Eclesíastes: um hino filosófico ao prazer genuíno enrustido na Bíblia


Na crônica “Da Censura a este Blog e seu Pretenso Caráter Pornográfico”, inspirado no post “Tem putaria na Bíblia”, sobre o Cântico dos Cânticos, publicado no início do último abril, prometi postar neste blog trechos do Eclesiástes, do Rei Salomão, o que, conforme meu costume, apesar de demorar, vai sendo aqui cumprido.

Como poderão conferir os leitores, muito antes do grego Epicuro ou judeu austríaco Wilhelm Reich,dos filósofos nihilistas, de Nietzsche e de Omar Kahyyám, o velho rei semita (que, insisto novamente, para mim possuía um refinadíssimo espírito árabe), já havia concluído, em total descompasso com a apologia judaico-cristã do sofrimento altruísta besta e auto-flagelador, que a única coisa que poderia dar algum sentido à nossa condição absurda e imutável de seres mortais, e conscientes da própria impermanência no mundo, seria o prazer genuíno de usufruir do bem-estar que a vida pode nos proporcionar enquanto respiramos, sem nos atrelarmos à “deveres éticos” escravizantes e prejudiciais ao bem-estar do indivíduo. E sem, muito menos, nos deixar escravizar por ideais de felicidade artificiosos, formais e superficiais, sem qualquer contato profundo com nossas emoções e sentimentos espontâneos, ligados ao tesão de nos sentir vivos, fascinados e confortáveis.

Salomão constatou  na própria  carne, e conhecia muito bem,  que o espetacularismo oco da ostentação e da celebridade em nada amenizam nossa trágica situação de mentes de aguda consciência racional e refinamento emocional destinadas a um dia virar pó, quando não a tornam mais infeliz ainda, e responsável pela miserável infelicidade das multidões jogadas à condição de coisa sem direitos para propiciar o vão luxo dos engalanados opressores. Assim como sabia que raiva e amor, agressão e acolhimento, destruição e construção não são energias opostas e excludentes entre as quais devemos escolher, ou rejeitar, para pautar nossas vidas, mas posições necessárias e benéficas, segundo as circunstâncias em que nos encontremos.

Este não é, como bem sabem os leitores, um site religioso, um blog “sério” (da seriedade moralista e “austera”), e muito menos dogmático, mas vale a pena transcrever aqui os iniciais do fantástico livro:

Palavras do Eclesíastes, filho de Davi, rei de Jerusalém. Vaidade de vaidades, disse o Eclesíates; vaidade de vaidades, tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo trabalho com que se afadiga debaixo do sol?

Uma geração passa, e outra geração lhe sucede; mas a terra permanece sempre estável. O sol nasce e põe-se e torna ao lugar donde partiu, e, renanscendo aí, dirige o seu giro para o meio-dia, e depois declina para o norte; o vento corre, visitando tudo em roda, e volta a começar seus circuitos. Todos os rios entram no mar e o mar nem por isso transborda; os rios voltam ao mesmo lugar donde saíram, para tornarem a correr.

Todas as coisas são difíceis; o homem não as pode explicar com palavras. O olho não se farta de ver, nem o ouvido se cansa de ouvir.

Que é o que foi? É o mesmo que há de ser. Que é o que se fez? O mesmo que se há de fazer. Não há nada de novo debaixo do sol, e ninguém pode dizer: Eis aqui uma coisa nova, porque ela já existiu nos séculos que passaram antes de nós. Não há memória das coisas antigas, mas também não haverá memória das coisas que hão de suceder depois de nós entre aqueles que viverão mais tarde.

Eu, o Eclesíastes, fui rei de Israel em Jerusalém, e propus no meu coração inquirir e investigar sabiamente todas as coisas que se fazem debaixo do sol. Deus deu esta penosa ocupação aos filhos dos homens, para que se ocupassem nela. Vi tudo o que se faz debaixo do sol, e achei que tudo era vaidade e aflição de espírito. Os perversos dificilmente se corrigem, e o número dos insensatos é infinito.

Eu disse no meu coração: Eis que cheguei a ser grande, excedi em sabedoria a todos os que antes de mim houve em Jerusalém, e o meu espírito contemplou muitas coisas com grande atenção e aprendi muito. Apliquei o meu coração a conhecer a prudência e a doutrina, os erros e a loucura e reconheci que ainda nisto havia trabalho e aflição de espírito, porque na muita sabedoria há muita indignação e o que aumenta a ciência também aumenta o seu trabalho.

Então eu disse no meu coração: Irei e engolfar-me-ei em delícias e gozarei de todos os bens. Mas vi que também isto era vaidade. Por isso considerei o riso como um desvario; e disse ao gozo: Por que te enganas assim vãmente?

Então resolvi dentro no meu coração apartar do vinho a minha carne a fim de dedicar o meu ânimo à sabedoria e evitar a loucura, até ver que coisa seria útil aos filhos dos homens; em que ocupação devem eles empregar-se debaixo do sol durante os dias da sua vida. Executei grandes obras, edifiquei para mim casas, e plantei vinhas; fiz jardins e pomares, e pus neles árvores de toda a espécie; e construí para minha utilidade depósitos de águas para regar o o bosque em que cresciam as árvores; comprei escravos e escravas, e tive muita família, e gado maior e grandes rebanhos de ovelhas, mais do que todos os que houve antes de mim em Jerusalém. Amontoei para o meu uso prata e ouro, e as riquezas dos reis e das províncias. Escolhi cantores e cantoras, e tudo o que faz as delícias dos filhos dos homens, taças e jarros para o serviço do vinho; e ultrapassei em riquezas todos os que viveram antes de mim em Jerusalém; perseverou comigo também a sabedoria. Não recusei aos meus olhos coisa alguma de tudo o que eles desejaram; nem proibi ao meu coração que gozasse de todo o prazer; e se deleitasse nas coisas que eu tinha preparado; julguei que seria esta a minha sorte, o desfrutar do meu trabalho. Depois, refletindo em todas as obras que as minhas mãos tinham feito e nos trabalhos em que debalde tinha suado, vi em tudo vaidade e aflição de espírito, e que nada havia estável debaixo do sol?

Passei à contemplação da sabedoria, dos erros e da loucura. Que é o homem, disse eu, para poder seguir o rei seu Criador? Reconhecia que a sabedoria levava tanta vantagem à loucura, quanto a luz difere das trevas. Os olhos do sábio estão na sua cabeça; o insensato anda nas trevas; todavia reconheci que ambos eles morrem igualmente. E disse dentro no meu coração: Se eu e o insensato devemos morrer igualmente, de que me serve ter-me eu aplicado com maior desvelo à sabedoria? E, tendo discorrido sobre isto comigo mesmo, adverti que também isto era vaidade. Porque a memória do sábio, dos mesmo modo que a do insensato, não será eterna, e os tempos futuros sepultarão tudo igualmente no esquecimento; tanto morre o sábio como o ignorante. Por isto a minha vida se me tornou fastidiosa, vendo que tudo é mau debaixo do sol e que tudo é vaidade e afliação de espírito.

Em conseqüência disto detestei toda aquela aplicação, com que eu tinha trabalhado tanto debaixo do sol, tendo de deixar depois de mim um herdeiro, que ignoro se será sábio ou insensato, mas que será senhor dos meus trabalhos, em que eu suei e me afadiguei; e há coisa que seja tão vã? Por este motivo dei de mão a todas estas coisas, e o meu coração renunciou a afadigar-se mais por nada deste mundo. Porque, depois de um homem ter trabalhado com sabedoria, doutrina e diligência, vem a deixar tudo o que adquiriu a um homem ocioso. E isto é também vaidade e um grande mal. Porquanto, que proveito tirará o homem de todo o seu trabalho e da aflição de espírito, com que é atormentado debaixo do sol? Todos os seus dias são cheios de dores e de amarguras, nem de noite descansa com  o pensamento. E não isto uma vaidade?

Não é melhor comer e beber e fazer bem à sua alma com o fruto dos seus trabalhos?” (capítulos 1 a 2, versículos 1 a 23).

O início do capítulo 3, clássico nas citações conformistas e fatalistas, nos dá, ao contrário da utilização que normalmente fazer seu pregadores, a medida da relatividade e benefício da dicotomia psicológica, de raiz biológica inclusive, das forças de aproximação e repulsão, contração e expansão (para usar um conceito clínico reichiano), encantamento e horror, quando manifestas em conformidade com as situações específicas que tragam vida ou sofrimento ao organismo humano. E é sobretudo um brado contra a coerência imbecil da palavra dada, do compromisso assumido, da descoberta lógica ou emocional futuramente invalidada pelo processo da consciência e pela correnteza concreta da existência, e contra a imobilidade absurda das idéias e posturas petrificadas e erigidas em verdade absoluta:

Todas as coisas têm o seu tempo e todas elas passam debaixo do céu segundo o termo que a cada uma foi prescrito. Há tempo de nascer e tempo de morrer. Há templo de plantar. Há tempo de arrancar o que se plantou. Há tempo de matar e tempo de sarar. Há tempo de destruir e tempo de edificar. Há tempo de chorar e tempo de rir. Há tempo de se afligir e tempo de dançar. Há tempo de espalhar pedras e tempo de se ajuntar. Há tempo de dar abraços e tempo de se afastar deles. Há tempo de adquirir e tempo de perder. Há tempo de guardar e tempo de lançar fora. Há tempo de rasgar e tempo de coser. Há tempo de se calar e tempo de falar. Há tempo de amor e tempo de ódio. Há tempo de guerra e tempo de paz.” (versículos 1 a 8). 

E, finalmente, o início do capítulo 4 é, por incrível que pareça, de um sabor revolucionário que antecipa o próprio Cristo anarquista a pregar no Sermão da Montanha a bem aventurança aos oprimidos e miseráveis, por que lhes será feita justiça e a lamentar os opressores de barriga empanturrada porque serão derrocados:

Voltei-me para outras coisas, vi as operações que se fazem debaixo do sol, as lágrimas dos inocentes e que ninguém os consola, nem eles podem resistir à violência, visto estarem abandonados de todo o socorro. E felicitei mais os mortos que os vivos; considerei mais feliz do uns e outros aquele que ainda não nasceu, e que não viu os males que se fazem debaixo do sol.

Contemplei de novo todos os trabalhos dos homens e reconheci que as suas habilidades estão expostas à inveja do próximo; nisto há também vaidade e cuidados inúteis. O insensato cruza as mãos, consome-se a si mesmo, dizendo: Mais vale um punhadinho com descanso, do que ambas as mãos  cheias com  trabalho e aflição do espírito.

Tornando a refletir, encontrei outra vaidade debaixo do sol: Há um homem que é só, e que não tem ninguém consigo, nem filho nem irmão, e que todavia não cessa de trabalhar, nem os seus olhos se fartam de riquezas, nem faz esta reflexão, dizendo:  Para quem trabalho eu, e me privo destes bens? Nisto há também vaidade e aflição miserabilíssima.

Melhor é, pois estarem dois juntos do que estar um só, porque têm a vantagem da socieade. Se um vai a cair, o outro o sustentará; ai do que está só, porque, quando cair, não tem quem o levante. E,  se dormirem dois juntos, aquecer-se-ão mutuamente, mas um só como se há de aquecer? E se alguém for mais forte que um só, dois resistem-lhe; o cordel triplicado dificultosamente se quebra. 

Mais vale um jovem pobre, mas sábio, do que um rei velho e insensato, que não sabe prever nada para o futuro. Porque às vezes sai um do cárcere e dos ferros para ser rei, e o outro que nasceu rei acaba na miséria. Eu vi todos os viventes que andam debaixo do sol com o jovem que tem o segundo lugar, e que depois há de ter o primeiro. Todos os que o precederam são um povo infinito em número; e os que depois virão, não se hão de regozijar nele; até isto é vaidade e aflição de espírito” (versículos 1 a 16).

Parece que na última frase transcrita, o Salomão andou prevendo também a ascensão do Inácio dos Nove Dedos… Mas, ironias à parte, tudo pode se resumir à velha e lapidar fórmula: “Comei, bebei e fudei! Tudo o mais é pura besteira”.

Ubirajara Passos

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