DESVARIO NO PUTEIRO: O ENCONTRO DE CASTRO ALVES E GREGÓRIO DE MATOS


 

Antônio de Castro Alves, o “poeta dos escravos”, morto de turberculose aos 24 anos de idade, em 1871, foi o grande inspirador literário da minha adolescência e juventude. Seus poemas grandinloqüentes e em tom de oratória fascinaram-me e me impregnaram profundamente. Já o safado Gregório de Mattos Guerra, pândego comedor de mulatinhas e madames, e hilário satirista político, só vim a conhecer quando avançava na década dos meus trinta anos, quando muito me diverti (desbocado e boêmio que sou) com seus poemas. Ambos os poetas baianos (um do século XIX, outro do XVI) estão na lista dos meus prediletos e, de certa forma, são arquétipos dos meus contraditórios sentimentos – apaixonado romântico e ingênuo e desbocado, boêmio, metido a malandro e rebelde que sou.

O que nunca imaginei, porém, é que um dia, parodiando Castro Alves, na onda que ando curtindo de transformar clássicos da poesia nacional oitocentista em poemas de putaria, eu viesse a produzir uma peça digna do espírito de Gregório de Matos, sem a menor intenção consciente.

Assim, ai vai para diversão dos leitores entediados e horror dos inimigos da “pornografia” (que este blog está finalmente se aproximando de uma cena de sexo “explícito), a publicação da última estrofe do “Navio Negreiro” (justo o primeiro que li de Castro Alves, e que foi o responsável pelo meu fascínio) e a paródia que lhe escrevi:

O NAVIO NEGREIRO (6.ª estrofe)

E existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! …

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

Castro Alves

Castro Alves

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O DESVARIO DO PUTEIRO

Eu vou de novo à bandalheira, à festa
P’ra cobrir tanta dama e guria!…
Com a gueixa lambuzar-me é o que me resta,
Mandar pau duro na bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! Mas que rameira é esta,
Que, se impotente, ela do “cara” tripudia?
Silêncio. Puta… Chorna, e chorna há tanta,
E o paspalhão aqui foi cair no teu encanto! …

Ao rever-te, bundão de minha terra,
Que a piça, em desvario, beija e balança,
Quero saudar este teu cu em que a enterras,
E cujas pregas há perdido desde a infância…
Tu, que na sacanagem pôs-te em guerra,
Foste puteada, porque errou a dança?
Antes tivesses o cu roto na bandalha,
Que de ti rirem por tão pouca maravalha!…

Imensidade atroz que se mete até às bagas!
Que espirra nesta hora a todo mundo,
Ao trilho que no lombo abriu das magras
Como não íres, em pé, até o fundo?
Mas é da fêmea demais venérea praga!
Levantai-vos, fodei a todo mundo!
Da égua mansa trepai a este bundão nos ares!
No lombo mexa a porra até gozares!

Gravataí, 29 de setembro de 2007

Ubirajara Passos

auto-retrato.gif

 

E, para coroar, um poema de Gregório de Matos:

 

DÉCIMAS

Estais dada a Bersabu,
Chica, e não tendes razão,
Sofrei-me Maria João,
pois eu vos sofro a Mungu:
vós dais ao rabo, e ao cu,
eu dou ao cu, e ao rabo,
vós com um Negro diabo,
eu com uma Negrinha brava,
pois fique fava por fava,
e quiabo por quiabo.

Vós heis de achar-me escorrido,
não vo-lo posso negar,
eu também o hei de achar
remolhado, e rebatido
assim é igual o partido,
e mesmíssima a razão,
porque quando o vosso cão
dorme c’oa a minha cadela,
que fique ela por ela,
diz um português rifão.

Vós dizeis-me irada e ingrata,
c’oa a mão na barguilha posta”
eu me verei bem disposta”
e eu digo-vos: “Quien se mata?”
eu vou-me à putinha grata,
e descarrego o culhão,
vós ides ao vosso cão,
e regalais o pasmado,
leve ao diabo enganado,
e andemos c’oa a procissão.

Chica, fazei-me justiça,
e não vo-la faça eu só,
eu vos deixo o vosso có,
vós deixai-me a minha piça:
e se o demo vos atiça
mamar numa e noutra teta,
pica branca e pica preta,
eu também por me fartar
quero esta pica trilhar,
numa grêta e nutra grêta.

Dizem que o ano passado
mantínheis dez fodilhões
branco um, nove canzarrões,
o branco era o dizimado,
o branco era o escornado,
por ter pouco, e brando nabo;
hoje o vosso sujo rabo
me quer a mim dizimar,
que não hei de suportar
ser dízimo do diabo.

Chica, dormi-vos por lá,
tendo de negros um cento,
que o pau branco é corticento,
e o negro jacarandá:
e deixai-me andar por cá
entre as negras do meu jeito,
mas perdendo-me o respeito,
se o vosso guardar quereis,
contra o direito obrareis,
sendo amiga do direito.

Sois puta de entranha dura,
e inda que amiga do alho
sois uma arranha-caralho
sem carinho, nem brandura
dou ao demo a puta escura,
que estando a tôdas exposta,
não faz festa ao de que gosta;
dou ao demo o quies vel qui,
e não para quem a encosta.

Quem não afaga o sendeiro,
de que gosta, e bem lhe sabe,
vá-se dormir cuma trave,
e esfregue-se num coqueiro:
seja o cono presenteiro,
faça o mínimo agasalho
ao membro, que lhe dá o alho,
e se de carinho é escassa,
ou vá se enforcar , ou faça,
do seu dedo o seu caralho.

Gregório de Matos

Gregório de Matos

 

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5 comentários em “DESVARIO NO PUTEIRO: O ENCONTRO DE CASTRO ALVES E GREGÓRIO DE MATOS

  1. K. disse:

    “Dos meus contraditórios sentimentos – apaixonado romântico e ingênuo e desbocado, boêmio, metido a malandro e rebelde que sou”

    EU GOSTO DE VC!!! 🙂

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  2. K. disse:

    “Dos meus contraditórios sentimentos – apaixonado romântico e ingênuo e desbocado, boêmio, metido a malandro e rebelde que sou”

    EU GOSTO DE VC!!! 🙂

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  3. K. disse:

    owww.sorry…

    de tanto que gosto de vc e do seu blog, cliquei duas vezes..

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  4. MARI32 disse:

    OLÁ. BOA NOITE, GOSTARIA DE SABER ONDE POSSO CONSEGUIR AJUDA PARA DIVULGAR POEMAS, PEÇAS DE TEATRO… EU Ñ TENHO CONDIÇÕES FINANCEIRAS, MAS TENHO MUITOS POEMAS E Ñ QUERO Q ELES FIQUEM NA ESCURIDÃO POR FAVOR ME AJUDEM MUI OBRIGADO!!

    MARI32

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  5. MARI32 disse:

    PARTE DO POEMA DE MINHA AUTORIA
    CONTATO: (MARI32B@HOTMAIL.COM)

    O QUE SERÁ DO FUTURO DO MUNDO AMANHÃ?
    PARE UM POUCO PRA OLHAR AO TEU REDOR:
    CADA COISA TEM SEU LUGAR E SE ENCANTAR
    COM AS ONDAS INDO E VINDO SEM PARAR
    VAMOS NOS UNIR,VAMOS JUNTOS PRESERVAR
    VAMOS RENOVAR NOSSA, TERRA NOSSO LAR
    DEIXEM A CHUVA CHOVER
    DEIXEM A CHUVA CAIR, E O MUNDO ENTÃO RENASCERÁ

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