A MORTE DO “DENTE HUGO”


 Dente Hugo é um amigo do Peruca, especializado desde tenra idade em tudo quanto é atividade que envolva um grau mínimo de transgressão ou gaiatice, especialmente aquelas que tem um certo ar de falcatrua. Não por acaso vibrou quando lhe anunciei solenemente num buteco da “parada 79”, em plena conversa de bar, com o testemunho do “pastor” Kadu Macedo (tão embriagado quanto nós), que ao completar seus dezoito anos – o que se daria logo, logo – teria zerada sua extensa ficha no Juizado da Infância e Juventude. Que, a partir daí, ficaria limpinha como nova, prontinha para ser preenchida por contravenções dignas de gente grande.

E um belo dia, entediado com a nobre e profícua diversão humanitária de trocar, para seu avô Ramón (veterano de todas as guerras não havidas), amassadas notas de vinte reais por apenas uma nova e lisinha nota de dez, Victor Hugo (como foi registrado o dentuço gaiato e afoito, espécie de Peruca em couro de camelô), resolveu dedicar-se a um “labor” mais útil e aventuroso: o comércio de fios de cobre. Para cuja obtenção, evidentemente, tornou-se um “exímio” alpinista de postes de luz e telefone.

O negócio ía deslanchando mais que pulga em cachorro de rua, até que, não se sabe se por falta de postes ou delação de seu sócio, o Tibica, Dente Hugo teve de dar um tempo das ruas de Gravataí e procurar o auto-exílio no litoral gaúcho, especificamente nas praias de Tramandaí, para onde se mandou, oficialmente, para curtir um descanso de seu árduo trabalho. Em pleno inverno, bairros desertos, entretanto, era impossível resistir a todas aquelas linhas elétricas dando sopa pela praia e o cabrito Dente Hugo tratou logo de escalá-las para ganhar uns cobres com os fios de cobre. E, como não dispensava uma boa canjebrina, a décima escalada acabou resultando num tombo digno daquele acidente automobilístico do Peruca em Glorinha, o que deixou o nosso herói de molho uns  bons dois meses, em plena praia, sem poder exercitar seus dotes ecológicos de reciclador de metais.

É mais ou menos óbvio que a turma em Gravataí sentiu muito a sua ausência, especialmente o plantão da RGE e o Juizado da Infância e Juventude. Como a coisa andava de boca em boca, numa aflição sem fim (que a cidade, apesar dos seus 300 mil habitantes ainda tem hábitos de vilinha do interior, e a fofoca e a especulação sobre a vida alheia é o principal deles), o safado do Kadu, depois de tomar aquele porre com o “Dente”, em Tramandaí, por conta dos cobres amealhados antes da fatal queda, resolveu dar um incentivo ao principal esporte local. E espalhou na internet, mais precisamente no orkut, entre amigos, inimigos e desconhecidos, que o pobre Dente Hugo havia caído de um poste na praia, batido com a cabeça e expirado, nos  braços de um pescador que lhe contou tudo, de olhos e boca arregalados, não sem antes emitir as antológicas frases a la Peruca: “Diz pra todo mundo que o cobre mata, a gurizada que não siga o meu exemplo. Diz pro Tibica que tá perdoando por ter me ensinado este caminho. Manda o “Charuto” ficar com aquele tênis velho e fazer bom uso, que ele já me roubou mesmo. E não se preocupem: não quero ninguém chorando no meu enterro. É pra beber cachaça, cheirar cola e até descascar fio de cobre. Mas não vão chorar. Ah! Avisa pro pai daquela guria que ela me enganou. Eu só fiz sex…” E morreu com a frase incompleta, revirando os olhos.

Como fofoca por internet é bem mais potente, ainda mais na capital gaúcha do fuxico, o resultado é que o boato se espalhou, e tomou as próprias ruas, calçadas, bares, funerárias e a sala de estar das comadres fofoqueiras. Não havia quem não soubesse ou comentasse o imprevisto desenlace. A própria mãe do Kadu, senhora severa mas sentimental, que detestava a amizade de seu filho com o tal do “Dente”, entrou em casa, um certo dia, transformada em lágrimas, com cara de mater dolorosa, e foi interpelando o sem-vergonha: “Meu filho, tu sabia que morreu o Vítor Hugo? Morreu roubando cobre, na praia, o pobrezinho”.

E o nosso amigo Kadu não sabia, diante da barbaridade, o que fazer: se sumia (prevendo a sessão de xingamentos) ou se fazia de desentendido. Mas acabou não se agüentando: “Ô mãe, pára com isto aí. Fui eu mesmo que inventei esta história!”. Dizem as más línguas que a pobre senhora, após uns dez minutos de discussão se convenceu da falsidade do boato e que o Kadu passou umas quantas semanas desparecido também de barzinhos e rodas de amigos. Não por mera proibição, que aos dezenove anos isto pouco adianta, mas por falta absoluta de cobres no seu bolso, com a mesada morta e enterrada.

Ubirajara Passos

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