O ALEMÃO ALE E A PRINCESINHA BURGUESA


O alemão “Ale” podia até não ser o tipo mais esquisito que freqüentava a República do alemão Valdir, no edifício Morumbi da rua Amélia Telles (bairro Petrópolis, em Porto Alegre). Havia outros melhores concorrentes ao título, como o Xupaxota, ou eu mesmo.

No quesito obesidade, ele emparelhava com o baiano, e, no concurso do mais inverterado bêbado, disputávamos os três o prêmio principal. Muita madrugada atravessei com o Ale, entornando aquele litro de vodka com fanta, que enxugávamos até cair de pata pra cima e boca escancarada.

Agora, quando se tratava do mais desastrado, com certeza, ele era o campeão imbatível. Prova é a história que um dia me confidenciou, entre mil exigências de sigilo absoluto, e que, se divulgo, o faço sem maior detalhes, como a cidade em que se deu – que era a de origem da infeliz criatura – e o nome da gata envolvida, que, se ele me disse, já esqueci há muito tempo.

O fato é que, apesar de atrapalhado, gordo e desengonçado, o pobre Ale, tímido, ingênuo e afável como uma criança de colo (apesar dos seus cem quilos só terem mesmo como repousar no colo de uma elefanta), foi logo cometer a besteira de se apaixonar pela gata mais linda da cidade, que casualmente era toda a prole da mais polpuda fortuna.

E deu azar absurdo de ser correspondido! Um belo dia de carnaval, completamente bêbado, as pernas tropeçando umas nas outras (que já andava qual um quadrúpede, faltando só zurrar), a canequinha de cerveja presa na cintura, o pobre esbarrou na amada, ainda mais torta de álcool que ele. E, após umas quantas cabeçadas mútuas, conseguiram se sentar na calçada, ombro a ombro, encostados na parede e o cenário estava pronto para um “gran finale”… até o sujeito vomitar no colo da gostosa!

Mas, como dizia o Paulo Coelho, o universo todo conspira a favor quando se trata de uma criatura humana cumprir a sua lenda pessoal. E, apesar do azar, o gordo teve novamente a sua grande chance, agora em grau qualificado. A guria era louca mesmo e convidou-o para o aniversário na mansão da família.

O Alexandre hesitou muito, procurou trezentos pretextos pra não ir, mas chapou-se de calmantes e acabou comparecendo. Por incrível que pareça, desta vez o romance ía nas nuvens do cupido! Trajado a rigor, a boca a encostar nas orelhas, o roliço personagem flutuava em pensamento, aquele tépido e voluptuoso corpo junto ao seu, a corrente do tesão mútuo embriagando-os.

Até que passou de raspão pelo casal, tropeçando no banco de jardim, o cinqüentão grisalho que liderava o bloco carnavalesco mais podre da cidade, “As Virgens Fudidas do Fritz”, composto exclusivamente (como convém a todo bloco interiorano da espécie) pelos mais enlouquecidos pinguços vestidos de mulher.E o nosso herói, querendo fazer graça, lascou pra namorada:

– Ô meu, aquele velho ali é puto? – A doce beldade enrubesceu, fez-se azul, roxa e pálida, em seqüência, e, entre estabanada e furiosa, guinchou pro apaixonado:

– Não, não é não senhor! Que história é esta?

– Que que é , meu, tu não tá vendo? Olha o jeito do veado… Aquela reboladinha ali, a mão quebrada. Se aquilo ali é macho, minha vó é irmão do Maguila!

– Olha aqui, seu Ale! Eu conheço ele muito bem, desde pequeninha! Se eu tô dizendo que não é, é porque que não é! E vamos parando por aí. Se ainda me quer, acaba logo com o assunto!

– Qualé, meu! Tá pensando que eu sou bobo! Por acaso tu tá transando com aquele bambi pra ter tanta certeza? Eu logo vi que este teu interesse por mim não tava certo! Tá me querendo pra corno de fachada, pra encobrir teu casinho com o velho?

– Olha aqui, seu doido infeliz, aquele ali é meu pai!

O resto não preciso nem contar. Mas fica aqui a advertência: o Ale não possui qualquer parentesco com o Peruca, nem sabe de sua existência, e, na época, morava a uns oitocentos quilômetros de Porto Alegre.

Ubirajara Passos

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