ALMANAQUE DO PERUCA – 2


Se há algo que me deixou enlouquecido nos 60 dias em que estive afastado do trabalho, em razão da “suspensão preventiva” que me foi aplicada, foi a falta da convivência diária com o grande mestre da sabedoria asnífera da juventude gravataiense que atende pelo modesto nome de Peruca. Não sei, mesmo, como não me vi reduzido à burrice anêmica e desamparada!

Mas bastou uma semana de trabalho para que eu tivesse o privilégio de colher as mais exóticas, profundas e requintadas pérolas do florilégio filosófico do bocaberta mais ilustre de Gravataí, que aí vão publicadas:

  • SOMBRINHA PRA QUE TE QUERO?

Na primeira sexta-feira chuvosa do ano ía o Peruca empertigado estacionando seu flamante carro com a mais diligente agilidade possível (o que significa meia-dúzia de automóveis abalroados nas proximidades), quando a “Schuvaca Horripilis” (sua meiga esposa), preocupadíssima em não tomar um banho involuntário, alertou-o:

– Tu não pegou uma sombrinha, né Peruca?

– Ô mulher, deixa de ser implicante! Não tá vendo que não tem vaga debaixo do arvoredo! E além do mais, sombrinha pra quê? Hoje não vai fazer sol mesmo!

  • CASTELO PRA ALUGAR

Esta é foda e faz necessária uma erudita explicação, sem a qual os leitores que não forem habitantes de Gravataí não entenderão bulhufas. Assim, antes de referir o episódio, consigno que, para desgraça de seus moradores, há na cidade um antigo bairro (que foi a primeira “vila” popular construída pelo governo do Estado, especificamente pela CoHab – a Companhia de Habitação) chamado de “Castelo Branco” (“casualmente” o primeiro ditador gorila do regime entreguista inaugurado no Brasil no dia dos bobos de 1964).

Pois o fato é que o Peruca acompanhava sua excelentíssima esposa em uma visita a uma imobiliária, na intenção de alugar um ninho de amor mais confortável, quando o infeliz corretor lhes informou que tinha um imóvel pefeito para as pretensões do casal. Só restava saber se havia algum problema para eles em morar lá na “Castelo”.

E o Peruca, suando frio só de imaginar o preço absurdo de tão nobre prédio, saltou gritando como pivete em fuga:

– Não, moço, o senhor me desculpe! Isso aí é muito grande, eu até vou  me perder e nunca mais achar o caminho!  O que eu queria mesmo era uma casa!

  • O CORCUNDA DE NOSTRADAMUS

A coisa aconteceu comigo e juro que é real, apesar do tom farsesco!

Por incrível que pareça, o Peruca resolveu se preocupar comigo, afinal, depois de dois meses sem trabalho, era visível, segundo ele, que eu me encontrava tão abatido, cabisbaixo e desacostumado de levar sobre os ombros a carga diária enorme de cálculos judiciais, que apresentava um terrível problema de postura. Recomendou-me, mesmo, que fosse fazer uma musculação terapêutica (não é mentira, não, a criatura usou exatamente esta expressão) a fim de fortalecer os músculos das costas e corrigir a verdadeira sifose que eu havia adquirido.

Mas, como mandei-o à merda dizendo que não havia problema de postura algum, o meu zeloso amigo arremeteu:

-Pô Bira, deixa de ser besta! Vai dar um jeito nisto, que a coisa tá feia! Tu até tá parecendo aquele personagem de filme que se apaixonou pela cigana Esmeralda,  o “Corcunda de Nostradamus”!

É evidente que tentei explicar o engano. Mas o Nandinho Andarola (mais novo estagiário do setor, tão esperto quanto o Peruca, cujas façanhas serão, neste blog, em breve narradas), não deixou por menos e tratou de corrigir a nossa ignorância:

– Vão ser burros assim lá em Paris! Então vocês não sabem que este cara não era personagem de filme nem livro nenhum! O sujeito existiu sim, embora não seja muito mencionado pra não manchar a reputação sexual do profeta! Nostradamus era veado, gostava de sexo bizarro e tinha um corcunda que pegava ele! Quem é que vocês acham que anotava as previsões que o sábio recitava em transe?

Ubirajara Passos

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