O “PORRE NOSSO” DE CADA DIA


Minha amiga “K” – que conheço bem melhor, de ler seu blog, do que certas figuras com quem convivo há anos – comenta, no último post aqui publicado, que os meus episódios de porre para espantar o tédio são bem freqüentes na média das nossas vidas, modernosas e petulantes criaturas humanas (não foi literalmente o que ela escreveu, mas me permito misturar ao seu comentário a minha opinião). E, citando o seu próprio caso (o do vinho às três da tarde, narrado no “Incompletudes”), arremata: “o que você me diz? sou alcóolatra?”.

Confesso que tive cócegas de lhe responder por e-mail, ou comentário no próprio post. Afinal já manifestei, em outros artigos (como a “Cachaça Revolucionária”) e no poema “Embriaguez” (publicado no post “Três Poemas e Alguma Boemia”), grande parte da posição que o álcool ocupa na minha vida. Mas a verdade é que o assunto merece uma manifestação pública e específica, por mais desinteressante que possa parecer aos leitores.

Não direi, a moda do velho Vinicius de Morais, que “o uísque é o cão engarrafado”, até porque, como não sou grande admirador de cachorros, o bicho seria o gato, cuja típica atitude livre, individualista e imprevisível se ajusta mais ao ilustre portador de DDA (distúrbio do “deficit de atenção”) aqui, do que a proverbial “fidelidade” e tediosa utilidade do “melhor amigo do homem”.E a bebida, antes um conhaque ou uma boa cachaça de Santo Antônio da Patrulha – a cidade gaúcha que produz a melhor pinga do Sul do Brasil.

Mas o fato é que o trago tem me acompanhado desde que tive grana o suficiente para comprar o primeiro garrafão de vinho, pretensioso e jovem “intelectualóide” obscuro (não mudei muito desde então) metido a teórico político, poeta e revolucionário. E o bom porre já esteve presente nos mais diversos lances (para horror dos beatos e chatos defensores da vida “sóbria”, em todos os sentidos). Dos insights geniais de conversa de bar às ações políticas irreverentes e desafiadoras, aos mais apaixonados encontros, terríveis fossas, ou, como é comum a todo gambá de vez em quando, às mais tresloucadas e “incovenientes” explosões de entusiasmo ou raiva (devidamente bloqueadas pelo inconsciente, até um amigo nos lembrar as besteiras, na velha amnésia do dia seguinte).

Houve mesmo época em que uma oferenda a São Goró se fazia necessária quase todo dia (fosse no almoço ou antes da janta), sem que eu jamais me considerasse um “alcoólatra”. Até porque chego, volta e meia, a curtir semanas sem beber todas, no máximo aquele traguinho de leve. E, sinceramente, as melhores amizades que cultivei até hoje, embora se mantenham e cresçam no estado “sóbrio”, foram estabelecidas ou aprofundadas na “comunhão” sacana da missa profana em mesa de buteco.

A não ser pela ressaca e as conseqüências de longo prazo sobre o corpo (a mais inocente é aquela maldita barriguinha de cerveja), não vejo nenhum problema em encher a cara a qualquer hora, assim como não creio que se deva ter horário “certo” para o prazer, seja ele intelectual, culinário, ou uma fantástica foda!

O problema, cara “K” (e todos os demais leitores que já se viram em situações semelhantes), não está em tomar uma bela “carraspana” (nome por que atendia a bebedeira no século XIX) no meio do dia, mas nos motivos que nos levam a ela, e continuam a nos acompanhar durante e após o “inebriamento” (termo chique pra porrão inspirado).

Quando o tédio, a mesmice, a solidão, a falta de sentido, e o desconforto consigo mesmo nos tomam, a coisa está feia, mesmo no mais perfeito, “socialmente aceitável”, comportado e racional estado de “lucidez”.

Nós, bichos humanos, não fomos feitos pela natureza (embora a consciência elimine qualquer possibilidade de “finalidade existencial” obrigatória) pra servir de máquina, ferramenta ou “animal de criação”, numa existência oca e sem prazer (ou mesmo sem direito ao mais genuíno e pessoal dos sofrimentos – coisa aparentada da paixão) em nome de idéias, superstições, interesses ou privilégios externos ou auto-impostos.

Somos irmãos do vento, dos relâmpagos, dos trovões, do sol, das ondas doidonas e enormes, da chuva e das neves; do pôr-do-sol, da cerração, da lua e das madrugadas; do fogo e do impetuoso cio de cães, gatos, cavalos e toda espécie de existência auto-animada. E temos de nos dar o direito (pois a coisa está em nós, apesar dos opressores – e opressões abstratas) a, pelo menos, tentar uma válida e com alguma graça.

Porém, até agora, não descobri como fazer isto na prática!

Ubirajara Passos

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Um comentário em “O “PORRE NOSSO” DE CADA DIA

  1. K. disse:

    Querido Ubirajara,

    eu também não consegui descobrir.
    Então, tim tim…
    vamos continuar enchendo a cara.

    beijo,

    Curtir

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