ENQUANTO A CARAVANA NÃO PASSA, OS CÃES CAGAM!


Não se pode afirmar tão facilmente que o povo brasileiro é “despolitizado”. Assim como qualquer um, neste país, discute a escalação da seleção brasileira de futebol e as estratégias de seu técnico, não há aposentado (destes que lagarteiam nos bancos da Praça da Alfândega, em Porto Alegre, em pleno inverno) ou engraxate, passando pelos maconheiros que fumam um baseado legal sob as árvores da Praça Brigadeiro Sampaio, que não esteja informado dos últimos lances do julgamento de Renan Calheiros, ou até mesmo do apelido da vaca malhada das fazendas fantasmas do Presidente do Senado, ou da cor da cueca “de bolinhas” que usava o comandante do avião da TAM ao espatifar contra o hangar, na tragédia do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

A velha discussão sobre a “corrupção” ou os “privilégios do serviço público” (esta última carregada dos clichês que reduzem a massa dos esfalfados peões dos três poderes à caricatura de preguiçosos, vagabundos e balofos senhores de carteira estufada) mantém a população nacional ocupadíssima com a “política” desde os tempos do Império (quando, dizem as más e soltas línguas, a grande polêmica era a “cor do chicote de seda verde” com que a Marquesa de Santos acariciava o lombo nu de Dom Pedro I, no sado-masoquismo das nobres alcovas dos Bragança).

Entretanto, enquanto o Inácio se prepara para desfigurar os últimos direitos legais da peonada (sob o pretexto de elencar a legislação complementar à CLT, promulgada nos últimos sessenta e quatro anos, em uma nova e “inocente” Consolidação) e revogar na prática a aposentadoria, ninguém discute, protesta ou faz apostas (um dos mais promissores ramos, ocultos, do jogo ilegal é o book maker sobre o padrão da gravata que Renan usará na próxima entrevista).

Enquanto dezenas de milhões de brasileiros passam fome ou suportam a humilhação diária das ordens imbecis de chefetes de escritório ou contra-mestres de fábrica, por exemplo, esta mesma peonada não emite o menor suspiro a respeito.

Mas a falta de preocupação da massa com o fundamental (a dominação capitalista, a precariedade de nossas vidas e a apropriação do produto do suor do povo pela burguesia internacional e seus gerentões brasileiros) não é apenas produto da ênfase safada da mídia. Se as multidões se enfronham na discussão moralista dos “escândalos” de corrupção da classe encarregada pela burguesia do circo institucional que mantém a peonada acomodada e longe da revolução (o “patriciado” político) é porque, no fundo, estão impregnadas da velha histeria “ética” e disciplinadora do comportamento humano (a versão “adulta” das regras de “bom comportamento” e etiqueta da “mamãe’: não suja as roupas guri! não diz “nome feio! não fala com a boca cheia, quem bate punheta vai pro inferno!), gestada e mantida pelo poder dos nossos “donos” (a burguesia e seus auxiliares ideológicos – do clero ao jornalismo, passando pelo magistério e mesmo os “catequisadores” da esquerda institucionalizada), em prol da nossa robotização e escravização e da sua opulenta e sádica vadiagem!

P.S.: E é este mesmo povo (tão empenhado no bom mocismo – e tão apavorado, verbalmente, com a “imoralidade política”) que, não se julgando merecedor de uma vida livre e saudável, digna de gente (afinal o patrão é dono do capital, tem seus “direitos” ao lucro e ao luxo para o qual é essencial a miséria da peonada), “alimenta” a existência dos políticos corruptos, votando conforme as prioridades dos roncos de seu estômago (que em geral só podem ser amenizadas pelos candidatos que dispõe de maiores recursos, saqueados aos cofres públicos, para bancar o “fome zero” e o “bolsa-família” particular), nas eleições periódicas da democracia burguesa, e perpetua (trabalhando exaustivamente, sem fazer greve, nem contestar, e votando compulsivamente na direita de todos os matizes, da tradicional aos fascistas vermelhos do Inácio) a própria desgraça.

Ubirajara Passos

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