50 dias de silêncio


Segundo a Bíblia, Cristo, no início de sua carreira, passou quarenta dias no deserto, reinando consigo mesmo e batendo boca com o Capeta.

Ninguém sabe ao certo, até hoje, se o duelo verbal entre o profeta hippie e o bajulador chifrudo foi o resultado mental da privação de água e do calor desértico, ou se o piá divino havia se recolhido aos sertões da Palestina justamente para fumar sossegado aquela ervinha diferente.

O fato é que a besta idéia resultou num dos mais equívocos e irônicos embates de personalidades da História imaginária. Um subordinado do “Todo Poderoso” que oferece reinos ao seu próprio procurador humano plenipotenciário, como se este precisasse do puxa-saco para conquistá-los, em troca da sua adoração é, no mínimo, imbecil ou irremediavelmente vaidoso. O que destoa, por completo, da idéia do diabo malandro e  perspicaz que aprendemos.

Isto sem falar, é claro, na contradição entre um temido capeta perigoso e violento e os laivos gays de uma proposta do tipo: “por que não te atiras deste precipício para que aqueles anjos loiros e sarados venham te amparar nos braços”?

Mas o pior de tudo, mesmo, é o tal Deus vivo encarnado em homem se deixar levar na conversa inábil do tinhoso petulante e hesitar a ponto de quase cair no infernal golpe do bilhete!

Seja como for, duvido muito que o divino exílio tenha tido os percalços por que passei nestes cinqüenta dias sem escrever um ó neste meu site. Chegado aos quarenta e quatro (conjunto de algarismos etários que duplica a infelicidade desta ambígua fase da vida que atende pelo pouco casual nome de “meia idade”), em 30 de agosto, fui,  de um sobressalto a outro, me encolhendo e tornando  a me jogar, pretensamente audaz, ao seu enfrentamento.

A verdade é que a pindaíba crônica se viu agravada, neste dias, pela necessidade  de realizar uma festa decente de 1.º aniversário (completado em 1.º de setembro e comemorado no sábado seguinte, dia 5) à coisinha mais linda do  mundo, a minha filha Isadora. E quaduplicada não só pela ameaça de corte da URV do meu salário (bem como de todos os funcionários da justiça do Rio Grande do Sul), mas também pelas conseqüências salariais da suspensão a que fui condenado em razão das retaliações políticas que me move o patrão judiciário há mais de um ano – que resultou, com o desconto de metade do salário bruto, somado aos normais do contracheque, em nenhum centavo sequer para um gole de cachaça.

Neste meio tempo fui do entusiasmo de sindicalista ameaçado de perder direitos salariais garantidos à perplexidade e o medo covarde de funcionário acossado, sem recursos com que sobreviver e sustentar família senão aqueles que a solidariedade paterna, de parentes da minha mulher e de companheiros de luta e beberagem permitiu-me. Fica aqui a minha gratidão e homenagem a estas criaturas, que saberão quem são, sem necessitar nominá-las.

E, se escrevi e produzi alguma coisa intelectualmente, foi completamente absorvido pelos fatos, de modo que este blog viu-se relegado ao milionésimo plano frente ao seu irmão, o do Movimento Indignação, e aos discursos sindicais e providências materiais necessárias ao drible da secura salarial, que quase me faz delirar como a secura de água do Cristo no deserto.

E assim é que cheguei aqui, três horas da madrugada fria de uma primavera sulina que teima em se esconder e travestir de inverno, para simplesmente dar uma satisfação aos leitores, e, com a linguagem empolada de que volta e meia se reveste a minha dupla personalidade (já que o malandro, nestes tempos, correu em disparada) dizer que ainda estou vivo. E que, apesar de todo o temporal, e da sacanagem, me pego embevecido e terrivelmente feliz e fascinado com um simples sorriso franco, espontâneo, entusiasmado e gostoso da minha filhinha. Isadora, que a vida te seja mais doce e menos pesada do que tem sido comigo, mas, sobretudo, que não seja tediosa, nem tenha menos peripécias do que as que este teu pai louco quarentão tem experimentado.

Isadora no colo de seu avô octagenário, meu pai, Almiro dos Passos, ladeados por mim e minha mulher Janaina

Ubirajara Passos

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Um comentário em “50 dias de silêncio

  1. Henrique disse:

    Parabens Bira, continue na luta. Linda tua filinha.

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