A BÍBLIA DO PERUCA: Law Moisés Peruca, a Pirâmide e a Dinastia – 2.ª parte


– Mas o que faz em meu fashion palácio este vigarista vulgar e cafona? Guardas, acorrentem este maldito bofe com cara de jumento!

À ordem de Gugu Rançós II, quatro mulatos gigantescos e musculosos, completamente nus, agarraram Law Moisés Peruca, que, na falta de correntes, teve as mãos atadas com cordas de seda!

– Ô meu faraózinho, não te apoquentes comigo! Eu vim aqui te propor um negócio “do caralho”. O Deus Peruca Dinastia me apareceu em pleno deserto do Sinai, no meio de uma gar…

– Caralho? Mas que história é esta meu rapazzz? – interrompeu-o o faraó, com os olhos esgamelados e salivando, com um gritinho característico de seu “jeito diferente de reinar

– Podem desamarrá-lo, guardaass! Quero saber que história é esta seu safadinho? – arrematou Gugu Rançós, brandindo o cetro gigantesco e roliço num movimento de retorno sobre o ombro.

– Guguzinho lindo do meu coração! O negócio é o seguinte: este Deus Peruca é muito mais poderoso que Rá Doidão e Áton Ito das Pirâmides! Ele me provou com uma voz de trovão que saía de uma garrafa de aguardente e uns efeitos de canhão de luz da hora! E mandou te dizer que, com este negócio de pirâmide, tu ainda vai te dar mal! A peonada faminta toda já tá revoltada, e mesmo os mais trouxas, isto é, os mais mansos escravos perucas estão atribuindo a enchente a um castigo divino da tua soberba! Qualquer hora vão invadir este teu palácio e te fazer o brim!

– Mas que conversa é esta, bobo! Eu não uso brim, só linho e seda, quando não recepciono nu meus convidados, é claro! Chega de frescura petista, eu te conheço! Se vais ficar nesta de povo faminto e explorado te acorrento de novo! Desembucha logo! E se este teu Deus gambá for tão poderoso é bom que seque logo o Egito, ou quem vai virar um trapo de brim velho é o teu couro!

– O que é isto xuxuzinho, já esqueceu de nossas tertúlias nas madrugadas, no alto da esfinge? Escuta aqui: o tal Deus da Dinastia mandou te dizer que, se largares das pirâmides e libertares meus irmãos perucas, ele te garante o maior lucro! Mas para isto tem que renderes ao poder da Dinastia dele, passar a depositar a cada lua um cenzinhos na sua caixa de dízimos e, se conveceres outros quatro dos teus nobres a fazer o mesmo, ele te reduz a tua obrigação para dez peças de ouro. Se estes quatro convencerem outros quatros e assim por diante, até que todo o Egito rico em ouro esteja devidamente convertido à Dinastia do Senhor Peruca, ele te dará então, para teu gozo e prazer exclusivo todos os tesouros do mundo e todos os reis gostosos como escravos sexuais aos teus pés!

– Fófi, como é que eu vou acreditar nesta história? Dá aí uma prova, que seja, do poder destes deus!

E Law Móisés Peruca sacou de sua mochila, então, uma enorme vara, que o Senhor, em outro transe, havia lhe dado e recomendado que usasse com muito cuidado, e em último caso, se o faraó não se dobrasse aos seus argumentos.

– Muito lindo este pau de ébano! Mas não passa de brincadeirinha de viúva! O que tem demais este teu consolo de  velha árabe rabugenta?

Moisés Peruca, então, com o ar mais canastrão e concentrado possível, sacudiu a vara preta e gritou: “O Senhor da Dinastia é Meu Deus e ninguém me foderá!”

Diante do faraó veado, estupefato, o artefato de madeira transformou-se numa enorme “cobra”, de cabeça vermelha e língua colossal e agitadíssima, que lambeu toda a água da enchente, deixando Rançós admirado, e excitado… tão excitado que trocou a vara pela liberdade dos perucas e tratou de convocar toda a nobreza, conduzida “à vara” por seus soldados (pois se recusava a conceder a liberdade a seus escravos) e fazê-los depositar todo seu ouro no templo de Moisés Peruca (na verdade, uma simples tenda vermelha, pintada de fora com os dizeres: “Quer enricar sem fazer bosta nenhuma? Largue da pirâmide e torne-se um dinasta!”.

Entusiasmado, perguntou então a Law Móisés, quando o poderoso Deus da Dinastia lhe faria vir até todos os tesouros e os bofes sarados. O profeta peruca, metido a esperto, resolveu então passar-lhe a perna e disse ao faraó que ele tinha que fechar os olhos e pensar muito forte, mas muito forte mesmo, até ouvir o som dos trovões e das trombetas e então o milagre financeiro-erótico estaria feito!

O faraó, tarado sexual e enrustido na conversa de Moisés Peruca, pôs-se então de quatro e ali ficou orando e desejando o mais que podia, enquanto o profeta, junto com os da sua tribo, tratava de fugir, em corrida desabalada, da terra do Egito, com toda sua fortuna, e de seus asseclas.

Quando Gugu Rançós II, depois de orar de olhos fechados e bunda saltitante, por dois dias, se deu conta do engodo, mandou enfeitar sua melhor parelha de cavalos com topes cor-de-rosa e partiu com seu exército, furioso, na perseguição de Law Moisés Peruca e sua tribo!

Os perucas já se encontravam nas margens do Mar Vermelho, que naquela época se chamava Mar do Nosso Chique Faraó, quando foram alcançados pelo machíssimo exército de Gugu Rançós! Law Moisés, então, todo cagado, viu-se sem qualquer saída diante dos impropérios que lhe dirigiam seus liderados e, conforme o combinado, pôs-se a rezar, concentradíssimo, para Deus Peruca, junto com toda a tribo, visualizando uma terra nova cheia de oásis verdejantes e fauna vasta e apetecível (inclusive alguns vistosos veados), esperando que ela surgisse do nada ante seus olhos, por obra do Deus da Dinastia!

Rezavam, rezavam e nada! A turma dos gugus já os vinha alcançando, quando Law Moisés, desesperado, sacudiu a vara, que se transformou numa serpente enorme e sugou toda a água do mar, carregando em lombo a perucada toda, e cuspindo a massa líquida sobre a guguzada, quando esta disparava já a meio do leito do mar seco, afogando o bambi faraó e seus séquito desastrado! (Pelo menos assim, consta dos papiros dos dinastas. Dizem que, na verdade, enquanto uma violenta tempestade de areia cegava faraó rançós e sua turma, Law Moisés e sua trupe de abestados tratou de atravessar o “mar”, que não passava de um laguinho, numa balsa previamente ali estacionada, e se mandou Sinai afora)

Law Moisés, libertador dos Perucas

Após vagar quarenta dias, sempre crente e concentrada, a tribo dos Perucas, conduzida por seu esperto líder, Law Moisés, chegou ao pé do Monte Sinai, e, lá subindo o profeta, recebeu de Deus Peruca a tábua com as dez leis da dinastia. E em todas elas constava que devia dedicar todo seu tempo a investir na multiplicação dos adeptos e dos donativos da Dinastia ao Deus Peruca, colocando tudo na “Arca da Abastança” e vivendo frugalmente em nome do Senhor, que, depois de quarenta anos de peregrinação, se pensassem bem forte, lhes apareceria, no meio do deserto a terra prometida e Law Moisés nela encontraria um palácio repleto de ouro e prata!

E assim fizeram Law Moisés Peruca e sua tribo, até que, já velho e cansado, completou-se o prazo e, chegando lá pelos lados da Palestina, deram, depois daquela areia toda com um campinho ralo, um açude raso, e um gado magro, ossudo e esturricado que pastava uma ramagem meio seca e sem graça! Moisés Peruca então clamou ao Deus Dinastia, reclamando sua fortuna, que ele merecia por tanto empenho e teve esta resposta:

– Coloca todo o ouro da arca no fundo daquela caverna que está lá na fralda do outeiro onde termina o vale e então verás o milagre que acontecerá!

A Perucada toda, com uma agilidade jamais imaginável para seus corpos e mentes lerdas, pôs-se a transportar o tesouro amealhado nos quarenta anos de barriga vazia e veste esfarrapada e lá deitou-se a roncar por toda a noite, conforme lhes instruira Law Moisés, por ordem de “Deus Peruca”.

E na manhã seguinte, em nada mudado o cenário, e desaparecida a rica poupança, Law Moisés, emputecido, xingou de tudo o Senhor Deus da Dinastia e ouviu em resposta:

– Tu e os teus não rezaram o suficiente e não pensaram o bastante forte! Assim procedendo quebraram a corrente e o pacto desfez-se!

– Mas, ô meu Deus? Tudo bem, não tem “terra prometida”. Mas e o tesouro que acumulamos? Onde foi parar? Podíamos, pelo menos, aprovetar ele pra minorar agora minha velhice e o sofrimento dos meus irmãos perucas!

– O tesouro? Acho que esqueceste de ler nas tábuas da lei uma importante cláusula… aquela de letras miudinhas! O tesouro é o meu pagamento pela assessoria, ô Peruca tonto!

E Kadúcifer mostrou-se, então, em toda sua pompa demoníaca, perante os perucas estupefatos, que cagaram de pau, até matar, o infeliz Law Moisés Peruca! Assim está escrito nos alfarrábios de Camargus Indentadus, escriba do Templo de Perucalém, no décimo século que se seguiu.

Ubirajara Passos

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