Uma profissão de fé na vida, no verdadeiro amor, na liberdade e na espontaneidade


Não costumo responder aos comentários dos meus leitores, mas este, postado no texto “O Chamado do Demônio”, acabou me cutucando de tal forma que resultou na mensagem abaixo, que, devido ao tamanho e à inspiração, resolvi não publicar no espaço de comentários, mas como post específico, que acaba sintetizando em alguns parágrafos a grande parte do meu pensamento. Quanto às minhas afirmações sobre o Cristo, recomendo ler o post “O Anarquista Jesus Cristo”. Mas enfim , vamos ao texto:

“Caríssimo Cristiano: se o companheiro se deu ao trabalho de ler atentamente a página “Quem é Ubirajara Passos”, assim como a epígrafe que vem logo após o título deste blog, ou mesmo suas principais matérias, deve ter percebido que sou um libertário racionalista (um anarquista) e, conseqüentemente, descrente na existência física de figuras como deus ou o diabo (tecnicamente falando, e sem nenhuma conotação de validade ou reprimenda cultural, um ateu).

O próprio texto que comentas é uma introdução ficcional a um livro de ensaios, ainda incompleto e impublicado, em que exponho, em tom oratório e gaiato, mas sobretudo, sincero e veemente, as minhas visões sobre temas cabais da cultura e da sociedade humana, sob um ponto de vista mais universal, se bem que lavadas no quotidiano do Ocidente.

O diabo figura no texto como personagem que é do próprio folclore e da cultura judaico-cristã, identificado, como em outros tantos sistemas religiosos e culturas, com as forças da liberdade, da autenticidade ainda primitiva e do prazer que se identifica com a vida pura e simples – ainda não contaminada da repressão totalitária dos sistemas de poder das tradicionais sociedades patriarcais, que reproduziam, na figura absoluta de deus, um pai severo e um monarca inquestionável a sancionar (validar) toda a opressão e repressão da liberdade, da alegria e da saúde humana, a postura e os interesses do prazer sádico dos poucos poderosos que estão no topo político, econômico e cultural (no sentido de forjadores das verdades ditas inquestionáveis que se derramam boca abaixo da maioria, – o rebanho – condicionando suas idéias e atitudes para o auto-flagelo e a privação voluntários).

A máxima existência que credito a deus e ao capeta é a de grandes arquétipos psicológicos, representantes das energias emocionais da disciplina e do pensamento organizador, do compulsório (o primeiro) e da liberdade, do prazer e do jogo bem humorado e espontâneo da vida sem complexidades intelectualizadas (o segundo, que, não por acaso, teve à sua figura judaica assimilados deuses pagãos da alegria boêmia como Baco e Dioniso e os sátiros mitológicos).

Não se preocupe: também creio que Cristo Salva! Mas o Cristo livre, questionador, bondoso, alegre, festeiro e revolucionário, cujo primeiro milagre foi transformar água em goró (no caso, vinho); que descia a marreta nos hipócritas moralistas que infelicitavam o povo com mil etiquetas de comportamento superficial e acomodado só para tê-lo como cordeiro no sacrifício da exploração por romanos e judeus ricos.

O Cristo que se compadecia de figuras marginais, mal-vistas e excluídas, do Oriente Médio da época, como leprosos, mulheres, prostitutas e cobradores de impostos. Que curava a todos indiscriminadamente e não lhes pedia em troca nenhum tributo ou obediência, mas que acreditassem em si próprios e amassem, de forma doce e solidária (e não como obrigação ou sofrimento auto-imposto) seus companheiros de quotidiano, pela simples simpatia que eles lhes inspiravam e que admitia, portanto, inclusive a agressividade e o ódio a tudo e a todos que encarceram e encouraçam a vida, matando-nos antes do túmulo.

No que não creio, e acho que é coisa própria da tua visão de diabo, é na igreja cristã, que perpetuou a exploração, a expropriação e o sofrimento de milhões e bilhões de seres humanos (na escravidão, na servidão feudal, no capitalismo, de antanho e de nosso dias) e queimou milhares na fogueira da “Santa Inquisição” por pensarem livre e diferentemente do rebanho e de seus sádicos donos, por exemplo. Tudo isto em nome de um pobre Cristo cujo deus era antes uma mãe carinhosa e zelosa, um sopro de vida, riso e gozo, do que o severo Rei perverso e absoluto dos céus de imperadores e tiranos de todo tipo.

O inferno, não meu amigo, eu não o temo, pois ele é apenas o imaginário ampliado, e catapultado ao status de eterno, das penas e sofrimentos injustos e acachapantes impostos por nossos donos, sinhozinhos, coronéis, barões, duques, patrões, empresários e governantes autoritários e exploradores de todo tipo, desde que a humanidade é dividida entre uma meia dúzia de exploradores e algozes sádicos e espertos e um rebanho de obedientes e humildes criaturas infelizes, intensamente empenhadas, em sua maioria, em se manter na infelicidade semi-espontânea, em nome do medo, da “moral” e da “disciplina”, do compulsório, do “organizado” e do pavor do “caos”, enquanto a vida livre, feliz, solta e maravilhosa brada, violentamente e não escutada, aos seus ouvidos surdos! Leia Carl Jung e, sobretudo, o mestre Wilhelm Reich. Mas leia sem preconceito, com atenção e serenidade e, depois, se puder, me diga o que concluiu. Atenciosamente,

Ubirajara Passos”

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