PANEGÍRICO A SANTA BUNDA


Por incrível que pareça (o que no meu caso não é tão incomum), passei o feriadão no maior tédio, com exceção do dia de finados, em que, repetindo episódio já ocorrido em uma sexta-feira santa, fui transar com a minha gata preferida.

Ontem, pretendia ir à Feira do Livro de Porto Alegre, mas recebi visita: nada mais que a dona Preguiça. E assim, só saí de casa para ir ao Carrefour, recentemente inaugurado em Gravataí, onde acabei comprando a minha primeira garrafa de absinto, o “Lautrec”, que experimentei à noite. E não é preciso dizer que me apaixonei pela “fada verde” ao primeiro gole. Mas isto é outra história.

O fato é que, há dias sem nenhuma inspiração para escrever nada, após dormir até o meio-dia, e ler o blog da minha amiga “K.” – o Incompletudes -, não sei como, baixou em mim (gaúcho dos quatro costados) um estranho santo nordestino, o caboclo repentista do cordel (vai ver é efeito retardado do absinto), e acabei por parir o poema abaixo. Divirtam-se, se for possível:

PANEGÍRICO A SANTA BUNDA

Traseiro rima com travesseiro –
E, ainda que aconchegante,
Recostar nele a cabeça
É um desperdício solene
E um desprezo completo
À sua irmã menor,
Dita cabeça de baixo!

Nádegas me lembram águas
(Não baleias entre algas!),
As nadadoras gostosas
De qualquer uma olimpíada,
Mas, lhes tirando o “assento”,
A coisa vai pras adegas
E só resta do porre o orgasmo .

Já os “glúteos” mais parecem
Coisa de glutonaria,
Rabo de gorda ou engulhos
De tarado embriagado,
Com má cachaça, perante
O lombo de uma matrona.

A verdade pura e simples
É que no luso idioma
Não há termo mais perfeito
Para as carnes que revestem
O trecho final da coluna
Vertebral da humana espécie
Do que a quente e boa bunda!

Os sinônimos são insossos,
A bunda é bem mais profunda!
Não há como pronunciá-la
Sem se encher bem a boca
Como quem degusta, sôfrego,
Um excitante bombom,
Ou chupa uma doce manga!

Bunda não tem quebra-língua,
Até gago diz direto,
E tem um som explosivo
E ao mesmo tempo envolvente,
Que é o gozo do idioma!

Bunda com funda não há
Como confundir, embora
Tanto usado seja o adágio.

Na verdade a bunda afunda
Todo humano desespero
Sob um mar de entusiasmo
E ao êxtase aprofunda,
Quando arrebitada e bela –
Seja alva como a estrela,
Ou da cor da madrugada,

Boêmia pele morena
Que, rebolando ao batuque,
Na cadência dos tambores,
Revirou com as cabeças
Da velha portuguesada
E pintou um Brasil tisnado!

Se nádega é palavra fria
Da gélida Europa,
Bunda esquenta o sangue e cria
Um mundo de sensações…
Com a bunda não há tesões
Que, extintos, não se revolvam
E tragam à vida defuntos!

Na própria Bíblia está
Muito mal contada a história.
Pode até ter sido o Cristo
Que chamou do túmulo Lázaro,
Mandando-o erguer-se e andar,

Porém, o pobre cadáver
Só ressuscitou, afoito,
Porque, além do Nazareno,
Na sua frente avistou
Com dengo se remexendo
A bunda da Madalena!

Gravataí, 4 de novembro de 2007

Ubirajara Passos

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2 comentários em “PANEGÍRICO A SANTA BUNDA

  1. xupaxota disse:

    companheiro! mais um poema que só poderia vir pelas tuas calejadas e santas mãos. calejada, porque tu só vive batendo punheta e isso prooca calo, e santa porque a punheta é ótima! dá um pulo lá no site pra ler o que escrevi de ti. inté!… rro-te toda!

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  2. syang curtis disse:

    gostei da blog, da putaria, dos calos e dos retalhos de poesia em cada verso encontrado

    beijinhos ;*

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