REVOLUÇÃO ORTOGRÁFICA DA LÍNGUA PORTUGUESA – 2


Está pra lá de batido o fato de que palavrão (especialmente se for um daqueles que identifica diretamente os “órgãos do prazer”) aumenta enormemente as estatísticas de visitação de sites e blogs. Afinal 99,999%… dos internautas só pensa em putaria – especialmente a mais escatológica e bizarra (constatação esta em que não há nenhuma crítica – quem sou pra repreender tal nobre interesse? -, se bem que, volta e meia, a turma poderia se ocupar de outras formas sagradas de prazer, como goró e música…)

O post “Revolução Ortográfica da Língua Portuguesa” (de que este é uma continuação), por exemplo, estava sendo muito pouco visitado e, depois que incluí nele uma regra sobre a grafia da palavra buceta, passou imediatamente a figurar entre os dez mais acessados diariamente deste blog.

Garanto, pelo mais sagrado para mim (não, não é a palavrinha citada, mas a liberdade mental e a capacidade de admirar a beleza mais profunda), que não é com intuito de incremento estatístico que resolvi publicar mais esta regra da revolução ortográfica por mim proposta naquele post. Que, sendo uma revolução racional, anarquista e popular, não poderia deixar de incidir sobre a grafia de um dos verbos mais falados e, principalmente, praticados não só nos móteis, casas de “família”, campinas, esquinas da noite, automóveis e etc. do Brasil afora, como também, enlouquecidamente, no Palácio do Planalto – onde Lula não passa um instante sem comer o cu do povo. Sendo assim, aí vai a, casualmente, 13.ª e derradeira regra (que, depois dela, a proposta está completa e irretocável):

Grafar-se-á o verbo “Foder” com “u”, conforme a pronúncia popular consagrada, tanto nas formas nominais, quanto nas conjugações verbais, com exceção das pessoas do singular e da 3.ª pessoal do plural do Presente do Indicativo e de todas as conjugações do Presente do Subjuntivo, do Imperativo Negativo e da 2.ª pessoa do singular, 3.ª pessoa do singular e do plural e 1.ª pessoa do plural do Imperativo Afirmativo, casos em que a pronúncia comum corresponde à grafia atual, ou seja, em que se fala o “o” ao invés do “u”.

Conseqüentemente, nos casos em que, não existindo pronúncia popular consagrada, como a 2.ª pessoa do plural do Presente do Indicativo, do Pretérito Imperfeito, Pretérito mais que Perfeito, Futuro do Presente e Futuro do Pretérito do modo Indicativo e Pretérito Imperfeito e Futuro do Subjuntivo, possa se optar por quaisquer das duas grafias, sem deformar a pronúncia, se escreverá com “u” a respectiva conjugação.

Se escreverá, portanto:

  • fuder(infinitivo impessoal), fudido (particípio) e fudendo (gerúndio);
  • fodo, fodes, fode, fudemos, fudeis, fodem (presente do indicativo);
  • fudia, fudias, fudia, fudíamos, fudíeis, fudiam (pretérito imperfeito do indicativo);
  • fudi, fudeste, fudeu, fudemos, fudestes, fuderam (pretérito perfeito do indicativo);
  • fudera, fuderas, fudera, fudêramos, fudêreis, fuderam (pretérito mais que-perfeito do modo indicativo);
  • fuderei, fuderás, fuderá, fuderemos, fudereis, fuderão (futuro do presente);
  • fuderia, fuderias, fuderia, fuderíamos, fuderíeis, fuderiam (futuro do pretérito do indicativo);
  • foda, fodas, foda, fodamos, fodais, fodam (presente do modo subjuntivo);
  • fudesse, fudesses, fudesse, fudêssemos, fudêsseis, fudessem (pretérito imperfeito do subjuntivo);
  • fuder, fuderes, fuder, fudermos, fuderdes, fuderem (futuro do subjuntivo); e
  • fode, foda, fodamos, fudei, fodam (imperativo afirmativo);
  • fodas, foda, fodamos, fodais, fodam (imperativo negativo).

O verbo fuder passa, portanto, a se classificar entre os verbos irregulares, ou seja, aqueles cujo radical se altera conforme a conjugação.

Se alguém ainda tem alguma dúvida, após todo este detalhamento erudito e “circunstaciado”, foda-se!

Afinal, ter de queimar novamente as pestanas sobre as amareladas folhas da surrada gramática, como tive de fazer para parir esta pequena cartilha, é foda!

Ubirajara Passos

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SIMPLESMENTE TERNO


Enquanto a inspiração de cronista, ensaísta, contador de causos ou simples piadista anda mais fugida de mim que cachorro em festival de fogos de artifícios, deixo os leitores na companhia de mais um poema biruta, parido há pouco, que é um pouquinho menos enigmático que o de ontem:

Simplesmente Terno

Deixa eu te amar,
Não permitas que a aridez
Do meu enfastiado tédio deta
O gesto de carinho morno e solidário,
Suave e simples, sem tesões obrigatórios!

Deixa eu sofrer, mudo e quieto, ao lado teu,
A dor enjoada, o sem sabor do sem sentido.

Deixa eu esquecer toda paixão gritante
E adormecer, sem intensão ou compromisso,
Te afagando, grave e companheiro,
Num cafuné todo entregue ao teu consolo.

Deixa eu mandar ao diabo que carregue
Todo o fascínio justificador
Que faz de ti uma musa inalcançável,
Me intimida, tolhendo-me a ternura!

Deixa eu viver apenas o imediato
E respirar, chorar, próximo a ti,
Sem protocolos, abismos passionais,
Nem requintes de pensados erotismos.

Deixa eu ser eu, absolutamente simples,
E rir, chorar, desvairar ou bocejar insosso,
Mas sobretudo fluir
Junto à corrente
Da tua presença, que é maior em si
Do que se fosses a perfeita encarnação
Do feminino absoluto e hipnotizante!

Gravataí, 3 de junho de 2008

Ubirajara Passos

ARAUTO ONÍRICO


Mil desculpas aos leitores que tenham se entusiasmado com as últimas crônicas, mas um fim de semana chocho e sem graça, e algum vinho barato para espanar a poeira do tédio, acabou resultando, na necessidade absurda de escrever deste início de madrugada, no poema seguinte, que continua na linha dos últimos publicados, noturno, enigmático e, sobretudo, enjoado de porre:

Arauto Onírico

Venta terrivelmente,
O minuano
Agita a madrugada sonolenta
E acorda os viajantes do país dos sonhos
Para uma noite límpida e gelada
De luz prateada e árvores dançantes.

Venta soturno, sussurrante, vacilando
Entre um sussurro grave e um lamento agudo
Até tornar-se um farfalhar
Gritando ínsone sobre nossas casas.

Revolve-se, enrosca-se e lambe
Os troncos nus dos pomares,
Chicoteia

Velhos carvalhos,
Cinamomos, eucaliptos

E nos arranca da cama morna e mole,
Com um estardalhaço de comício radical
Pra se esconder, quando o procuramos
Na velha área da casa materna,
Atrás dos muros brancos, do luar.

Balança galhos, bate latas,
Ladra como um cão,
Tropeça em nossa surpresa sonolenta
E some na esquina, irmão dos gritos loucos
Dos últimos zumbis embriagados da boemia,
E nos deixa atordoados, procurando
Nas últimas esquinas estreladas
Da noite que empalidece
A enorme e maciça fera
Que faz tanto ruído e é apenas ar!

Gravataí, 2 de junho de 2008

Ubirajara Passos