Don Fudencio e o doce suicídio etílico


Faz quase três anos contei neste blog a história do casamento de Don Fudencio de las putas, el señor de los bordeles. Desde então, por incrível que pareça, eu, que um ano após a publicação da narrativa, acabei por me casar também, não tive mais qualquer notícia do personagem fictício mais real do planeta.

Até que o “Santa Bárbara”, seu principal companheiro de estripulias alcoólico-putanheiras me pôs a par, há uns quinze dias, do estrambótico e infausto episódio.

O fato é que Fudencio, amansado pela sova da gostosa, temperamental e colérica patroa doméstica, depois de umas quantas rusgas em torno de suas expedições imprevisíveis e enlouquecidas às casas de tolerância, em pleno casamento, acabou por largar da vida airada. E, perseguido pelas implicâncias da mulher e instado por uma repentina falta de cobres, acabou por rarefazer até mesmo o doce ofício de entornar litros de tudo quanto é bebida embriagante, a que se dedicava no austero e altruísta, sofrido intuito de reduzir o estoque disponível no mundo e, assim, reduzir as possibilidades dos pobres viciados no álcool se chafurdarem no nefando pecado do porre (pelo menos foi nestes termos que Fudencio explicou, em discurso solene e retumbante, à esposa sua devoção à  cachaça, à cerveja, à vodka, ao conhaque e outros tantos derivados alcoólicos).

No último mês de maio, me deu conta seu consternado e frustrado amigo, don Fudencio chegou mesmo ao cúmulo de permanecer exatos e completos catorze dias sem engolir sequer uma inocente gota de martini ou cerveja!

E, deprimido e completamente desesperado, resolveu se suicidar! Mas não de um suicídio qualquer, destes bestas e rotineiros, sem nenhuma imaginação nem glamour! Um  sujeito como ele, amado, desejado e admirado por uma multidão de mariposas sôfregas (que chegavam a ter orgasmos múltiplos quando ele fazia o simples e inocente gesto de abrir a carteira diante delas, com aquele olhar sedutor e fatal despejado sobre elas), não podia morrer de um enforcamento ou uma bala reles, comum, rotineira e sem graça! Para valer a pena, e justificar o tamanho do tormento que o levara a tomar a decisão, a única possibilidade plausível seria morrer afogado após um mergulho olímpico, mas não num líquido qualquer. A grandiosa despedida da existência deveria se dar através do afogamento num lago de vinho!

Custou-lhe os olhos da cara, além dos últimos e parcos cobres, mas Fudencio arranjou quem lhe vendesse o suco de uva tinto fermentado  suficiente para encher uma piscina e alugou logo a do principal clube “esportivo” da cidade, o cabaré Cabana da Campina, fechado naquela noite exclusivamente para ele, a fim de servir de nobre cenário do desfecho de sua infeliz vida.

Mas quando, completamente pelado, e entusiasmado, ladeado por mais umas quinze putinhas novas, se preparava para se atirar no vinho, lhe apareceram, apavorados e esbaforidos, o Nego Sargento e o “Lobo Mau sem Dentes” (dois ilustres companheiros de bebedeira do nosso herói), que, avisados pelo Santa Bárbara, no salão do cabaré da Ivonete, sobre a loucura que ía cometer o seu amigo, chegaram para dissuadi-lo de cometer aquela tremenda desgraça!

Lobo Mau sem Dentes, completamente embriagado, incorporou um beato moralista e quis lhe passar o maior sermão pelo desperdício absurdo do líquido, cujo suor de tantos trabalhadores mal pagos, famintos e sofridos, havia colaborado para produzir, bem como pelo crime ecológico sem nome de poluir a paisagem urbana com as emanações vaporosas daquela quantidade toda de álcool na atmosfera! Sabe-se  lá que estranhas doenças aquilo não poderia provocar nos moradores circundante, entre eles velhas senhoras, jovens grávidas e criancinhas de colo, afetadas por aquele bafo malfazejo, piorado pelo “aquecimento global”. E, além do mais, era completamente indigno e indecente um defunto nu e embriagado, lambusado por todos orfícios (até naquele cujo maior resguardo era a garantia da ombridade) por um vinho tinto pesado e vagabundo.

Mas o Nego Sargento, mais prático, e menos abobalhado, resumiu-se a censurar o egoísmo do Fudencio que queria abandonar este “vale de lágrimas”, que é a nossa vida de pecadores, sozinho, sem convidar os seus fiéis amigos! E, como eles, não pretendiam mesmo segui-lo, era melhor desistir de se matar!

Fudencio, puto da vida com toda aquela xaropeação, que estava lhe adiando a redenção tão esperada e espetacular de quatorze dias a seco (finalmente ía tirar o atraso se embebedando numa piscina cheinha de vinho, só para ele, e aqueles chatos vem lhe perturbar com toda aquela lenga-lenga), acabou por concordar com a dupla de gambás e se dispôs a ir até o zelador do clube, arranjar um jeito de esvaziar a piscina, e trasladar o delicioso líquido para barris.

E, uma meia hora, após, quando finalmente encontrara o maldito guarda noturno, que curtia, ele também, uma pestana debaixo do arvoredo junto à sede administrativa, após entornar uma boa cachacinha, e voltou para a piscina, Fudencio quase morre, e pensou aí, sim, seriamente em se matar, de desgosto, com a cena. Já não precisava mais de qualquer aparato, de mangueira grossa e compressor.  A dupla de safados simplesmente esvaziara a piscina, com suas próprias goelas, e jazia no gramado inerte e barulhenta, comemorando em estrepitosos roncos a salvação de Don Fudencio!

Ubirajara Passos

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