O CAUSO DO EDIL QUADRÚPEDE


A História se passou lá pelas bandas do Planalto Médio, e quem contou jura que é verdade. O cara era um “véio abusentado”e “quereca”, destes que toma “iorgute” (será que é feito de leite coalhado vendido no Orkut?) e come “mortandela” (aquele fatiado de carne de cadela, cujo consumo leva à morte na certa!). Usa óculos “fofocais” (pra xeretar a vida dos vizinhos à distância, provavelmente) e já passou pelo “binsturiu” do “cerorgião” (deve ser especialista em técnica médica revolucionária: ao invés de usar lâmina, se abre a pele com “cera quente”) por causa de uma “peniscite aguda” (que deve ser doença braba: pelo que se conta teve de extrair o “apênis” – e creio que não fode mais!), além de falar “gúia” ao invés de agulha.

Mas a vocação de intrometido na vida alheia, o esmero do puxa-saquismo e a verve desbocada, furiosa e imbecil com que defendia o “perfeitio” nas plenárias do Orçamento Participativo acabaram lhe valendo (junto com as “pererecas” – dentaduras postiças – e ranchos doados na vila, à custa de recursos públicos) um mandato de vereador pelo partido do Inácio.

Uma vez eleito e empossado, entretanto, de um dia para o outro perdeu a lábia, como papagaio de padre pedófilo que foi forçado a substituir catecúmeno. E eis que – diante da magistral oratória de seus colegas parlamentares, bem mais instruídos que ele (alguns eram verdadeiros eruditos, como o poeta político que iniciou sua intervenção se congratulando por pastar com os demais edis nos “asníferos” campos da Câmara Municipal) – permaneceu mudo e calado durante dois longos anos. O máximo que se permitia eram apartes para declarar: “eu voto com o perfeitio”.

Até que um escândalo denunciado pelo jornaleco local (a descoberta de um antro de travecos juvenis num barzinho obscuro do centro da cidade, freqüentando por menores, e inclusive alguns figurões “tradicionais) levou-o, um belo dia, a proferir caudaloso e trepidante discurso contra o absurdo do “homossexulismo infantil” surgido na impoluta comuna. A cultíssima platéia entusiasmou-se, e por pouco o edifício do parlamento municipal não veio abaixo (literalmente), tamanho o estrondo de aplausos, brados e relinchos, que fizeram tremer as paredes do vetusto prédio.

Mas, no auge da coisa, se ergueu o líder da minoria, tido como o mais culto dos vereadores locais (justamente o da metáfora poética zurrante), e de revólver em punho, após derrubar umas três tábuas do teto, atirando para cima, dirigiu-se furibundo contra o nosso herói e lhe deu uma descompostura: “Onde se viu, meu senhor? Que safadeza é essa, seu anarfabético de pai e mãe? Só puderia mesmo sê coisa de vermeio bagaceiro e sovado na canha! Tudo bem que o bar funciona sem arvará da perfeitura, não paga IPTU e tá lotado de veados sem-vergonha, até uns do seu partido! Agora, esse negócio de “homossexulismo” já é demais! É uma afronta sem perdão pros varãos gaúchos aqui do munecípio! O que tem putão a vê com o nosso heróico “Sul”, meu preclário senhor ? Esse negócio de veadagem é lá coisa típica do centro do país ou dos Nordéstios! Que vossa inselença falasse em homossexudestismo ou homossexunordestinismo vá lá! Ou senhor retira o desaforo, ou passo bala!”

O infeliz saiu em disparada e até hoje ninguém sabe mais da criatura. Há, entretanto quem diga que – borrado de medo e humilhado – se mudou para Brasília, e tendo feito um curso intensivo de Gramática, foi visto assessorando o cerimonial do Ministro da Cultura.

Ubirajara Passos

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