O VAZIO POLÍTICO DO BRASIL


No início de 2004, quando eu ainda vivia o ostracismo político no Sindjus (afastado que estava de qualquer atividade desde 2001), nem imaginava ser candidato a vereador pelo PDT, militar (sofrido e frustrado, é bem verdade) no partido nos anos seguintes, ser membro do Conselho Geral do Sindjus, coordenador do Núcleo de Canoas, defender a regionalização do sindicato nas eleições internas seguintes (2007), fundar este blog ou a minha paixão político-sindical atual (o movimento INDIGNAÇÃO) eu escreveria o desabafo intelectualizado que reproduzo abaixo, que, hoje, espelha fielmente o cenário de vazio revolucionário (e total hegemonia do “partido único” da burguesia fascista e do imperialismo yankee: o governo do Inácio) da política brasileira.

O texto, como alguns de meus poemas, é profético e (apesar do contexto de “militância prática zero” em que eu vivia e da ingenuidade na caracterização do PC do B e do PSTU, que – apesar de amenizada no meu pensamento, em relação ao último, anos depois – acabou por se revelar mais cruenta do que supunha) antecipa surpreendentemente o que até então não era tão claro na futura “República do Mensalão” em termos de terra arrasada do cenário político.

Naquela época, por exemplo, Brizola ainda era vivo, recém havia rompido com o governo petista e começava a disparar sua artilharia verbal indignada e revolucionária sobre o governo traidor do Inácio dos Nove Dedos. Ainda que o PDT, ao contrário de seu velho e incoercível líder, já padecesse de um peleguismo arraigado, era inacreditável imaginá-lo dócil e submisso no ministério de Dom Lula. O PSOL ainda não surgira, para se revelar a mais nova e inútil esperança dos revolucionários socialistas desiludidos com as velhas cartilhas, das quais eu imaginava o PSTU, e o próprio PC do B fossem equivocados e ingênuos discípulos – o que hoje já não é mais possível supor, depois de anos de cumplicidade explícita e fisiológica  (caso do PC do B) ou de imobilismo fossilizado, de triste e enrustida cumplicidade com o mundo da política formal clientelista e vaidosa, dos nossos trotskistas bem-comportados e “disciplinados”.

Hoje, com exceção das pequenas particularidades apontadas, o texto cai como uma luva, tanto na realidade nacional, quanto na minha posição política quanto a ele, que, com exceção do movimento Indignação, é cada vez mais solitária. Vamos ao ensaio:

Minha Solidão Política. 

I 

Vivo o dilema de não ser apolítico, mas não ter partido onde militar, sem trair minhas convicções íntimas. Sou filiado ao PDT, mas seu programa possui uma perspectiva excessivamente social-democrata, admitindo a continuidade da existência das classes sociais, e crê ingenuamente na possibilidade de construir o socialismo pela domesticação da classe dominante.

Muito embora tenha atuado apenas no sindicalismo (da forma que me permitiam as contingências, e limitações impostas pela ala majoritária da diretoria – a  que me opunha), não tenho agido de modo concreto na política formal menos por intelectualismo diletante e timidez do que por reconhecer que não há no Brasil partido político que me permita lutar em vista da minha ideologia e sem ter de violentar meu pensamento.

Prefiro o ostracismo da vida privada, e continuar a sonhar com a revolução no bar e no gabinete, à hipocrisia e a reforçar, com meu engajamento, práticas e concepções que colaboram para manter as criaturas atreladas a crenças impositivas e infelicitantes, que lhes recusam toda possibilidade de pensar e agir por si mesmas, sob a garantia falaciosa de uma felicidade e um conforto dignos de bem vestidos e alimentados, mas “bem comportados” – e oprimidos – alunos de um internato da primeira metade do século passado! 

II 

A esquerda predominante (o PT e o PSB), ao atingir o poder, simplesmente revelou a sua oculta (mas previsível) e verdadeira face de fascismo pequeno burguês, envernizado por altissonante e sedutora retórica “socialista”.

O PC do B (que, apesar de sustentar o poder federal, possui discurso ideológico coerente com sua prática histórica) se ressente, como o oposicionista PSTU, do totalitarismo dogmático que reduz a massa de trabalhadores a um rebanho inciente, a ser conduzido com mão forte e paternal à estrada do paraíso, revelado ao profeta Marx pela divindade das forças materiais (que, contraditoriamente ao conceito de alienação por ele desenvolvido, tomam, no seu pensamento, o caráter de autônomas, com vontade própria, independente e acima dos homens, lhes determinando o  fatal destino histórico).

Mas, até mesmo as federações anarquistas são antes clubes de “adesão” forçada, mais presos a um ativismo inspirado na cartilha do que (pasmem!) à liberdade de pensamento, ao questionamento independente e  à análise da realidade concreta!

Amo acima de tudo a liberdade e o prazer e creio firmemente que este (que se identifica com tudo que é saudável e genuíno, com o que gratifica nossos corpos e mentes, permitindo-nos a perpetuação da vida e a vida da alma, repleta de movimento e fascínio) só pode existir como resultado daquela.

E, infelizmente, as correntes políticas organizadas, nos dias de hoje, contaminam-se, todas elas, nas águas de maior ou menor autoritarismo disfarçado, dos velhos moralismos perpetuadores da infelicidade emocional e da opressão da maioria, e – sobretudo – de uma ideologia que vê nos indivíduos antes crianças a serem tuteladas (ainda que dentro dos critérios de “bem-estar”, “futuro”, ou progresso, para elas sonhados por seus pais – os políticos) do que seres dotados de razão, sensibilidade e autonomia, que têm direito a construir, por si e para si, o próprio roteiro biográfico. Ao invés de auxiliar a emancipação dos trabalhadores, nossos revolucionários institucionalizados pretendem, no máximo, organizá-los em obedientes manadas que lhes satisfaçam as alucinações messiânicas e apocalípticas! 

III 

Antes, porém, que me acusem de utópico, de idealista inconseqüente e desvinculado do mundo do possível, incapaz de alistar-se nas fileiras de um partido que busque ao menos criar as condições materiais de vida digna sem as quais não se pode almejar tão altos ideais de consciência, beleza, liberdade e rica e complexa subjetividade, me apontem uma única sigla neste país que, hoje, tenha a real vontade e a determinação, entre seus membros, de se empenhar de corpo e alma (admitindo até o próprio martírio) nesta luta “realista” pela emancipação possível, mínima e necessária, das massas de oprimidos! E digam-me, acima de tudo, se pode-se efetivamente marchar, a partir dela, rumo à uma realidade digna de seres pensantes e não de meros animais bem tratados!

Fica bem claro para mim que entre os partidos socialistas e comunistas, as organizações anarquistas formais e os meus pontos de vista há divergências essenciais e irredutíveis e que só criando, com os companheiros que comunguem dos mesmos ideais, a própria organização, partidária ou não, me seria possível empreender luta política efetiva, que vá além da mera crítica literária e da elocubração intelectual. Aí nasce, sim, perante minha insegurança pessoal, toda a dificuldade!

Vila Palmeira, 7 de fevereiro de 2004

 

Ubirajara Passos

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Um comentário em “O VAZIO POLÍTICO DO BRASIL

  1. Júlio Cesar Kirchmann Monteiro disse:

    Creio que o amigo sofra a frustação da indignação sócio cultural, hoje já globalisada. O ser humano por ter suas diferenças, possuí identidade própria e vive a questão do ser ou não ser, que nada mais é que a dualidade de comportamento no fazer a escolha do certo ou do errado. Culturalmente nosso povo deixou de pensar, optando pelas ações ocas dos discursos, carregados de sofismas, esses farizeus perpertuam-se, dado a escolha comodista do homem, que delega poderes a seus falsos líderes, que fazem a farra a custas do erário público, pois não o são fiscalizados, pois falta participação. O zé povo deixa-se enganar para não tarbalhar, sendo que muitos não sabem nem como o fazer. Mas a mãe esperança caminha ao lado dos sonhos, e o que importa é que mentes como a sua estejam nas causas comuns solidárias na unidade, nas de propóstas diferentes liberdade de escolhas e em todas fraternidade e respeito, sem deixar de fazer uma avaliação crítica, das mesmas, mas com muita coerência. Até a próxima.

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