PEQUENOS CAUSOS SEM-VERGONHAS


Infelizmente fui tomado pela modorra do sábado à noite (aquela síndrome que faz os quarentões solteiros, como eu, ficar com cara de bundão e entornar litros de uísque ou conhaque em homenagem a Mefistófoles , que o vinho de Baco é mais apropriado, como a cerveja, às alegrias sacanas do bordéis).

Mas, para que os leitores não sejam acometidos do distúrbio do deficit blogueiro (sem comentários), publico a seguir três anedotas reais que se passaram comigo ou tomei conhecimento (o caso do candidato), que poderão amenizar a noite de algum companheiro que esteja aí do outro lado, bocejando com cara de cachorro que vomitou no sapato Luiz XV da madame, em frente ao computador.

O VELHO ELEVADOR “PÓS-MODERNO”

É comum em viagens internacionais nos depararmos, segundo o arraigado conceito da lógica banal, com os mais estranhos e pitorescos costumes.

Mas o que se passou comigo e o Alemão Valdir na primeira vez em que visitamos Misiones (província do nordeste argentino), no verão de 2006, não tem paralelo nas crônicas de viagem conhecidas.

Recém chegados a Oberá (a segunda cidade da província), nos hospedamos num velho hotel todo construído em madeira, simples mas aconchegante, e, enquanto o resto da turma se acomodava em seu quarto (haviam viajado conosco o irmão e o sobrinho do Valdir, o padre Lourival Bergmann e o estudante Roberto Seibt), resolvemos tomar um mate no saguão, tendo descido até lá nas velhas escadas rangentes.

Mas, quando fomos subir ao quarto para fazer uma sesta (em honra ao hábito nacional dos castelhanos), a preguiça falou mais alto e pegamos o elevador de portas pantográficas, com mais de meio século de idade. Apertado o botão correspondente ao nosso andar, o troço, surpreendemente, após subir alguns metros, estancou à frente da dura e concreta parede de tijolos.

Já nos cagando de medo (pois supunhamos estar trancados entre dois andares), apertamos, por via das dúvidas o botão do andar térreo e, de forma imprevista, voltamos à recepção – onde, por pouco, não descascamos o índio que nos atendia com os mais castiços palavrões gaudérios. E a paciente criatura nos explica, espantado com o nosso alvoroço (e como se fosse a coisa mais natural do mundo) que a porta de saída do elevador fica às nossas costas, quando embarcamos nele, voltados para a porta de entrada.

Retornando, agora devidamente instruídos e treinados no uso do inédito elevador de duas portas, ao nosso andar, demos com o piá Roberto, que, boquiaberto e sem ação, nos vira antes, de costas , reinando no elevador sem sair dele.

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O MARQUETEIRO ECLÉTICO

Dizem que a história aconteceu realmente e se deu numa pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul, embora pudesse ter ocorrido em qualquer rincão do Nordeste brasileiro.

Não sei exatamente o município, nem o ano, mas tomei conhecimento do fato num curso de marketing, dado por um deputado do partido, quando me candidatei a vereador pelo PDT de Gravataí, em 2004.

Velho e matreiro “coronel” do lugarejo, o prefeito, na impossibilidade legal de reeleger-se, resolvera assegurar a “continuidade administrativa” (nome por que atendiam o privilégio e a sacanagem do grupelho político dominante na cidadezinha) candidatando nada mais que o próprio filho para a sucessão.

Mas o rapazola era dado à “vida airada” e acabou sendo pego pela oposição em flagrante delito de veadagem explícita, em uma boate gay da capital, a uma semana da eleição (não me perguntem o que os seus oponentes políticos faziam no inocente lugar para encontrá-lo, mas diante do escândalo o chefe da oposição pousava de acusador machão!). Jogada a bosta no ventilador, as velhas cobras do partido situacionista, perplexas e já vendo a derrota iminente, arrancavam os cabelos (dizem que alguns estavam tão nervosos que acabaram por perder a própria condição eventual de cornos, pois junto à melena se haviam ido as guampas, com a força dos puxões) .

Foi aí que o marqueteiro contratado pelo júnior (contra a vontade dos velhos quadros do partido, que não viam graça nenhuma nessas novidades modernosas – parece mesmo que o assessor era freqüentador do Bar Ocidente em Porto Alegre) teve a idéia luminosa. Se a coisa era indesmentível (o encontro entre os partidos, na “alegre” boate, degringolara em pancadaria séria e virara machete policial da Zero Hora), o negócio era aproveitar o fato e, lhe distorcendo o sentido, capitalizá-lo em favor do candidato. E o slogan foi logo bolado (rendendo uma estrondosa vitória para o “filhinho” – que quase faz o dobro da votação de seu pai na eleição anterior): “dar o cu não é defeito, vote no filho do prefeito”!

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A ESCADA ASSASSINA

A coisa aconteceu comigo e até hoje me dói quando o tempo tá pra chuva!

Um belo dia, lá por outubro de 2003 (quando a república do Alemão no bairro Petrópolis vivia seus últimos meses), aproveitando uma tarde de folga, fui dar uma trepada com a gata preferida no motel Sevilha, indo pousar depois (pois estava morando em Santo Antônio da Patrulha e o último ônibus passava às sete horas da tarde) na casa do Valdir.

Já na banheira, peladão com a gata, eu (que na época andava metido a fumante – onda que curti por uns dois anos) fui ter a idéia idiota (feliz que estava ali, embolado naquela gostosa nua) de ir ao quarto pegar um cigarro.

Só que, à semelhança do poema do Drumond, no meio do caminho tinha uma escada. E, apesar da recomendação “maternal” da gata (pela própria natureza, não seguida) de “bota o chinelo, que tu pode resvalar”, lá fui eu, trintão metido a garoto, pés molhados, pensando que era cavalo de carreira, à toda velocidade, atrás do tal cigarro.

Mas a escada de granito polido não gostou da história e me vi arremessado, em câmera lenta, frente a um indiscreto espelho, de costas sobre a maldita, num tombo de tirar o fôlego, a ponto de só conseguir gritar depois de uns dois minutos!

Infelizmente eu não havia ainda feito “aquilo”, e curtindo a maior dor da minha vida, em nome da própria “honra”, e do estado de tesão (e tensão!) em que deixara a gata, a comi em pé, ela deitada na beira da cama, com suas pernas para cima!

Mas, chegado à república (cujas cópias da chave naquele dia estavam comigo) curti boas horas de tremendo sofrimento até o Valdir chegar e me levar, sob protestos (tamanho é o meu horror de médico e hospital) para o HPS (Hospital de Pronto-Socorro). Depois de uma hora sem atendimento eu ainda me retorcia, enquanto as macas de esfaqueados e acidentados íam chegando às pencas ao hospital. Resolvidos a ir embora, fomos indo para a porta, quando nos detém um burocrata guarda fascista da administração petista: mesmo que tivesse um filho, aguardando sete horas sem me ser ministrado o mais simples analgésico, eu não poderia sair antes de ser atendido!

Protestei, perguntando se estava “preso”, e fui retido pelo “longo braço da burocracia”. O alemão não deixou pra menos e já ia, ele e o guarda que pensava ser um “comissário para a segurança da saúde” da Rússia estalinista, levantando os punhos em posição apropriada ao início da pancadaria. Era só o que me faltava: além de rebentar-me com a rasteira de uma escada invejosa, em plena casa do prazer, eu ainda iria, todo torto (e quem sabe quebrado) ser premiado com uma noite no xadrez!

Mas consegui, com o auxílio de outro guarda, sensato e menos bronco, demover os pugilistas amadores, e, jogado o prontuário pelo Valdir, com um safanão, nas fuças da recepcionista (todo o problema do bronco burocrata, ficamos sabendo então, não era a minha saída, mas a papeleta que eu ía levando comigo), fomos para o Hospital da PUC.

Lá, com o pagamento de meros onze reais, fui prontamente atendido e, feito o raio x e constatado não ter quebrado ou rompido nada na queda, devidamente medicado. Como estava há horas sofrendo, ao descrever o meu problema para o médico, quis fazer uma gracinha e contei que me estrepara na escada do motel Sevilha. O doutor “piá” (não devia ter mais de uns vinte e quatro anos), demonstrando a maior impassibilidade, e nem um pouco impressionado, me responde: “Eu tava lá, também, hoje à tarde, com a minha namorada. Banheira de louça, escada de granito… é um motel bem chique, né?”.

Ubirajara Passos

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5 comentários em “PEQUENOS CAUSOS SEM-VERGONHAS

  1. Roberto disse:

    Bah eu me lembro desse episodio do elevador hehehe

    Ta massa o blog!
    Ate mais ai bira !

    ….ah eh, Grêmio 1×0 hahahahaha

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    • nanda disse:

      nossa gremio nao que tristeza meu Deus tenha MISERICORDIA DESSE SER HUMANO PQ NAO TEM CONDIÇOES DE TORCER PRO GREMIO TEM QUE TORCER PRO MENGAO…

      NOSSA MUITO MASSA ESSE CAUSO GOSTEI PARABENS..
      CONTINUE ASSIM.!!!

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  2. K. disse:

    Amigo, você está na “média” como diriam os economistas..rs.. Eu tive crise dessas num dia de semana, uma garrafa de Merlot às 15h00…..

    o que vc me diz?

    sou alcóolatra?

    ps: adorei o distúrbio déficit blogueiro… Muito bom. beijo, beijo

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  3. Eu e a minhha mãe estavamos indo para o trabalho dela.
    Ela tinha me contado que a casa em que ela trabalhava era muito assustadora, mas eu nem acreditei..
    Quando chegamos na casa, eu tomei Um Baita Susto. A Casa dela existia há muito tempo. Nossa! a casa dava Medo mesmo. E Lá tinha um cachorro que era enorme. Ele era muito feroz e aí ele olhou pra mim com aquele olhos vermelhos assustadores. Minha Mãe me disse: Não olhe no olho dele. E aí eu parei, ela me chamou e falou:
    Olha, aqui os parente dela foram todos enterrados e não precisar ficar com medo. Nós vamos dormir aqui hj. Eu falei “tudo bem, Mãe”.
    Quando foi anoitecendo a porta começou a bater. Eu morrendo de medo. O cachorro começou a latir, o relogio CUCO começou a tocar e eu me amedrontando.
    Nem consegui dormir, de tanto medo. E aí os quadros começaram a virar de ponta-cabeça. Eu resei o pai nosso Todinho e a minha mãe falou : ISSO É NORMA, AKI A ESTAUTA SE MEXER. Eu falei: mãe isso é coisa da minha cabeça. A senhora para que a minha mãe trabalhava Tem agora 120 anos e sua casa é assombrada. NUNCA MAIS EU COLOCO O PÉ LÁ…

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