Submergindo na Inciência


Após quase dois anos sem escrever uma única palavra neste livro eletrônico, embalado neste renascer de primavera (que continua insistindo em ser inverno, os termômetros registram 14º C neste momento), resolvi dar seqüência, hoje, à fábula Erótilia. Segue aí mais um pequeno capítulo:

Submergindo na Inciência

Nos dias que se seguiram, mestre e discípulo imergiram totalmente nas brumas alcoólicas, e, porre após porre, ressaca, após ressaca, Pancius foi instruindo Epicuro nas artes do desapego absoluto e do desprendimento dos hábitos de comportamento automáticos e auto-limitantes. Todas as rotinas imóveis e encarceradoras de postura, todas as etiquetas, do falar, do comer, as dissimulações hipócritas do modo de olhar e de falar, as regras da rigidez nos gestos íntimos ou públicos foram colocadas em questão e demolidas. Não pelo discurso racionalista. Nem pelas exortações panfletárias e milenaristas dos místicos revolucionários. Mas justamente pelo descontrole pessoal das situações, o deixar-se levar e o rompimento fisicamente obrigatório com os “bons modos” e a autodisciplina.

Jogado num turbilhão incontrolável de vinhos, cervejas e destilados de ervas amargas e aromáticas, o noviço pagão perdeu completamente a vontade própria, conduzido pelo cansaço físico e a confusão de estados d’alma. E o gordo mestre tratou de ensinar-lhe então o prazer ou a simples satisfação de vomitar-se todo, no auge da bebedeira. De mijar na toga, cagar em qualquer canto de floresta, rolar-se no chão e sujar-se, caminhar pelado na chuva, comer qualquer fruta achada pelo caminho, com as mãos embarradas da terra mãe, e simplesmente respirar, comer e viver segundo as pressões imediatas do corpo, da luz solar e da escuridão, dos ventos, do calor tórrido e das neblinas.

No nono dia de “loucura mansa”, quando Epicuro se encontrava absolutamente envolto nas ondas do inconsciente, e preparava-se, extenuado, para dormir uns bons três dias sem intervalo, Pancius o acordou, seis horas enjoadas de uma madrugada de outubro e o conduziu para um banho gelado no lago local, o fez vestir-se impecavelmente e pôr-se em marcha por uma trilha pedregosa e completamente cerrada de mato, enormes troncos e cipós de ambos os lados.

Ubirajara Passos

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Um comentário em “Submergindo na Inciência

  1. gerson disse:

    Fazia já algum tempo, que não lia suas crônicas. Continuas jocoso e sátiro, sem perder o brilho do enredo perverso, que chama atenção para os disparates da sociedade.
    Não raro vejo também um traço de auto punição, pelas quais faltou coragem de vivenciar,talves pelo medo da cobrança, dada pela própria vida.
    Como um aristocráta, usas e conheces muito bem as figuras de linguagem, com domínio de uma gramática que pôdesse diser sulrealista. Se é que isto existe.
    Seu inteléctuo imaginário, sobre põem as visões dos complos imperialistas, acompanhado de um ou mais goles de bebidas etílicas que o faz devaneiar, acompanhado das grandes figuras bufonas de Jânio Quadros e de seu eterno herói Luís Inácio LULA da Silva, juntamente com a do professor Luizinho, que gosta também de um bom vinho.
    Tudo de bom a tí e família.
    gerson Monteiro

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