A REVOLTA DO BUROCRATA FOSSILIZADO


Finalmente havia chegado o dia! O “juízo final ” da salvação laica não era mais mera utopia e gritava, forte e incontrolável, na rua, ameaçando derrubar as portas da repartição mesquinha! E ele, o funcionário torturado por anos de opressão sutil, poderia agora realizar seus sonhos de vingança, guardados, e vigiados, sob a maior paranóia, nos mais obscuros escaninhos de sua alma!

A revolução anarquista (esta mesma que lhe tiraria o emprego de “servidor público”, mas abriria a ele e a toda humanidade a possibilidade do trabalho saudável, livre, prazeroso e espontâneo) havia estourado e se feito vitoriosa! E, ao contrário das outras revoluções, não pretendia estabelecer nenhuma ordem histérica e grandiloqüente, nenhum futuro abstrato e cósmico de grandeza “coletiva” e miséria individual!

Cientes de que é nas pequenas coisas do quotidiano que se criam e engordam as piores opressões, os libertários vitoriosos não pediam o “Paredón” de fuzilamento ou a guilhotina para os altos vigaristas da política e das finanças… apenas!

Agora era possível (e era o maior ato de justiça sobre a face do planeta) esganar, com as mãos trementes de alegria e júbilo, aquele colega “vagabundo” e “incompetente” que, justamente por suas “qualidades”, se fazia o maior puxa-saco e dedo-duro do setor e, em troca do “privilégio” de nada fazer (e dar vazão aos seus instintos nobres de perturbar a vida alheia da gente “ralé”), vivia de delatar os deslizes de “etiqueta e compostura” dos demais ante a chefia!

Agora o peão podia torturar o chefe débil mental, vaidoso, covarde e tecnicamente despreparado (que adorava discursar sobre a moralidade do serviço público, reprimir e empestear a vida de quem possuísse o mínimo de iniciativa e inteligência debaixo do tacão da “autoridade”, e impor a mediocridade submissa – tudo isto com o auxílio do ilustre lambe-cu), lhe cortando pedaço por pedaço, até perder a consciência, e devolvendo, no ato do sacrifício, verbalmente todas as asneiras ouvidas dia por dia, instante por instante, sob os aplausos da multidão em êxtase!

Agora era possível fazer um senhor Gerdau Iohan Peter girar puxando um moinho de cana, como um asno, sem comida nem descanso, até quase desmaiar, para aprender a sensação de ser um operário anônimo, e depois despachá-lo para o inferno, com todas a honras que merece um grande burguês filho da puta!

Se podia, no exercício da justiça revolucionária, punir um Edir Macedo ou um Sílvio Santos da vida, através da ingestão de rios de chá de cogumelo, para vê-los bradar e rir imbecilmente, até a morte, sem ninguém pra assistir, pela ignorância e automatização mental impostos a milhões durante a vida!

Se podia mesmo trepar enlouquecidamente, com aquela gata pirada e desbocada, em praça pública (que, para horror dos puritanos do templo do consumo, possuía algumas estrias) e sob os aplausos da humanidade enfim liberta! E ver estrelas e constelações na língua de veludo da cretina, no simples toque dos seus lábios… a lhe lamber o rosto, desvairada, gostosa e radical!…

E acordar com o gato sobre a cama, miando, enjoado, ao seu ouvido (afinal era um tudo um pobre sonho)! O frio relógio, burocrata e chato, mudo e sem tic-tac (leão de chácara fiel do tempo, filho da eletrônica descarnalizada e absolutamente “pura”) a registrar 10 horas da manhã e lhe gritar: “Vai trabalhar, peão, que esta é a tua vida! Aquele maço de processos te aguarda e nenhuma emoção legítima até o fim do dia!”

(em homenagem à minha amiga Simone Nejar)

Ubirajara Passos

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Um comentário em “A REVOLTA DO BUROCRATA FOSSILIZADO

  1. gerson disse:

    Tchê, até me assustei quando comecei a ler, pensei será que o Bira ao invés de tomar o chá de losna, trocou pelo de flôres ou fungos. Mas ao terminar a leitura deparei com a realidade de um sonho. E que sonho. Sugiro para que não tenhas mais esses pesadelos, ingiras menos alimentos pessados tarde da noite, pois a realidade do quodidiano pode ser bem mais Dura.
    Um abraço do seu amigo gerson.

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