A BÊBADA E O DESMEMORIADO BESTA


RecémTorre de TV em Bras�lia-chegado de Brasília, após uma exaustiva viagem de quatro dias na caravana de manifestantes que protestaram contra a Reforma Previdenciária do Inácio, no último dia 24, me joguei na cama, às oito horas da noite de sexta-feira. Desde a noite de segunda-feira estivera, na maior parte do tempo, parafusado a um banco de ônibus (com exceção da permanência de dez horas no Distrito Federal e das paradas para rápido lanche, banho e exercício da cagada, proibida no banheiro do coletivo), o que justifica a completa ausência de posts novos durante a semana.

Assim, curtido do trago necessário a suportar a viagem de ida e volta de Porto Alegre até o Planalto Central, dormi direto até a meia-noite, quando, ainda estonteado e, vítima da ressaca da bebedeira de retorno, me acordei com o celular berrando-me ao ouvido uma maldita rumba que atende pela qualificação de toque de chamada. Televisão ligada, com o volume a todo vapor (sintonizada no programa especial da TVE gaúcha sobre Nara Leão), mochila desfeita às pressas, com o quarto inundado de roupa, utensílios e papéis jogados pelo chão, após alguns percalços, acho o maldito telefone e, apesar de não reconhTelefone a milecer o número estampado no visor, o atendo na maior lerdeza.

Do outro lado da linha uma voz feminina, na maior euforia, me saúda aos gritos: “Grandeeeeeeeeeee Biraaaaaaaaaaaaaa!!! Tu não morre mais! Tu não morre mais!”

Completamente atordoado, vou logo perguntando quem fala, mas a criatura, ensandecida, continua:

— Quantas mulheres tu já comeu hoje?

— Hã… ah, comi só uma, mas quem é que tá falando?

— Tu não sabe, quem sou eu? Ô Bira! Tô te esperando aqui no nosso boteco pra gente conversar!

A esta altura imagino quem diabo pode ser a figura, cuja voz não me é estranha e demonstra tanta intimidade, mas não consigo atinar por sua dona: pela verve e o estilo espevitado, ou é alguma puta de que esqueci a identidade ou uma advogada de Gravataí, amiga minha, tão desbocada e irreverente quanto eu — e velha filha de santo de terreira de umbanda. Mas a última hipótese é praticamente impossível, não iria me ligar à meia-noite, e a primeira é um tanto incodizente com as circunstâncias: todas minhas companheiras de foda remunerada só me encontram no bordel, nunca cheguei a levar nenhuma para mesa de bar. E aí, a próxima tirada piora a minha dúvida:

— Por onde andas? Aposto que tu estás numa reunião do PDT , discutindo sobre o velho Brizola! (E agora, porra: a criatura me conhece mesmo, e bem!, que diabo é isto?)

— Não… eu não faço mais estas coisas… Mas quem tá falando?

O diabo “reinador”, com uma loucura fora do comum, responde com uma frase desconexa, que não entendo, e arremata:

— Tu tá aí ouvindo uma televisão… tu não sabe quem sou eu? Muito magoada vou te dizer… O que foi e poderia ter sido? (e, entre os risos e gritos audíveis do outro lado da linha, comenta a meu respeito: ele tá completamente bêbado!)

Pinga na linha

— Pô, bicho, tu podias se identificar?

— Eu, eu sou uma ex-presidenta tua, ou melhor “coordenadora”!

A esta altura, não estivesse ainda abestalhado de sono, e entontecido pela metralhadora verbal, facilmente saberia de quem se tratava. Mas cheguei ao absurdo de divagar na possibilidade de ser a velha ex-presidente do sindicato, apeada do cargo pelos pelegos em 1992, que mora há anos em Florianópolis. Mas não podia ser, nunca fomos tão próximos assim. Quem era aquela doida furiosa que me conhecia tão bem?

— Não reconheci quem fala ainda!

— É a Fulana*, taipa! Me lembrei de ti e resolvi te convidar pro buteco!

— Ah, a Fulana*! Mas tua voz tá tão diferente!

E antes que eu pudesse despertar do torpor, a ex-Coordenadora Geral do sindicato, que concorrera à reeleição na mesma chapa que eu, com que fizera campanha junto, comungava crenças políticas e confissões mútuas sobre as nossas vidas amorosas, e muita cerveja entornara desde o início de seu mandato, desliga, puta da vida, o telefone na minha cara.

Ubirajara Passos

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*: após tanto mistério, não revelarei seu nome sem autorização…

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2 comentários em “A BÊBADA E O DESMEMORIADO BESTA

  1. K. disse:

    hummmmmmmm,

    acho que ela tá querendo uma atualizada sindical…rs..rs…rs..rs.

    amei seus comentários sobre nosso querídissimo presidente.

    beeijosssssssssssssssssssssssssssssssssssss,

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  2. […] mulher de oferecer o Totó a uma velha amiga e companheira de sindicalismo (aquela da crônica “A Bêbada e o Desmemoriado Besta”, publicada em outubro de 2007 neste blog), que simpatizara com o bicho, enviei a  seguinte […]

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