Suprema Felicidade!


Não! Não se trata de um flagrante (fotográfico…) da última quarta-feira de cinzas em Porto Alegre, nem a foto é original. O local é a Avenida Paulista, na “maior cidade da América do Sul”, e a foto, para variar, foi pirateada de outro site (como muitas ilustrações deste blog e de outros tantos… quem não comete, na internet, estes furtos mutuamente consentidos e jamais admitidos?).

A cena que deu origem a esta matéria, que pretende reviver um pouco este blog moribundo, se deu há alguns meses (se não me engano num domingo do início de dezembro), em lugar bem distante de São Paulo: a provinciana “cidade grande” de Gravataí, 300.000 habitantes, na Região Metropolitana de Porto Alegre. E o seu protagonista só possui em comum  com o fotografado o fato de estar dormindo bêbado em plena rua, sob o sol mais estridente e agitado (não vá pensar o leitor que estou sob o efeito da crise de abstinência forçada: a metáfora com as percepções trocadas é proposital…).

A criatura não vestia paletó, nem dormia sob uma calçada de pedras e se não publico a sua própria foto não é pelo simples intuito de proteger sua imagem, pois se se tratasse de um bom pequeno-burguês, como aparenta o cidadão acima, eu não teria a menor complacência (e, muito menos, temeria responder um processo por crime contra a honra ou utilização indevida de imagem). Justamente por ser um desconhecido operário, e não nenhuma estrela da aristocracia capitalista, merece seja preservada sua privacidade.

Vestido com uma impecável camisa xadrez, calça azul-marinho, aparentado tergal, e sapatos pretos de cadarço, o traje do operário, mais típico dos anos 1950 ou 1960, nos dava a impressão que o trintão ou quarentão havia sido transportado pela máquina do tempo para o fim da primeira década do século XXI. E ali, deitado sob um gramado, nas bordas do muro da chácara que abriga o  convento de freiras, denominada “Vila Lurdes” (que já foi o Palácio do bispo), a alguns passos do portão principal, curtia o sono mais profundo e relaxante, apesar do calor de derreter os cornos de boi zebu. Destoando do vestuário antigo, e me dando certeza de que não era eu, também, que havia pego o “túnel do tempo” e retroagido uns bons cinqüentas anos (pois o próprio cenário não era nada moderno), uma sacola de plástico de supermercado montava guarda ao seu lado, como um discípulo novato de mestre budista velando a meditação profunda do mestre no alto da campina descampada.

A roupa estava impecável, nada amarfanhada. Somente a barba por fazer e a posição dos membros  (perna direita estendida e a esquerda dobrada, o braço esquerdo sobre a barriga, o outro estendido na grama) denunciava que o sujeito simplesmente capotara no chão sob a pesada inspiração de Baco. Não se tratava, portanto, de um arquétipo vivo da tradição budista (ainda que pudesse possuir algum parentesco comportamental e ideológico profundo com Drukpa Kunley), mas do mais irreverente e hedonista paganismo ocidental! Para completar o quadro “beatífico” de prazer, serenidade e liberdade (um “nirvana” anarquista) só faltava mesmo estar dormindo entre um gato, um cachorro e uma criança!

Sei que, a esta altura, os safados como eu estão entendiados e revoltados com toda esta lenga-lenga e, justamente, acusando a crônica de sem sal e extremamente ingênua, muito lírica e pouco irreverente. Já os beatos moralistas da religião do lucro e da qualidade total devem estar cochichando para si próprios que, apesar de fraco, o texto é imoral e irracional, ao celebrar o porre desavergonhado, desregrado e prejudicial à economia, de um operário que, ao sair do trabalho para a casa, e depois de passar no supermercado para comprar os mantimentos, deixou-se arrastar na devassidão boêmia, deixando a família na preocupação da espera e sem a carne moída e as alfaces para a janta (cogitação que chegou a me passar pela cabeça de anarquista hipócrita).

Mas, falemos sério! Fosse qual fosse a história do pobre diabo, pai de família contrariado que se abrigou no retiro do buteco, empregado “indisciplinado”, dado a faltas e serviço pouco produtivo (na visão do gerente “capitão-do-mato” que administra o gado humano para a burguesia, evidentemente), o fato é que o sujeito, com toda a precariedade de seu porre (que o ideal e confortável, mesmo, é dormir embriagado em cama fofa, cercado de gostosas, com ar condicionado e home theater), não lembrava nem de perto uma situação de neurose e desastre pessoal, mas antes evocava uma perfeita serenidade e “comunhão com a natureza”.

Preocupações histéricas, obrigações compulsivas, planos artificiosos de revolta, ou obediência canina, todas as imposições compulsórias, externas ou introjetadas, suspensas, gozava por uma eternidade do merecido “descanso do guerreiro” (fosse a guerra o trabalho escravo assalariado ou a própria sessão farsesca de beberagem junto aos parceiros de buteco), e, recomposto, simplesmente levantaria, tomaria da sacola e prosseguiria sua vida, neurótica, trabalhosa e atabalhoada como a de todos nós.

Não se sabe se sairia melhor em suas peripécias, ou desabaria diante dos acintes raivosos da jararaca doméstica. Se, solteiro, se consumiria em remorsos recorrentes e chorosos com a parca grana gasta na cachaça. Ou, simplesmente, passaria sobre as dificuldades quotidianas, se imporia, pouco a pouco, sobre as pequenas (mas fundamentais) opressões de cada dia e viveria um pouco melhor, ao menos com mais dignidade.

A única coisa certa é que, tenha sido como foi o porre (gaiato e feliz, ou furioso e desastroso), por algumas horas, na ressaca onírica, deve ter vivido o êxtase paradisíaco supremo, embalado por anjos (se lá de cima ou de baixo não sabemos, nem nos interessa), quem sabe até não visitou o “Castelo do Graal” e foi servido dos mais saborosos manjares e, por que não, bebidas e “donzelas” (destas que, apesar da experiência vasta, sempre trepam com o entusiasmo e o encanto de uma verdadeira “virgem”).

Ubirajara Passos

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