O CADÁVER DO PERUCA


Após encher os cornos desde manhã cedo, a turma do Peruca dormitava à beira do açude, o sol se pondo, no sítio do Franja. Fazia meia hora que ninguém falava. Os únicos ruídos, além de algum quero-quero importuno, ou das declarações de “amor animal” da Marianinha (a vaca de estimação do Franja) ao seu dono, eram os arrotos e peidos do bando de “gambás”.

Foi aí que um berro sacudiu os brejos, e pôs a latir toda a cachorrada do Morro do Itacolomi!

Cabelinho (o primo mais novo do Peruca), levou um esbarrão num corpo inerte, quando, cambaleante, se arrastava até a margem para vomitar e deu com a figura inanimada. A baba a escorrer (como de costume) da boca, o corpo estatelado, mesmo com o violento trompaço, o Peruca não deu um ganido!

Após uns cinco minutos tentando se fazer entender, a língua enrolada, os braços agitados como se quisesse alçar vôo (Franja e Zé Doidinho imaginaram que o amigo curtia o barato do porre imitando a Geralda, a galinha mais popular do sítio), Cabelinho disparou: “ele tá morto, o meu primo! Coitadinho! Tão novo e tão abobado! Desde que foi pego por aquele traveco maldito e gostoso… puta que pariu!, por aquele traveco perigoso, nunca mais foi o mesmo e agora taí: mortinho com a boca arreganhada. Vamo tirá logo ele daí antes que fique com a boca cheia de formiga!”

A polvorosa se esparramou como uma onda entre os filhos da cachaça, que, um a um, se ergueram, pesados, do chão! E agora? O Peruca morto ali, em meio ao mato, era um problema! Quem iria terminar a filmagem da fantástica aventura? Fora ele que, desde a noite anterior, com “uma câmera na mão e uma cachaça na cabeça” registrara da pescaria à embriagada corrida de carrinho de lomba. E o pior: fazer o que com a carcaça? Todo mundo ali era novato nesta coisa de morte e a bebedeira impedia qualquer raciocínio “retilíneo”. A mente acompanhava as pernas da turma, ziguezagueando no capim lamacento.

Foi aí que o Marcinho do Pó (o mais “ligado” do grupo, cujo inocente apelido já diz tudo) teve a idéia luminosa: “Se morreu, temo que enterrá ele! Ô Franja, pega lá a enxada no galpão!”

Zé Doidinho, porém, gritou mais alto; “Peraí, que negócio é esse de ir enterrando o nosso companheiro aqui, no meio das vaca, das galinha, num lugar ‘ermo’ (o Zé era metido a erudito e fazia três dias que aprendera a palavra nova, que aplicava a torto e a direito)… Não tá certo! Temo é que levá ele pro cemitério! Lá que é lugar de defunto, assim como lugar de gostosa é de quatro na cama da gente!”

A trupe embriagada assentiu, assanhada (já nem se preocupavam com a morte do amigo), e saiu em disparada, a buzinar e gritar estrada a fora, agitando o sábado modorrento que escurecia. Contam as más línguas que, no centro da cidade, muito curioso se achegou à camioneta, ante o berreiro de “deixa passar que já tá apodrecendo, tá fedendo moço, ele tá fedendo!”, e saiu, cabelo em pé e olhar esbugalhado, em correria de pânico até o Passo da Caveira (“vila popular” uns seis quilômetros distante).

No cemitério a coisa foi feia: o berreiro, o buzinaço – quase que o Lulu, guarda municipal em serviço no turno da noite, manda chamar a Brigada Militar e bota todo mundo em cana (inclusive o falecido Peruca, que, segundo ele, era o responsável pela algazarra – coisa proibida no livrinho do “Perfeito” Stalinsky – quem mandou morrer de porre?). Mas, diante dos argumentos da “Carinha Sobe e Desce” (a única doida que se dispusera a participar da festa), que, com um bundaço e uma beijoca no pescoço, pôs-lhe comovido, o “guarda-defuntos” permitiu a entrada da inusitada procissão, com um porém: quem ia enterrar o Peruca, pra expiar o mal cometido, era o traveco do Bradesco!

Se ouviu então um gemido fino e distante, coisa de alma penada: “Não, no cu não! Seu diabo, o senhor faça o quiser, mas ainda nem curei as hemorróidas!”

No dia seguinte, o sol a pino, o Peruca, embarrado, a cabeça a latejar mais que badalo em sino, desceu, nada entendendo, a Nestor Moura Jardim, enquanto o bando ainda corria, não até a Caveira, mas subira a lomba e já andava quase em Morungava.

Ubirajara Passos

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