UMA DÁDIVA DIVINA


Neste modorrento domingo de páscoa nada como uma historieta besta e folclórica para distrair os leitores, especialmente aqueles que, cristãos fervorosos e convictos, têm a coragem de percorrer as páginas deste blog. Pois um deles, infelizmente morto há mais de um mês, bem poderia ter sido o autor da frasesinha, como, de certa forma, encarnava em sua vida de religioso e militante de esquerda, simpatizante da teologia da libertação, a própria realização prática dela.

Antes que alguém grite em frente à tela de seu computador: “Porra, o Bira pirou! Tomou vinho com maconha ou cheirou óstia com cocaína”, vou explicando a primeira parte do mistério, que, certamente, no parágrafo anterior ninguém entendeu nada.

A “frase” a que me refiro, pelo que descobri em rápida pesquisa, agora, na internet, parece ter sido emitida pelo mentor intelectual da Revolução Americana, o iluminista da margem ocidental do Atlântico chamado Benjamin Franklin, e dei com ela ao ir, hoje de manhã, em um “bar e restaurante” próximo de casa, o Argeu’s Bar, comprar um churrasquinho pronto para comemorar a Páscoa em família (pois, mesmo ateu e libertário, a gente não perde estas manias e aproveita para fazer honra à frase).

Enquanto fazia o pagamento no caixa, entediado e aborrecido com o preço do espeto assado, fui correndo os olhos pela parede do buteco e dei com um cartaz tipicamente cretino: junto a um daqueles alemães balofos de bigode de vassoura, vestido com traje típico, estava escrito em castelhano: “La cerveza es la prueba: Dios nos ama y quiere que seamos felices!” (para os lusófonos distraídos, e, portanto incapazes de traduzi-la: “A cerveja é a prova: Deus nos ama e quer que sejamos felizes”).

Resolvida está a primeira parte do mistério. O leitor pode parar de gritar um pouco ou baixar o tom do berreiro. Ainda que continue a vociferar consigo mesmo: “mas este Bira é um filho da puta, mesmo! Não tem o que escrever e fica plagiando descaradamente, medíocre e metido a besta que é, o Machado de Assis e o Fausto Wolff, em um de seus últimos romances (o Fausto, é claro, que o provinciano Bira não escreve nada), e interpolando um diálogo enrolado com os leitores para encher a murcilha da sua crônica”.

Calma, porém, meus críticos “dominicais”. Pois a segunda parte do mistério é um padre, que se fosse frade poderia até ser dominicano. Me conhecia pessoalmente, ainda que tenhamos nos visto apenas uma meia dúzia de vezes, e chegamos a viajar juntos para a Província de Misiones, no norte da Argentina. E, por incrível que pareça, lia este blog e, entusiasmado, chegou a dizer para seu irmão, o Alemão Valdir, que uma simples mensagem minha de Natal, destas que enviei por celular para toda minha agenda telefônica no final do ano passado, devia estar aqui. O texto desejava que todos fôssemos abençoados pelo Cristo irreverente e revolucionário, o Cristo que amava o prazer puro e genuíno como manifestação mais concreta da vida propriamente dita e que, por isto, não fizera seu primeiro milagre, o que anunciou sua presença no mundo, tratando de assuntos graves e dolorosos, mas transformando água em vinho.

José Lourival Bergmann

José Lourival Bergmann

E o padre entusiasmado, do outro lado da linha, no Rio de Janeiro, que me elogiava para Valdir, era nada menos que Lourival Bergmann, irmão mais velho do meu amigo mais antigo e convicto dos ideais marxistas. Pois o Lourival, que aproveito para homenagear justamente na Páscoa, a cuja memória cheguei, neste momento, por uma série de coincidências, a partir de um simples cartaz emoldurado na parede de um buteco, não só era um revolucionário socialista e libertário a sua moda, apesar dos trejeitos mandões e autoritários inerentes ao treinamento de qualquer sacerdote católico, como era a perfeita prova da realidade da dádiva divina e não dispensava uma boa cervejinha. Na verdade, tanto na república da Amélia Teles, em Porto Alegre, quanto na casa de seus irmãos em Santa Rosa, ou em Oberá, na Argentina, jamais estivemos juntos sem que compartilhássemos do suco da cevada, que o padre sorvia com um deleite maior do que o de qualquer vinho! E tive a honra, umas quantas vezes, de ir ao bar mais próximo comprar umas garrafas do líquido dourado, para nos emborrachar. Aqui fica, tardio e sem propósito, portanto, o meu adeus ao companheiro Lourival. Que esteja, se houver o Céu, se embriagando até dormir pachorrenta e ruidosamente junto ao seu líder, Jesus Cristo.

Ubirajara Passos

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Um comentário em “UMA DÁDIVA DIVINA

  1. gerson Monteiro disse:

    Olá amigo!
    Não posso deixar passar em “branco” esta oportunidade.
    Embora não conheça a família do finado, minha singela condolência, e sem faltar o respeito com o falecido, tomo a liberdade de fazer uma brincadeira com seu honrado adimirador.
    Bira, sei bem de suas incursões no extremo sul do País, através de seus relatos pessoais, assim bem como através de seu Site. Mas o que não contaste, foi que ajoelhado rezavas pelas almas perdidas influenciado pelo amigo religioso, que despido de seu hábito, mostrava seu lado humano.
    Embora tendes teimosamente a demostrar teu lado ateu, principalmente ao Deus branco, rogo que pagues a penitência de orar três Aves-Maria e três Pai Nosso, pela memória do finado.
    gerson Monteiro.

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