OLHOS DE “RESSACA”


Eu tinha quatorze anos, a idade de Bentinho no início do romance, quando “Dom Casmurro” me apresentou Machado de Assis, por puro voluntarismo ingênuo, sem nenhuma influência de quem quer que fosse, nem a obrigação da leitura para elaboração de trabalho escolar.  Eu era então um guri romântico,  brizolista e católico franciscano,  cuja maior diversão, naquelas férias de julho, era acordar de madrugada para assistir à cobertura da passagem do papa João Paulo II pelo Brasil, não perdendo uma missa ou palestra.

O máximo que conhecia da literatura brasileira, além dos tradicionais romances e crônicas da coleção paradidática da Editora Ática, eram os romances de José de Alencar e a Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo. E estas leituras alimentavam os meus pendores de piá ingênuo, apaixonado  platonicamente por uma linda colega de aula, de olhos verdes, cabelo castanho, sorriso malicioso e seios duros e fascinantes, de nome Cátia, que hoje, na casa dos quarenta,  é professora de matemática em Gravataí.

E foi, nestas férias de inverno, às voltas com o Papa e a Cátia que fui um dia a uma pequena livraria do centro, que mais era uma papelaria, e hoje é a maior da cidade, com direito a duas filiais (o que para Gravataí, 300.000 habitantes, é até bastante, a julgar pelo índice de alfabetização de seus vereadores e secretários municipais), e lá comprei, entre outros, a dita obra prima do Machado, que só me chamou a atenção pelo inusitado do título. E imaginei que Dom Casmurro fosse uma aventura a la Zorro.

Acostumado com os romances românticos, encontrei-lhe um tom um tanto diferente, mais pessoal, mais próximo das minhas próprias perplexidades simples de piá de quinze anos. Porém confesso que foi só nove meses depois (uma verdadeira gestação literária) que, já próximo dos dezesseis, dei com o sentido verdadeiro da ironia ferina, intimista e desiludida, mas extremamente consciente e cômica do Machado realista, ao ler o meu preferido, que são as Memórias Póstumas. Li-o como se estivesse tomando leite (hoje eu diria cachaça) e senti, na consciência pessimista e provocativa do Brás Cubas, o eco dos meus sentimentos e neuroses, que começavam a aflorar em meio aos restos do meu romantismo beato e se tornariam uma condição permanente, junto ao ateísmo materialista e à liberdade crítica, um ano e meio depois, aos dezessete, em novembro de 1982.

O Dom Casmurro, entretanto, apesar de escrito na fase realista, em primeira pessoa, foi para mim quase uma continuidade do romantismo. Capitu e Bentinho eram, no máximo, meus cúmplices nas minhas fantasias amorosas e no meu desconsolo de apaixonado não correspondido.

Mas o mais estranho, para não dizer bizarro, com que dei na sua leitura foi o título de um dos primeiros capítulos (que, se não me engano, antecede “O Beijo”) que era, nada mais, nada menos, que “Olhos de Ressaca“. Eu ainda não era um bêbado inveterado (e custaria muito a sê-lo, tomaria o meu primeiro  e único – naquele dia – copo de cerveja no meu décimo quinto aniversário) e mal tinha idéia do signficado, na gíria, da tal palavrinha, embora soubesse, teoricamente, que se tratava de um estado de mal-humor e mal-estar pós-porre.

É claro que, apesar do jargão popular, logo entendi que se tratava do fenômeno marítimo relacionado às tempestades. Mas, na semana passada, do alto dos meus infelizes quarenta e dois anos, conversando com minha amiga Simone, surgiram ao acaso alguns chistes em torno da literatura machadiana e me lembrei da expressão. E constantei que, se nos tempos do velho mulato Machado se podia tranqüilamente dar a conotação de algo que “puxa” e nos arrasta a um tal olhar, hoje seria praticamente impossível se afirmar que alguém tem olhos de ressaca sem causar estrondosas gargalhadas ou terríveis constestações beatas.

Se Capitu vivesse num romance dos dias atuais não seria nenhuma menininha com olhar dissimulado de cigana a encantar, e mergulhar no fundo da pupila, os tesões enrustidos de romantismo abstrato de um adolescente Bento. Teria, com certeza, estampado na face algo mais que metafórico: um par de olheiras daquelas negrérrimas e aquele olhar aparvalhado de quem fumou todos os backs até apagar a própria mente. Ou pelo menos aquela expressão dormente e sofrida de quem mergulhou profundo nas ondas verdes, não do mar, mas do absinto, e enfrenta verdadeiros temporais no cérebro, que solta faíscas de dor e arrependimento…

O olhar moderno “da” ressaca de uma Capitolina do século XXI não seria hipnotizante, mas antes o de uma criatura em transe hipnótico, viajandona e doida pra caralho. O tal Bentinho não teria a menor chance de ficar limando as guampas pelos velhos muros de um vetusto e nostálgico bairro em permanente sobressalto e dúvida quanto à traição “infame” perpetrada e ao seu lastimável estado de virtual corno. Uma Capitu destas não deixaria qualquer espaço à mínima incerteza. Pirada, devassa e alcoolizada, o máximo que seu pobre apaixonado poderia fazer, entre um chá de cogumelo e uma balinha de êxtase, seria imaginar se ela trepara com a melhor amiga, se deu pro sogro ou foi ele mesmo que comeu, enquanto era enrabado por um ex-padre pedófilo “regenerado” e convetido à orgia adulta, de nome Escobar!

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