O SINDJUS HÁ QUINZE ANOS


Em 1992, na gestão da combativa e incompreendida Lúcia Caiaffo, eu iniciava a militância como líder sindical, na época como representante da Comarca de Gravataí e, no segundo informativo local que publicava, fazia um diagnóstico da mentalidade e do comportamento dos sindicalizados de Gravataí, que valia para o conjunto dos trabalhadores do judiciário e, infelizmente, hoje, quinze anos depois, apesar dos raros avanços da pauta reivindicatória (as perdas salariais da época beiravam os 300%, contra os atuais 42% – mas estávamos em plena inflação galopante – e não tínhamos os benefício do auxílio-refeição e auxílio-creche), continua terrivelmente atual.

Da mesma forma, as concepções de organização e luta sindical que eu então expressava são o resumo programático perfeito de um movimento com um mínimo de capacidade de luta e conquista, plenamente válido e até hoje inalcançado.

Apesar do tom grandiloqüente e empolado (e alguns arcaísmos – na época os representantes sindicais eram designados “delegados” de local de trabalho), o texto recende a anarquismo e revolução, e vai muito além do mero sindicalismo.

Aí vai a transcrição do trecho final do documento, que era enorme (cinco páginas), pois eu não desconfiava, então, do porre que são os textos grandes (os “tijolões”) para a maioria das criaturas humanas:

 

“Não nos iludamos: nada cairá do céu e o Tribunal nada nos concederá gratuitamente.Teremos de conquistar palmo a palmo a nossa maioridade como categoria de trabalhadores e os nosso direitos trabalhistas fundamentais.

Enquanto nos mantivermos no mero papel de espectadores, esperando que as soluções para nossa desgraça venham das altas cúpulas, sem nossa menor participação; enquanto crermos que somos uma classe de elite, alheia aos trabalhadores em geral; enquanto crermos que a regras que regulamentam nossa vida funcional e sócio-econômica são inquestionáveis e intocáveis, simplesmente por emanarem de um ordenamento legal (nem sempre legítimo), o qual nos mantém atrelados a uma concepção de que o serviço da justiça é um sacerdócio e, por isso, devemos dispor-nos a “dar nossas vidas pelo trabalho”, pouco importando sobre que funestas e desumanas condições; enquanto julgarmos que o nosso papel é de mera obediência às condições estabelecidas, sem reconhecer que, uma vez que estas são as determinantes da nossa realidade funcional e pessoal, temos, portanto, de discuti-las e tentar dispô-las a nossa favor; enquanto preocuparmo-nos com o segundo de trabalho não realizado, julgando-o perdido, enquanto se discute a nossa realidade como categoria; enquanto julgarmos que o tempo destinado às nossas reuniões sindicais deve ser breve para que “prejudique” o serviço, esquecidos de que estão em jogo, nesta atividade, nossos interesses trabalhistas maiores; enquanto não nos erguermos na luta firme e consciente por nossos direitos, viveremos o drama de uma categoria espoliada, miserabilizada e sem as mais elementares condições de vida e de trabalho, e seremos, enfim, por nossa própria inércia, conformismo e aceitação apática das coisas, os maiores responsáveis por nossa própria desgraça.

É preciso, portanto, lutar, servidor a servidor, de modo consciente e incansável por nossos anseios, mas é necessário, sobretudo, que esta luta vá muito além do formalismo progressista e do mero discurso; é preciso que cada de um nós esteja empenhado não só em seguir as decisões – nem sempre acertadas e aceitáveis – de nossas assembléias gerais, de modo cego e obediente, e , pura e simplesmente, discutir e militar dentro dos termos apresentados pela Diretoria e pelas delegacias sindicais. Cada um de nós deve buscar o questionamento profundo de nossa realidade, da concepção do que deve ser um movimento sindical, dos rumos que pretendemos dar-lhe e dos que vêm sendo seguidos. É preciso que esta reflexão se faça de modo permanente e não se restrinja ao momento das reuniões formais convencionais, para que, então, da discussão consciente de nossos problemas, nasça uma visão majoritária e por ela lutemos, organizando-nos de modo que haja o contato e a cooperação permanente entre a base, em seu conjunto, e entre ela, a delegacia sindical, o movimento em geral e a diretoria.

Faz-se imprescindível, em suma, que deixemos de ser meros membros de uma categoria profissional para nos constituirmos em membros de um movimento reivindicatório organizado e permanente (o sindicato) e de meros membros filiados ao SINDJUS – um número de matrícula numa lista – nos termos membros atuantes, questionadores e conscientes, do movimento.

Só assim teremos a possibilidade de, um dia, ter reconhecidos nosso direitos como trabalhadores e e seres humanos que devem ter um mínimo de condições funcionais e de sobrevivência. Só a maioria auto-organizada tornará este sonho possível, e esta maioria, para tanto, não pode ser mero rebanho, tem de se alicerçar no pensamento e compromisso consciente e fundamental de um cada de nós, servidores da justiça do Estado do Rio Grande do Sul.

Gravataí, 2 de junho de 1992

Ubirajara Passos

Delegado Sindical da comarca de Gravataí “

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