… NEM TODO TONTO É PERUCA!


Eu ia saindo macambúzio do Foro, naquele final de expediente de sexta-feira, devido a uma discussão idiota, por telefone, com a minha gata preferida (que em breve se tornará minha mulher) quando fui cercado pela dupla Peruca e Kadu, que, com ar de moleque que cagou nas calças, entre a ansiedade e o deboche, foi me disparando:

— Ô Bira, olha o que colocaram no teu bolso! – vai, dizendo o Kadu, enquanto o Peruca sacode os cornos, concordando com o outro sem-vergonha.

Conhecedor da cretinice especializada dos dois safados (especialmente do Kadu, que dispensa comentários) fui logo abrindo aquele sorriso descrente:

— Gurizada, vamos deixar de frescura que não tô pra brincadeira. A criatura me deixou reinando!

— Ô Bira, nos tamos falando sério! Quando tu ía passando pela porta, passou um cara a mil e botou uma coisa no teu bolso. Olha aí! – arremata o Peruca.

Procuro nos mais diversos bolsos e nada! E já vou me mandando, quando o Kadu insiste:

— Cara, olha no bolso da jaqueta!

E o idiota aqui, convertido no mais novo membro da espécie burrus pateticum, apalpa o interior do bolso, estufado de papéis, dinheiro, um frasco de descongestionante nasal e outro de removedor de cera dos ouvidos (para debelar o resultado do vento minuano, que resolveu gelar o Rio Grande do Sul antes da entrada oficial do inverno), encontrando uma coisa cilíndrica e enrolada, com consistência suficiente para ser um filhote de cobra ou uma minhoca.

Fóbico que sou com este tipo de bicho, ainda que de brincadeira(como a cobra de plástico, com mola, que o Cabelinho, primo do Peruca, andava segurando, faz um ano, nos portões do foro), emputeci e intimei os dois aos gritos:

— Tira esta coisa daqui, tropa de safados filhos de uma puta!

E os dois cornos dispararam correndo, o que só confirmou o meu pânico. Cobra viva não devia ser, mas uma de borracha já seria suficiente para um ataque de fobia (reação que jamais me ocorreria se fosse um cabeluda aranha). E se fosse um punhado de minhocas, podiam começar a se mexer, no meu caminho a pé até em casa.

Não havia jeito: para confirmar e evitar um vexame na rua, maior do que já havia dado, eu teria de esvaziar o maldito bolso, o que era melhor fazer na sala da Distribuição e Contadoria, em que trabalho, longe dos olhos dos colegas dos demais cartórios, que saíam, já que os meus já deviam ter ido embora.

Mas lá chegando, dei com metade da equipe ainda se enrolando pra abandonar o serviço. Com exceção da dupla de veados (o Peruca e o Kadu, é claro), da chefe e de uma estagiária que encontrei no corredor, lá estavam todos os demais três oficiais escreventes (entre eles o Castello Branco) e a loirinha mais linda e gostosa do setor, que depois que largou o namorado (um gordo safado e metido a dominador machista) deixou de ser uma tímida puritana cuja frase preferida, a propósito de qualquer irreverência um pouco mais picante, era “que nojo”, e agora se tornou a mais animada e extrovertida gata do cartório, se bem que não a ponto de rir de uma piada cavalarmente explícita.

Pois foi justamente pra loirinha, que deu o azar de cruzar na minha frente antes de qualquer outro, que pedi:

— Fulana, tu é mulher, mas é mais valente do que eu. Tira tudo que tem no bolso da jaqueta pra mim. – E lhe dei o casaco de couro marrom, do qual ela foi tirando, pacientemente, papéis, remédios, notas e moedas, sem aparecer o troço roliço.

— Bira, só tem isso aí!

— Ô guria, não pode ser, tem mais alguma coisa. Os putos do Kadu e do Peruca me enfiaram um negócio aí e saíram correndo! Vai lá,mete a mão no fundo!

E foi então que saltou da sua mão, vinda das profundezas do bolso, uma camisinha aberta, cheia de uma substância branca (que a dupla de gozadores confessou , mais tarde, ser maisena), provocando o coro de risadas, inclusive da própria guria (vítima involuntária da palhaçada) e a minha estupefação furiosa. Pois eu supunha que a porra falsa fosse cola tenaz, o que me estragaria o casaco. Não fosse isso teria me mijado de rir na frente da própria gatinha gostosa, e não em casa, ao me lembrar do fato!

Com o que ficou provado, naquele modorrento final de dia, que, se nem tudo que há no bolso é grana, nem todo tonto (como eu) é Peruca!

Ubirajara Passos

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