda-feira. E talvez seja o tardio do momento (que fim de noite de fim de semana, domingo, é o verdadeiro apocalipse: por mais enjoada que tenha sido a folga, a volta ao trabalho é a própria encarnação da “náusea” existencialista sartreana) o responsável por este bizarro título e mistura de assuntos.

Que os três primeiros itens tenham alguma relação entre si é a coisa mais banal e cretina, daquelas de fazer o Pantaleão (velho coronel nordestino encarnado há uns quarenta anos atrás por Chico Anísio, no antológico programa humorístico “Chico City”) esbravejar com “Pedro Bó” (o afilhado imbecil). Muito embora a álgebra antropológica não tenha estabelecido exata conexão de causa e efeito, ou similaridade, entre velha putaria e putas velhas. Agora, o que tudo isto tem a ver com antiquários, somente o vinho da meia-noite, no fim do domingo mais gélido do inverno do Rio Grande do Sul (extremo sul do Brasil), em pleno agosto, talvez, possa explicar.

A verdade é que, faz quase uns dois meses, eu andava na maior conversa com o meu colega de judiciário de Garibaldi, o Carlão, que é também amigo pessoal há vinte anos, e, rememorando saudosamente os  velhos tempos de solteiro, lhe contei um episódio, não tão antigo (data da primavera de 2005) ocorrido num sábado de ressaca pela manhã, em que eu, completamente pilchado (assim havia comparecido a uma Assembléia Geral do Sindjus-RS, por questões de markenting, no dia anterior – que aliás me renderam uma foto histórica, que se tornou ilustração de cartaz e fôlder de plenária da entidade), havia adentrado um decadente cabaré na rua Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, e lá dado com uma única mulher no salão.

Mais velha do que o próprio ambiente, com um beiço que beirava o chão, a puta velha me pediu uma cerveja, na esperança de que eu fosse mais um incauto qüera bêbado com coragem e valentia gaúchas o suficiente para enfrentar sua “experiência” vasta e “antiga” na cavalgada dos potros e mouros velhos os mais diversos, acumulada desde algumas décadas do século passado.

Se o leitor, neste ponto da narrativa, imagina que a distinta senhora era alguma quarentona (idade em que, em geral, 99% das putas já pendurou as chuteiras há alguns anos, por óbvia falta de encantos), sinta-se o próprio Pedro Bó (que costumava fazer perguntas óbvias do tipo: “Esta faca é pra cortar mandioca, padinho?” –  ao que o Pantaleão, enfurecido, respondia: “Não! É pra fazer o teu escalpo, Pedro Bó”!). O fato é que a “senhorita” era tão “madura” que foi me contando, por imensa e convicente vantagem, no seu marketing cabareteiro, que sua primeira foda na zona havia sido nada mais, nada menos que com o “governador” (interventor da ditadura militar) Sinval Guazzeli (em seu primeiro mandato), e que fora ele que a havia ensinado a chupar caralho. O detalhe é que o referido político terminou seu primeiro período à frente do governo do Estado justamente há uns 31 anos! (na época faziam 26).

Paguei-lhe a cerveja, acompanhando-a no seu consumo, e tive o bom tom e a polidez de, além de entretê-la, contando alguns episódios da minha vida política e sindical (que, talvez tanham sido os inspiradores da propalada foda com o governador), e (como bom macho sulino que nada renega) dar-lhe um beijinho na boca, me despedindo, entretanto, antes que um porre fenomenal me fizesse cometer a besteira de fuder a velharia em pessoa.

Foi ao terminar de contar este causo ao meu amigo Carlão que lembrei de lhe mencionar a saudade que me dava a “putaria antiga” (como a que conheci, recém entrado na década dos trinta e sindicalista com uns dois anos de atuação na direção executiva na capital, com as fantástica putas cocainadas do antigo “Bagdá Café, na ponta sul da lomba da Marechal Floriano). Se há coisa de uma década, uma década e meia era possível a gente virar a noite entornando cerveja e fudendo com umas duas, três putas, na farra mais bem-humorada e jocosa, se divertindo como se fôssemos colegiais a namorar pelos cantos do muro do colégio de freiras, hoje a disposição da maioria das putas (pelo menos as do centro de Porto Alegre) é de uma falta de uma imaginação, de uma burocracia seca e ríspida dignas de um contra-mestre de fabriqueta de calçados no Vale do Rio dos Sinos, tamanho é o seu “profissionalismo”, que se pauta exclusivamente na caça dos reais dos clientes e na execução fria e sem graça, digna do Iso 9001, dos serviços oferecidos.

Digo isso com a atualidade correspondente há uns dois anos atrás, afastado que me encontro das doces lides dos puteiros, casado que estou desde 2008. Mas creio que a coisa não deve ter melhorado, neste recente tempo da minha aposentadoria bordelística (que não significou a renúncia completa da boemia: sempre que posso me dou ao desplante de virar uma madrugada de trago com os amigos, que, além da ressaca, me rende, no dia seguinte, os impropérios da mulher amanda, a mãe da minha linda e maravilhosa filhinha).

E foi aí que me lembrei que a “velha putaria” que conheci no início de minhas ocupações boêmias também já era coisa de velhos bordéis. O Bagdá, por exemplo, morreu há uns bons dez anos – muito embora eu ainda encontrasse até 2008 velhas amigas lá conhecidas na Cláudia Bar Drink  (que ainda existe no prédio ao lado do qual se situava e foi resultado de uma “dissidência” daquele “templo do amor”) e no “Le Boheme”, na lomba norte da Pinto Bandeira. E, pasmem, no edifício onde era o velho Bagdá funciona há anos, metáfora viva da sua condição e do gaiato e alegre exercício do prazer de que lá gozávamos, nada mais que um antiquário. A Gauchinha, a uma quadra do Palácio da Justiça, também, na rua Riachuelo, assim como o Nosso Cantinho, desde uns sete anos, transformaram-se em lúgubres hospedarias. O que dá a exata noção de que a própria putaria bon vivant, e velhos freqüentadores como eu, está reduzida definitivamente, ao menos na capital gaúcha, a peça de museu!

Ubirajara Passos

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