A “UTOPIA” DA “VIDA”


A necessidade de manter atualizado o blog do Grupo 30 de Novembro (grupo30.canalblog.com) levou-me a revisitar, nesta semana, alguns poemas políticos deste blog (como O Sonho do Peão  e Desabafo de um “Peão-Padrão” ante o Domínio), assim como alguns ensaios dos Sermões na Igreja de Satanás (entre eles, Das Vantagens da Ignorância), acabando por publicar os citados.

E, no estado de consciência totalmente “bipolar” em que me encontro, acabei por lhes achar um sabor e uma profundidade que a devastação de um quotidiano monótono e a depressão haviam há muito sepultado. Daí às memórias afetivas que envolvem tanto o parto destes textos, quanto a rara divulgação entre conhecidos e colegas de trabalho, na era pré-blog, foi menos que um tropeço…

Logo saltou-me às guampas a ocasião em que dei uma cópia dos sermões à alemoa Glacy, faz aí já uns cinco anos, e tendo eu reclamado que a criatura só lera os “trechos picantes” de sermões como Do Comércio Sexual e Da ideologia da Qualidade e o Desempenho Sexual, sem dar por conta dos textos mais “sérios”, de profundo e “engajado” anarquismo, ela me veio com a notícia de que seu marido se dera ao trabalho de percorrer todo o livro. E chegara à conclusão óbvia e padronizada de um velho militante vermelho que era: Como todo anarquista, eu era utópico e libertador!

Não é nem necessário contar a fúria que me incorporou com este negócio de “todo”, que vai logo nos jogando na padronização reducionista e senhoril da destinação utilitária, como perfeitas reproduções que somos todos dos parâmetros “universais” deduzidos pela mente imbecilizada de qualquer teórico cartilhesco.

Mas o que me deixou mais puto da vida foi a adjetivação de utópico!

Afinal eu não me julgava nenhum idiota messiânico e otimista, destes que insistem em rebentar o cu, contra todas as indicações “concretas” e duras de uma realidade filha da puta, no exercício de um radicalismo ingênuo e crente. Isto é esporte que deixo para a turma do chafariz da praça da prefeitura de Gravataí, que pelo menos ganham alguns cobres suados e melados com as taras do Peruca!

Como todo DDA tonto , só hoje, me dou conta, entretanto, da implicação efetiva do pretenso “anarquismo utópico”! Utopia para o meu crítico de plantão era a própria liberdade, o direito ao prazer e ao bem-estar, a condição de indivíduo humano, pensante e sensível, cuja existência se justifica por si mesma!

O resto, a escravidão babaca e imbecilizada, a vida de permanentes sobressaltos ante os “caprichos” de um senhor ou chefe temperamental e retardado qualquer (não sei por que logo imagino o Nero abobalhado, vaidoso, cretino e pérfido daquele velho épico yankee, Ben Hur, ao escrever este trecho) é, na versão do meu exegeta de então, a mais perfeita e inquestionável regra – rotineira e comum -, cujo questionamento só poderia ser obra de um insano ser “excepcional” e extra-humano!

E o detalhe é que tão preciosa apreciação filosófico-político-estética não é exclusividade dos filhos da cartilha camarada, mas a visão comum do gado humano nos últimos seis ou dez mil anos! Qualquer coisa diferente da funesta condição de escravo, de instrumento conformado e sem humanidade, submetido às piores torturas psicológicas que nem um cachorro de moleque irrequieto suporta, para a maioria avassaladora da humanidade, é algo estranho e doentio! Uma múmia ressecada e tesa é  seu ideal de perfeita humanidade!

O bom-humor, o prazer puro e pueril do corpo e da alma, a piada instigante e ágil, a mente aberta, inteligente, questionadora e livre, a natural simpatia com os parceiros da jornada de vida, a tendência humana (terrivelmente reprimida, mas subjacente, sempre que o aparato autoritário pisca por um segundo) à convivência mutuamente gratificante, até mesmo no anedotário típico das pequenas vilas, são o mais próximo e “razoável” da nossa natureza de animais mamíferos “evoluídos”. Mas a perfídia filha da puta do sadismo sofisticado vê nisso, quando não um crime, algo impossível, longínquo e inválido.

Ubirajara Passos

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