DO DOCE DE COCO À BOSTA DE VACA


Apesar da importância das decisões e atitudes que tenho tomado nos últimos dias, esta semana uma clássica exaustão de DDA, aliada à falta de sono crônica, me tomou a ponto de me transformar num verdadeiro “zumbi” haitiano, completamente sonolento, burro e robotizado. Uma criatura daquelas que consegue cumprir apenas as “tarefas” mais burocráticas e insossas do trabalho e do quotidiano diário – da cagada protocolar pela manhã ao cálculo judicial urgente das 3 h da tarde, do pagamento da conta de água no caixa do Banrisul ao peido incontido no meio do cartório, e da assistência do noticiário televisivo à esculhambação privada dos mais vaidosos inimigos políticos.

E foi em meio a esta jornada de “morto-vivo” que, num lampejo dos mais infantis e, por isto mesmo, criativo, acabei por parir com o Kadu, no finalzinho desta tarde, uma das  conclusões filosóficas mais geniais da história humana sobre a terra. A coisa pode cheirar a Machado de Assis (sem nenhuma conotação onomatopaica!) e ser digna de figurar no discurso do filósofo Quincas Borba (quem sabe até na cartilha positivista do próprio Comte, na sua  versão escrita em “absinto”), mas o fato é que ultrapassa, em originalidade, até o próprio Einstein!

Depois de ver, pela segunda vez nesta semana,  o Peruca encher a barriga de doce, inclusive banana, torta de chocolate e coca-cola, e sair correndo com a mão nas calças para casa – não para “esvaziar a barriga”, mas trocar de roupa – me dei por conta, “a las cinco en punto de la tarde”, como diria o velho Garcia Lorca (poeta andaluz gay e revolucionário assassinado pelo fascismo franquista no início da guerra civil espanhola), de que, nesta nossa vidinha de animais humanos, primatas precários, “evoluídos” mas desconectados das raízes mais básicas e benéficas da vida, tudo que começa doce acaba se transformando em merda!

Não é preciso ser nenhum Sócrates, muito menos um Heidegger ou Witgeinstein (perdoem-me os leitores eruditos a possível grafia errada, pois já estou meio bêbado – o que é um mal hábito: o bom é estar embriagado por completo) para determinar tal comezinha equação. Mas, com certeza, muito pouca gente já se deu conta disto e levou o troço a sério. O fato é que o mais delicioso manjar, o mais sofisticado, “nobre” e raro prato, daquele quindim de sabor inigualável a um exótico caviar ou escargot (lesma fresca de francês muito comentada no Brasil dos anos 1980), passando pela pamonha de um colono açoriano (pasta de milho ralado cozida na palha da própria espiga) ou por um bronco xis-burger gaúcho, tudo, no fim, percorrido o trajeto de um arrogante e vistoso corpo humano (até o daquela gatinha linda, miona e gostosa) acaba por virar uma grande bosta!

O que não justifica, ou ao menos não deveria, com certeza, justificar os absurdos de uma revolução russa de 1917 desembocando no autoritarismo torpe e vaidoso de um Stalin (assassino de milhões de camponeses), uma revolta estudantil libertária e impetuosa de Paris em 1968 se tornando a sombra mal-concatenada de uma pretensa “malandragem” e uma forma “casual” de ser na vida privada, incorporada aos canônes do imperialismo capitalista; ou a  crença, ingênua mas determinada, de um povo oprimido num PT brasileiro resultando no governo mais fascista e, ridícula e atrozmente, coronelista e feudal da história nacional, sob o comando do Inácio dos Nove Dedos (Lulinha, o mais entusiasta “cabo” eleitoral latino-americano do candidato fascista “republicano” John McCain à presidência dos United States of America).

E, muito menos, deveria ser motivo para que transformemos nossa vida, nós animais capazes de consciência de si próprios e do mundo, de raciocínio lógico profundo e, simultaneamente, de profundidade de sentimentos e emoções, numa verdadeira bosta, rotineira, insípida, sem criatividade, nem direito às próprias decisões. O velho aforisma daquela brincadeira infantil (quem tem mais de quarenta anos deve se lembrar, não sei se a molecada ainda a conhece) deveria ser invertido, na sociedade autoritária e hipócrita que vivemos, para derrogar toda opressão: Vaca amarela/cagou na panela,/Quem” não “falar primeiro”/Come a merda dela!“.

Ubirajara Passos

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