O JARDIM DOS VENTOS PERDIDOS


Aí vai mais um capítulo de “Erótilia”, em seguimento à série publicada em janeiro. Aos que não leram os capítulos anteriores ou, obviamente já esqueceram-se em que pé se enconttrava a “trama”, recomendo dar uma conferida no livro eletrônico na barra lateral deste blog, à direita. Mil perdões, mas só agora a “inspiração” me permitiu escrever mais um capítulo:

O Jardim dos Ventos Perdidos

“Bem vindo sejas, filho da buceta!
Desde o longínquo pólo, das alturas
Do gelo eterno, dos desertos te saúdam
Os murmurantes rios subterrâneos.

Corre em tuas veias a sabedoria
Que habita as águas abaixo do solo,
Em teus ouvidos vibram os cantares
De ígneas rochas, do calor primevo
De cujas cinzas és filho.

Te chamamos
Do mais profundo do teu peito.
Abre os olhos
Para o prazer ondulante que fundiu-se
E se fez carne ambulante,
Fez-te o que és!

Do sono profundo das amarras,
Do sofrimento que encarcera e imobiliza,
Desperta filho do auto-flagelo.

Recém tocou-te a beleza e é preciso
Que, só e nu, inerme tu mergulhes
Na luz que cega o ruidoso pensamento,
Na sensação pura dos caminhos
Que traçam a si próprios cavalgando
O hálito eterno e onisciente da volúpia”


A voz líquida, que parecia a de uma fonte, foi-se alterando num sussuro, cada vez mais rápido e gemente, até fazer-se confusão de ventos, que se cruzavam para todo lado, e de redomoinhos lamentosos que eriçaram-lhe a pele e despertaram o aprendiz do sono profundo. Completamente pelado, Epicuro viu-se deitado numa cama fofa de relva, junto à margem da clareira. À sua frente se erguia uma trilha curva margeada por pés de cinamomo, agitados pela ventania, que desembocava num rústico jardim com toscos bancos de pau falquejado. A cabeça atordoada ainda girava e, quando tentou erguer-se, deu um rodopio e estatelou-se ao chão.

Ainda lembrava do estranho vulto branco, do mármore vivo e pulsante, resplandecente, do oceano de carne e dourados cabelos que se precipitara sobre ele em sonho, envolvendo-o numa sensação desconhecida e quente… (mesmo com os cornos pulsando de dor o “pernóstico” rapaz se enfronhava na poesia barata)… num formigamento arrebatador que lhe fez convulsionar-se cada músculo e fibra nervosa, numa volúpia estranha e surpreendente, enquanto a misteriosa voz recitava, cada vez mais imperceptível, a estranha oração – de que agora só se lembrava de trechos.

Aos poucos foi dando por si e lembrou da criatura deliciosa que espiava na cachoeira, quando uma pancada o nocauteou por trás, enviando-o ao “reino de morfeu”. Puto da vida e zonzo, não tendo com quem reinar, pôs-se a clamar contra a própria babaquice, quando ouviu a estranha gargalhada (que parecia mais uma cascata ou o barulho de seixos se chocando na correnteza de uma sanga). Foi aí que deu com a figura encapuçada que o encarava, a sacudir-se.

Ubirajara Passos

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s