QUE DIABO É “DDA”?


Detesto os escritores ou palestrantes metidos a besta que mencionam um conceito ou termo obscuro, para a maioria, anunciam que vão defini-lo outra hora, e deixam todo mundo a ver navios, para se fazerem importantes. E, como no último post citei pela vigésima vez a siglazinha cretina, que há meses prometi explicar, e tenho a mania da coerência, aí vai uma tentativa de caracterização do que já foi conhecido, ridícula e perjorativamente, como “disfunção cerebral mínima ” (o que equivalia, nos anos 1970, para a maioria do povo a debilidade mental) e, pelo que se sabe das biografias, já foi “doença” constitucional de criaturas como Newton ou Albert Einstein.

Distúrbio do Deficit de Atenção (DDA) é a denominação, completamente inadeqüada, que se dá a uma síndrome (uma interação entre uma condição biológica e sintomas emocionais) caracterizada pela “inconstância” da atenção, a conseqüente hiperatividade física ou mental e os freqüentes lapsos de memória, a impulsividade, “desorganização” prática e super-concentração mental que acomete seus “portadores”.

Se o companheiro que me lê é daqueles sujeitos que, tendo ido da cozinha ao quarto buscar algum objeto, não se lembra mais ao chegar nele o que ia fazer e, no meio do caminho, se viu absorvido pelos mais diversos estímulos físicos ou mentais (daquele calendário enlouquecedor com a “Siri” do Big Brother pelada àquele insigth genial que surgiu do nada) ou simplesmente “viajou na maionese”… Ou costuma fazer dez mil coisas ao mesmo tempo (como assistir televisão, escrever ao computador, bater uma punheta e dar uma cantada telefônica na vizinha gostosa), não suporta uma aula ou discurso longos e monótonos e se põe a rabiscare balançar as pernas, e outras tantas situações semelhantes – seja bem vindo: o “clube do DDA é o teu lugar”.

A teoria mais aceita entre os especialistas (neurologistas e psicólogos) é de que tais criaturas humanas sofrem de uma irrigação sanguínea deficiente no lobo frontal do cérebro, que – segundo eles – é responsável pela “censura” e travamento dos impulsos recebidos das mais diversas partes do encéfalo, possibilitando à “humanidade normal” (a maioria) um comportamento contínuo, padronizado e previsível, e sobretudo “organizado”! E por isso, tanto podem ser uns desmemoriados e dispersivos completos quanto (o que admitem os próprios especialistas) podem se concentrar durante horas e dias em assuntos do seu interesse, mantendo em relação a estes uma memória prodigiosa!

Quem “sofre” de DDA, já tendo ou não sido submetido ao tradicional tratamento com ritalina (uma prima da cocaína que estabiliza estes doidões) ou à psicoterapia cognitivo-comportamental, já sentiu no couro, independentemente das teorias médicas, sua “diferença” da maioria do rebanho humano. E que há algo de físico ou genético que condiciona seu “funcionamento”. Mas o que salta aos olhos na própria literatura especializada é a importância enfática que é dada à imprevisibilidade, à falta de “controle” e à indaptabilidade do sujeito DDA às rotinas rígidas, ao cumprimento de horários e protocolos, à obediência pura e simples e todo o corolário que caracteriza a saudável humanidade adestrada ao trabalho robotizado do moderno capitalismo industrial e informatizado. Ou seja, apesar de uma certa base biológica constatável, a síndrome é abordada e tratada, sobretudo, na perspectiva de um “desvio” da regra socialmente aceita, uma espécie de moléstia geneticamente condicionada, perigosíssima, que pare seres humanos livres e (o que é pior para o poder dos senhores proprietários) geniais (os próprios estudiosos admitem o “Quociente de Inteligência” elevadíssimo dos DDAs e, não por acaso, encontram traços da “doença” entre gênios como Mozart, Da Vinci, Beethoven, Fernando Pessoa ou Marlon Brando)!

Houve mesmo uma terapeuta “fora da ordem” e fofoqueira (daquelas que contava todas as “mazelas” de um cliente para o outro, principalmente se amigos ou colegas de trabalho), mas controladora, que se dizia igualmente DDA, que um dia me afirmou: “Bira, se tu disseres na rua que te falei, eu respondo que é mentira, mas se anda especulando que o ‘DDA’ é um sujeito que está na fronteira de transição evolutiva rumo  à ampliação do cérebro humano!” Do que não duvido – ao menos que a espécie, condicionada e domesticada por milênios de opressão e rotinização, tenha perdido as potencialidades que o antigo primata ancestral possuía e que hoje fariam o nosso supremo deleite intelectual e físico, diferente do tacanho mundo do “homem-relógio”, que faz tudo a horas e em lugares certos, sem prazer nem dor, sem gosto, como um bife de isopor. Caso em que a involução é que feriu historicamente a maioria, sendo malucos como eu e meu amigo Valdir Bergmann o resultado imprevisto da sobrevivência da velha forma original da mente!

Afinal, noventa por cento dos problemas psicológicos resultantes da síndrome (o sentimento de inadeqüação e rejeição social, a depressão, a tendência à solidão, a neurose e a timidez profunda, a completa falta de auto-estima…) são antes resultado da rejeição de um mundo “normopata”, fossilizado e aferrado ao automatismo bovino do trabalho compulsório e da sociedade hierarquizada e compartamentalizada (na qual os papéis fixos não deixam margem para a liberdade e a criatividade) do que dos “sintomas” objetivos do DDA. Não é por acaso – e aí cito Ana Beatriz B. Silva, autora não-DDA de “Mentes Inquietas” (cujo conteúdo excelente e esclarecedor me fez identificar como “portador”, o que não ocorreu em anos de tratamento com a terapeuta fofoqueira) – que o cara DDA pode não ser um bom “apertador de parafusos”, mas, um excelente ator, por exemplo!

Opinão da minha ex-terapeuta: “o DDA é uma piada de Deus”. Opinião do blogueiro tresloucado: O DDA, se é que há, é o anarquismo condicionado geneticamente! Gracias,

Ubirajara Passos

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3 comentários em “QUE DIABO É “DDA”?

  1. OI disse:

    legal eu tenho DDA soh sou boa em matematica e fisica, consigo ler livros de fisica quantica imensos durante horas mas nao consigo ler 5 paginas do livro de historia da escola 😛

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  2. Marina disse:

    Nossa, como era difícil ler um capítulo pra prova de história!e olha q eu gostava da materia.

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  3. thiago krein disse:

    Otimo artigo precizavamos de gente assim para fazer redação do enem

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