JOÃO VELHACO


Já mencionei, há uns meses, o velha esquema da imprensa brasileira, no auge da ditadura militar fascista de 1964, de substituir matérias censuradas por meras receitas de bolo, trechos dos “Lusíadas”, de Camões, ou mesmo por, aparentemente, inocentes e ingênuas previsões de tempo.

Pois é, por falta absoluta de originalidade para abordar outros assuntos transbordantes de ardor, como os capítulos seguintes da “Bíblia do Peruca”, e não por imposição de qualquer censor externo ou interno, que resolvi acatar a sugestão do companheiro Valdir Bergmann.

E, assim, publicamos, em homenagem à maioria avassaladora de “gatos pardos” da política nacional (embora alguns bichanos se diferenciem pelo tamanho do rabo, que tende a crescer com a reposição de seus minguados salários em 143%, como é o caso da governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius), o poema que segue.

O texto foi escrito a quatro “patas” por mim e pelo alemão Valdir, há uns quatro anos, como sátira aos ilustres sindicalistas pelegos destes pampas, e serve como uma luva para advertir-nos contra falsos líderes, do quilate de Lula e de Stalin, especialmente neste momento em que setores do serviço público gaúcho, como os funcionários do Poder Judiciário, sofrem os mais descabelados ataques à sua condição salarial e funcional, destinados que estão, pela patronagem, a se transformar em meros robôs de carne e osso, sem direito a reajuste, nem dignidade pessoal em seu trabalho.

Deixamos claro, desde já, que qualquer coincidência com a trajetória de algum dirigente petista é mera semelhança. Vamos às “quadrinhas”:

João Velhaco

Dizem uns, foi em Pelotas,
Outros em Arroio Grande –
Lá pelas bandas do sul,
Nasceu há uns bons trint’anos
O bebezinho João!

Joãozinho, lindo moço,
Tão simpático e envolvente,
Rechonchudinha criança
Desde cedo revelou-se
Um primor de rebeldia!

Na festa de formatura,
Orador, do pré-primário,
Encantou toda assistência
Com um discurso veemente:
Cola tenaz (não havia
Ainda a super bonder)
Jogar aos cabelos da “tia”
Era um tremendo protesto
Contra os maus-tratos à infância!

Já jovenzinho, criado
Na escola forense da vida,
De pai Oficial de Justiça,
João, embora panfletário,
Da pompa dos gabinetes
Tanto viu-se fascinado
Que integrou-se ao Judiciário.

Mas ao pai que era o exemplo
Joãozinho não suplantou!
Fez-se apenas escrevente
E, rebelde novamente,
Resolveu ser o momento
De fazer algo medonho:
Tornou-se sindicalista
Pra balançar toda gente!

Greve, passeata, discursos –
Discursos e mais discursos –
João era um temporal!
E da sua boca saia
Não o inconformismo apenas!
Seu palavrório era belo,
Tão lógico, tão perfeito!
João, bonachão gordinho,
Homenzinho sem defeito,
Era a estrela do dia!

Mas, como isso não rendia
Nem um tostão, nem trazia
Fama maior, iracundo,
“Don Juan”, gay enrustido,
Na comarca, furibundo,
Frustrou-se e se foi ao mundo.

Como quando piá havia
Na primeira vez levado
Um tarugo na sua bunda,
Nosso caro Don Juanzito,
“Trespassado” de entusiasmo,
Finalmente descobrira
Como ser “alguém”,
Sem ser profundo!

Tornou-se mais contudente,
Relinchou, deu coice, fez-se
Tão intenso e Presidente
Já era do sindicato!
No cargo, traiu, roubou,
Praticou todos conchavos
Que a arte da vigarice
Supõe e, sempre irado,
Aos traídos encantou.
Enrustiu, como enrustido,
Veado ele sempre fora!

porcos

Até que, em recompensa,
De um bode velho e safado,
Demagogo deputado,
Nos braços foi elevado
Ao gabinete. Assessor,
Hoje a João todos conhecem
E proclamam, com estrondo,
“Um roliço burguês redondo!”

Entre Vila Palmeira e Santa Rosa, 18/19 de setembro de 2004

Ubirajara Passos & Valdir Bergmann

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Nossas reverências ao poeta e político Ramiro Barcelos, cujo poema Antônio Chimango transmitiu o seu espírito, inconscientemente, ao nosso João Velhaco, na época em que o escrevemos.

 

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Um comentário em “JOÃO VELHACO

  1. sara disse:

    odeio poesia porque eu não entendo porra nenhuma.

    Curtir

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