O Aparecido


Num pavilhão de alvenaria, numa vila popular da Grande Porto Alegre, cinzenta tarde de sábado, deu-se o ocorrido.

Tanto o pastor evangélico histérico clamou a respeito do demônio que, um belo dia, em pleno culto, o tinhoso se materializou no púlpito ao seu lado.

Sem tridente, nem rabo, muito menos chifre (que diabo que se preza não é corno, isto é coisa pra marido de irmã de fé), o capeta envergava um terninho última moda, destes que só usa executivo paraguaio de multinacional. E ao invés de enxofre, fazia uma fumacinha de cigarro mentolado, que segurava com um ar meio afetado. Tinha pinta de assessor legislativo e, não fosse pelo terninho, poderia passar por professor da UFRGS. E foi logo lhe saudando:

− Salve, ilustre camarada. Vim te visitar, com exclusividade, já que tu é o meu maior fã. Tu e as tuas ovelhas fissuradas! Pensei muito, fazia já uns bons quinhentos anos que eu não aparecia, no máximo mandava os secretários. A última vez foi lá no Vaticano, quando fui dar uma mãozinha na acusação daquele gringo boca grande, o tal de Galileu. Mas tu é muito especial, nunca vi fiel tão dedicado ao meu nome. Eu não podia, de jeito nenhum, faltar!

O pobre vigarista, aparvalhado, não sabia se corria ou ajoelhava, a merda querendo lhe escapar por entre as pernas, diante da figura, surgida do nada, sem efeitos pirotécnicos, nem trilha sonora pauleira de trombetas. Gaguejante, o joelho a tremer num frenesi de fanqueira rebolando, a muito custo conseguiu miar as frases:

− Seu satanás, o senhor me perdoe! Sempre pensei que o senhor fosse uma invenção da grossa. Não se preocupe que lhe dou a sua parte, contadinha, sem 171, mas, por favor, some daqui e larga do meu pé.

− Mas o que é isto aí, ô amizade? Vê lá, tu tá me decepcionando, bicho! Sempre te achei o maior salafra, malandro dos bons, como poucos há no Inferno! E tu me sai, aí, com esta voz fininha e esta frescura de carola petista, ô rapaiz! Toma vergonha nesta tua cara de madeira aglomerada!

− Ó meu senhor, excelentíssima potestade infernal. Não me leve a mal. Não me fulmine. Eu juro que não tinha intenção de lhe lograr. Não tem problema, eu pago o dízimo, melhor o quinto da arrecadação daquela viúva pensionista otária, beata tarada. Eu não queria, mas ela me força a pecar na sua carne em troca! Eu pago tudo, mas me leva esta megera fodedora lá pras profundezas!

− Porra, meu tio, que tanta caganeira! Até parece doutor do Mato Grosso! E eu que pensei que tu era a salvação deste mundinho que me encheu o saco! Vai te fudê, ô golpista de araque! Tô enojado igual filhote de urubu! Que porra de humanidade! Se tu, ô meu bom, é este bosta o que será do resto? Tô desistindo até mesmo de ser diabo!

E, num pequeno truque de mágico de programa americano, doutor Coisa-Ruim deu um giro e saiu, soturno e cabisbaixo, cabeça raspada, envolto numa túnica vermelha de monge budista, porta a fora, enquanto a multidão de trouxas, raivosa como cão hidrófobo, tratava de acariciar cada centímetro do pastor a chute e bordoada.

Ubirajara Passos

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