Admirável Múmia Viva


Até parece que meu amigo coronel, aquele conquistado em Santa Maria num etílico sábado de julho de 2008, e nunca mais visto, mas sempre lembrado, andou me transmitindo esta noite suas inspirações, à distância, pela rede da internet das mentes, enquanto eu sorvia umas taças de vinho tinto, na sala de casa, a pretexto de observar a sexta-feira santa. E o resultado é o poema que segue:

Admirável Múmia Viva

E ali estava ele
Vivendo a vida que não era a sua
Desde um sempre que já nem lembrava
Quando iniciara,
Nem como, nem por quê!

E ali estava, figura inominada,
Detalhe inanimado e imperpectível
De uma paisagem monótona e imutável.

Já não pensava
E se calava se sentia.

Não existia
Como alguém.
Era poeira
Levada ao morno e irritante vento norte!

Se se agitavam dentro em si contrariedades,
Um senso besta de “harmonia” o manietava
E o mantinha dos trilhos na bitola.

Era uma planta eternamente fixa
A um torrão indistinto e esturricado.
Era um fiapo de grama espisoteado
Na vastidão da campina ondulada!

Mas não vivia indiferente, na inciência,
Nem lhe impuseram sua mentalidade.

Uma fraqueza qualquer assim o mantinha.
Necessitava da convivência humana
E, por pavor da rejeição, se decidira
A suportar a vida de rebanho.

Gravataí, 2 de abril de 2010.

Ubirajara Passos

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