O Causo da Mestiçagem Doméstica


O fato poderia simplesmente confirmar os preconceitos elitistas do “sociologismo” assistencialista (do tipo que vê padrões de comportamento sexual diferenciado e “desregrado”, assim como a falta de “planejamento familiar” nas camadas mais exploradas da classe trabalhadora). Ou poderia, mesmo, referendar uma nova versão da teoria da “democracia racial” brasileira.

Mas me parece, antes de mais nada, apenas uma amostra do quanto, apesar da liberdade sexual e falta de preconceito racial na própria escolha dos parceiros, ainda há muito de aceitação e introjeção não só do racismo, assim como da simples idéia de hierarquização dos seres humanos, e sua “valorização (como mercadorias levadas à exposição agropecuária) conforme os estereótipos “estéticos” e étnicos estabelecidos pela mídia burguesa (que reafirma, no imaginário do quotidiano as diferentes “funções” atribuídas aos diversos tipos de indivíduos que compõem o gado humano no escravismo capitalista pelos seus altos “proprietários”).

Moro numa “encruzilhada” da cidade que se encontra há uma quadra de um dos tradicionais bairros pequeno-burgueses (de sobradões e casas mais sofisticadas construídos com financiamento da Caixa Econômica Federal ou do IPERGS, o sisltema previdenciário oficial do funcionalismo público do Estado do Rio Grande do Sul, nos anos 1980), assim como a algumas quadras de antigas vilas populares construídas pelo Estado (as CoHabs) e de verdadeiras favelas (como o Morro do Coco).  E há umas três semanas ía passando pela Travessa Jardim (localizada no antigo bairro popular Vila São José), próximo à Escola Municipal Cincinato Jardim do Vale, quando ouvi o diálogo, no portão de uma velha casinha de madeira, entre a dona da casa (uma morena de feições indígenas, nos seus quarenta e tantos anos) e uma vizinha.

A matrona, cercada de uma meia dúzia de crianças, das mais diversas idades, dizia, entusiasticamente, à amiga, se dando como exemplo: “Faz como eu. Tenho um filho de cada cor. Tenho um loirinho, um preto, duas morenas!”

E, no meio da conversa, ouvi saltar, irônico, o loirinho, de pé no chão e calção jeans desbotado, que não devia ter mais de dois aninhos: “Mãe! Que preto? Este aí é nego mesmo!” Com o que não se agüentou uma das gurias, aparentando uns sete anos, e foi logo gritando, indignada: “Morena? Eu sou branca, mãe!”.

Ubirajara Passos

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Um comentário em “O Causo da Mestiçagem Doméstica

  1. Gerson Monteiro disse:

    Prezado Ubirajara.
    Vivas a miscigenação!
    Como é do conhecimento dos que frequentam suas páginas eletrônicas, sua simpatia pelo velho caudilho Itagiba (Leonel) de Moura Brizola, o remeteu a uma excursão pelo Morro do Coco. Lar de Dna: Tereza, que no passado era formosura de morena faceira, quando lançou seu olhar amoroso ao lider político da região e ex- prefeito de Gravataí, contrairam uma paixão, que resultou no nascimento de um rebento. Soube que este já feito homem ingressou nas fileiras partidárias do PDT pelas mãos do jovem que comprou seu computador. Depois de passar por outras várias agremiações partidárias o mesmo hoje mais calejado, espera a oportunidade de ocupar um cargo no governo municipal. Não seria esta a Senhora em quetão. Um abraço: gerson

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