O CRIME “SUJO” DA FODA E OS PECADOS CAPITAIS


Meu amigo xupaxota comenta, hoje, em seu site, a monstruosidade da condenação do sexo praticado sem vistas à procriação – ou seja, não como uma obrigação penosa, como carregar pedras de construção sobre as costas em nome do conforto de um patrão cretino e em troca de alguns míseros reais, mas por puro prazer e contentamento.

E aponta a contradição entre o prazer proibido da trepada e o deleite admitido e incontestado do paladar, que, estando também vinculado a uma função natural (a alimentação necessária à sobrevivência do indivíduo, enquanto a procriação sexual permite a sobrevivência da espécie), não é condenado pelo imaginário dominante quando exercido em vista do puro e simples gozo físico que nos propicia (ainda que a cartilha do bom escravo ou servo, forjada no final da antiguidade européia para garantia da domesticidade da classe dominada – o Cristianismo – também tenha elencado a “gula” entre suas proibições, até ser “flexibilizada” em razão dos hábitos dos novos senhores, os burgueses).

Subjacente nos hábitos de pudor da vestimenta e no horror aos palavrões ou “palavras sujas”, assim como na rejeição à sexualidade “desregrada” e à “infidelidade” entre membros de um casal, especialmente a das mulheres (ainda que uma leitora bastante “educada e polida” tenha afirmado, em comentário, há uma semana, que ninguém mais acredita na culpabilização do sexo, pois, segundo ela, estamos no século XX – sic), a “puríssima” verdade é que a condenação da foda se deve ao fato da coisa envolver “gente” de carne e osso e o contato necessário entre duas pessoas. Se só fosse possível se alimentar a dois ou mais, através da troca mútua de fluídos e energias, o ato de comer estaria, igualmente, cercado das mais diversas interdições e regramentos.

É que, em uma sociedade fundamentada no “uso” cru da maioria dos indivíduos como ferramenta ou gado para possibilitar a vadiagem requintada e o prazer (no mais das vezes sádico e doentio) de uns poucos dominadores – sob cuja prioridade estão estruturadas as nossas vidas, o contato humano livre, imediato (físico) e isento de “justificativas” e protocolos regulamentadores e, o que é pior, mutuamente prazeroso, é uma verdadeira ameaça “subversiva” a sua sobrevivência.

Quem fode sem objetivos necessários, nem regramentos além do prazer recíproco (o que exclui o “estupro”, o sadismo e a cópula “obrigatória” do casamento compulsório, que nada mais é que a escravidão socialmente aceita, inclusive sexual, da fêmea pelo macho) só pode fazê-lo em situação de plena liberdade e igualdade entre os fodedores e admite, e busca como direito, e regra de vida, o próprio deleite, saúde e bem-estar.

Se, além da simples trepada, adotar tal comportamento nas demais relações com seus semelhantes, simplesmente derrocará o domínio verticalizado e assimétrico dos nossos “donos” sobre a multidão de párias – a que não se reconhece outra prerrogativa além de trabalhar em proveito dos dominadores. Só em vista de tal missão é que se admite atender às necessidades biológicas (sobrevivência do escravo e reprodução do rebanho) e culturais (treinamento intelectual e prático destinado ao cumprimento do “dever” do trabalho e atendimento dos prazeres substitutivos ligados ao consumo e à reputação e à “celebridade”) necessárias à continuidade da existência como ferramenta a serviço dos privilegiados.

Não foi por acaso que a ideologia domesticadora vigente na servidão feudal ocidental (a religião católica) classificou como “pecados” imperdoáveis (atos “repugnantes” – dignos de “nojo”, condenáveis e responsáveis pela “danação de seus praticantes) justamente os hábitos mais saudáveis, próximos do bem-estar dos indivíduos, e nefastos aos interesses de nobres, reis, clérigos e todo tipo de exploradores. A famosa lista dos “pecados capitais” é nada mais que o rol das proibições ao exercício legítimo da própria condição humana de cada um, imperiosa à coisificação que propicia o ócio e o luxo dos opressores:

  • Gula: peão deve comer o mínimo para se manter em pé e trabalhar. Além deste limite será necessário alimento, e meios de aquisição, que diminuirão o butim (o produto da usurpação do produto do trabalho alheio) do seu amo ou patrão.

  • Luxúria: todo bom animal de carga deve passar, se possível, a maioria absoluta de seu tempo desperto trabalhando para prover a vida ociosa e despreocupada de seu dono. E, para “gerar” ou reproduzir as crias necessárias à continuidade do serviço, basta colocar em contato óvulo e espermatozóide. Donde o gozo (especialmente da paridadeira encarregada de gestar e cuidar da cria até estar apta ao trabalho) é algo supérfluo e perigoso, reservado ao dono do rebanho (que para poder fuder à vontade conta com o gado humano que oprime). Ninguém se espante, se no avanço fascista que vive o mundo, a foda vier a ser proibida, no futuro, se tornando obrigatória a geração de filhos via inseminação artificial ou clonagem.

  • Avareza: guardar riqueza é prioridade dos senhores. Peão que pretenda, e consiga, fazê-lo pode ameaçar o privilégio de seu dono, além de deixar de ser escravo.

  • Ira: a condição número um para a escravização é a mansidão e a propensão do dominado à obediência. O exercício da agressividade põe em cheque o domínio e é privilégio de quem manda, pois touro furioso, que não se transforma em boi (pela castração) e não aceita a canga, não serve de nada para o dono.

  • Inveja e Vaidade: quem valoriza a si próprio não se submete a outrem. Auto-afirmação e rejeição à submissão são veneno para o ‘bom trabalhador”, humilde e modesto, que deve saber seu lugar e não almejar o que está reservado ao seu amo.

  • Preguiça: é o supremo crime. Quem nasceu com o destino de ferramenta ou máquina destinada a servir, como coisa, a outrem não pode se negar ao trabalho e se fazer “inútil”, sem nenhum emprego (uma faca enferrejuda e sem fio não tem “serventia” e é um desperdício do precioso ferro, por exemplo). Afinal o servo ou trabalhador existe justamente para mourejar em lugar do dono e possibilitar que este desfrute, com toda maestria, criatividade e brilho, a própria preguiça.

    Para garantir o cumprimento destes preceitos vinha a ameaça imaginária: quem os descumprisse padeceria pela eternidade nas chamas do inferno! E somente teriam direito ao prêmio do paraíso após a morte os cristãos virtuosos, ou seja, aqueles que se submetessem à uma vida de fome (contraponto da gula), castidade (uma vez que servos e mulheres são considerados objetos ao serviço de seus senhores feudais e domésticos, não devem ter tesão e iniciativa sexual próprios para não se furtarem aos direitos de exclusividade do dono), conformada miséria (que é conseqüência da prioridade econômica do amo e se faz aceitar pela chantagem de que a riqueza conduz ao inferno), mansidão (que é o contrário da rebeldia à situação de dominado), humildade e gratidão (para que não desafie o direito natural do “amo” a usá-lo, pela posição dada por Deus – os próprios reis governam pela vontade divina – e admite viver em andrajos e sem nenhum conforto), e ativa dedicação ao trabalho obrigatório (sem o qual os privilégios materiais do dominador não existem).

    O mais incrível é, passados um milênio e meio, tais preceitos continuam a determinar a psicologia e o comportamento da classe trabalhadora e, por terem sido forjados para a manutenção da sociedade autoritária e verticalizada, se adaptam perfeitamente às necessidades da moderna escravidão assalariada (o capitalismo) e ao supremo gozo dos novos senhores (os burgueses), que mais do que em fortunas impossíveis de serem gastas em uma dezena de gerações, têm o supremo prazer em humilhar, pisar e torturar multidões de seres humanos sob suas patas.

    Ubirajara Passos

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2 comentários em “O CRIME “SUJO” DA FODA E OS PECADOS CAPITAIS

  1. xupaxota disse:

    companheiro, gostei muito do texto. tu esmiuçaste de forma exemplar a superficial pincelada que dei no tema. o meu texto foi, além de superficial, muito pequeno, logo, um textículo. como tu resolveste desenvolvê-lo mais, só posso deduzir que gostaste muito do meu textículo. por favor, só não babe nele…

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