“É FODA” ESTAGIAR NO TRIBUNAL


Por incrível que pareça, em pleno século XXI, o velho ranço beato e anti-prazer anda grassando justamente na sede do judiciário do Estado pretensamente mais politizado (e supostamente, liberal) do Brasil. O que só prova, no microcosmo das relações quotidianas (quase familiares) de trabalho, o que se encontra toldado na vitrine da política nacional: estamos em pleno regime fascista, do pior fascismo – aquele que se ampara na vigilância, nos mexericos e no dedo-durismo mesquinho do fiscal de esquina.

E, nesta modernosa reprodução da inquisição medieval, nem mesmo os princípios do liberalismo burguês (que admitem a maior liberdade de expressão e exercício da vida pessoal para a classe privilegiada) encontram qualquer eco! Em nome do velho sadismo da classe dominante – do tesão, filtrado por camadas ontológicas de repressão e “punição”, que se transforma em raiva hidrófoba e furibunda (coisa a que o mestre Reich dava o nome de “peste emocional”) – é preciso que toda a mínima manifestação de vida, de prazer e bom-humor seja devidamente pisoteada e extinta debaixo da chibata e da chinelada. O que, eventualmente, se estende aos próprios rebeldes da classe abastada que nos cavalga!

Antes que algum leitor tenha um “ataque de cu”, e rebente as hemorróidas com os próprios dedos, vou esclarecendo. Não se trata da famigerada ordem de serviço que, em flagrante desrespeito ao formalismo consitucional, decretou, ao arrepio de lei complementar vigente no Estado, a limitação do número de servidores que poderia comparecer à Assembléia Geral do Sindjus-RS no último dia primeiro, sob o argumento escravocrata e militarista de que esta estava se realizando “no horário do expediente” (quem sabe pertence, agora, ao patrão, o Tribunal, no caso, a prerrogativa de fixar quando seus escravos poderão reunir-se para tratar da ração e do número máximo de chicoteadas no tronco?).

A coisa é bem mais sútil, hilária, para não dizer ridícula, e beira ao puritanismo de “grupo de pais e mestres” de escola ginasial protestante yankee! Conforme ordem de serviço emanada da seriíssima e “impoluta” Secretaria das Comissões” do Tribunal de Justiça, através do “Of.-Circ. n° 12/2008-AdmTJ”, de 31 de julho passado, os estagiários (leia-se escravos sofisticados, ou simples mão-de-obra barata e sem direitos) contratados do palácio-sede devem ser advertidos, sob pena de DEMISSÃO, para não praticarem mais os crimes de lesa-pátria que reproduzo abaixo, conforme o original da exaustiva deliberação tomada em “reunião da Administração do Prédio” em razão de “alguns fatos relativos ao mau comportamento de estagiários, tais como:

 § Sanitários: problemas de depredação e pichação;

§ Terraço – fumódromo: subidas de estagiários ao 12º andar para encontros, apresentando comportamento contrário às regras de decoro;

§ Restaurante: grupo de estagiários que vem servindo-se do buffet de lanches e apresentando somente a comanda de bebida;. § Copa do 4º andar: usuários estão depredando o patrimônio da copa, com a retirada dos botões do microondas;

§ Copa do 4º e 9º andar: estagiários ficam brincando no elevador utilizado pela copa e restaurante; § Uso de crachá os estagiários não estão usando o crachá nas dependências do prédio.” 
 

Para a devida advertência e coibição de “faltas” tão hediondas e prejudicais à administração pública e aos interesses da população que paga os salários de nossos justos e denodados magistrados, assim como de seus servos de luxo, digo, estagiários, o ofício refere que “Dessa forma, a Administração do Prédio do TJ solicita colaboração das chefias para que cobre de seus estagiários que devem observar as normas de comportamento social condizentes ao Poder Judiciário, informando que a Equipe de Segurança vai intensificar o monitoramento, para identificação dos estagiários, com a conseqüente e imediata rescisão contratual”.

Mas, afora as reprimendas à indisciplina “infantil” (devem ser muito interessantes as “brincadeiras” praticadas pela piazada na faixa dos dezoito aos vinte e tantos anos nos elevadores da “copa” – fico a imaginar se a coisa envolve os tradicionais folguedos de “pegar”, “esconder”, “cabra-cega” ou a velha história de “brincar de médico”), o que mais salta aos olhos é esta história sobre o “Comportamento excessivo de namorados no terraço (fumódromo) já foi, inclusive, flagrado pela segurança”.

Ao que tudo indica, conforme a própria reprodução da determinação (não estou inventando nada), a pobre gurizada se fode com o salário miserável de aprendiz (que não chega a 2 dos salários “mínimos” de fome canina que nos propicia o nosso amo Luís Inácio) e com uma perseguição feroz da segurança local, especializada não em prevenir possíveis atentados de “subversivos comunistas”, gangues do crime organizado, os PCCs, ou outros congêneres, mas em escanear as mais ingênuas piadas e esquemas de “otimização” orçamentária do bolso da turma. Mas o mais imperdoável é que, talvez inspirada na sacanagem das altas rodas da nobreza provinciana de Porto Alegre (que inclui inúmeras castas, inclusive algumas tradicionais famílias “operadoras do direito”), ao fuder em plena sede do poder mais conservador e sisudo da República, comete o supremo pecado mortal, totalmente contrária ao “decoro” de suas excelências, de sentir prazer em pleno templo do castigo.

O troço é extremamente grave, afinal a piazada está fazendo a coisa de graça, bem longe dos olhos da principal cafetina da capital, a tia Carmen, honrosa senhora que tantos nobres e abnegados serviços tem prestado à alta cúpula do “patriciado político dos três poderes”. E, dizem as más línguas, não foi a transgressão simplória e ingênua de uma simples transa, mas um pecado bem mais grosso e cabeludo. Uma linda e gostosa estagiária (infelizmente bem longe dos gabinetes das chefias) se dedicava, quase nua, ágil e diligentemente, a boquetear um reles estagiário, quando foi pega em delito de felatio in varus por um balofo e invejoso guarda.

Pobres estagiários! Não podem dar um simples peido no corredor que tem um policial na cola, lhes bafejando a nuca, indignadíssimo com a falta de compostura (e, sobretudo, por não ter sido convidado para a orgia do 12º andar). E ainda tem de ouvir as aventuras sexuais de muita assessora de cargo em comissão, sem direito à menor punheta nos banheiros, ou à simples foda improvisada nos recantos do prédio!

Sinceramente, se, ao que se depreende das proporções da preocupação de nossos altos magistrados com a transa estagiária, o maior problema da Justiça gaúcha, nestes dias, além da meia-dúzia de servidores rebeldes (que não aceitam viver, ano após ano, sem qualquer reajustamento nos seus salários de peão mal remediado, e tem a petulância de exigir a recuperação da alta dos preços, que lhes confiscou as possibilidades da carteira em mais de 63% nos últimos anos), é a “foda no palácio”, bem que podiam garantir à juvenil equipe de escravos o “vale-motel”, para que, ao menos, possam fazer alguma coisa de útil com seus parcos salários

Ubirajara Passos

 

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Um comentário em ““É FODA” ESTAGIAR NO TRIBUNAL

  1. Lea disse:

    PuxA! Pela primeira vez em minha vida, pude observar um político realmente autêntico, fazendo sua campanha falando a verdade… a mais pura verdade, acredite e constate no site abaixo:

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