O “PACOTE” DE FUTUROS


Como anarquista, rejeito, evidentemente, qualquer visão determinista ou fatalista da vida (da ditadura dos genes dos darwinianos ao “estava escrito” islâmico), o que nunca me impediu de especular sobre o “destino”, diante de manifestações parapsicológicas incontestáveis, como a pré-cognição, ou dos infalíveis acertos da leitura das cartas do Tarô (a que me dedico desde o final do ano 2000).

Sem falar, é claro, nos tantos casos de “sincronicidade” (conforme a psicologia junguiana) por que eu mesmo passei umas quantas vezes. O mais estrondoso deles foi quando, separado da minha grande paixão (que se encontrava grávida) fui enganado pela minha “sogra”, que me pedira grana em seu nome para pagar o parto ocorrido. Pois, desde que recebi a notícia, por dois dias seguidos fiz um caminho, do Foro até o restaurante onde almoçava, diferente do costumeiro e encontrei dois conhecidos diferentes (que não tinham a menor ligação entre si, além de me conhecerem) que me desmentiram o nascimento, ainda não ocorrido (ao contrário do que a vigarista me dizia), fato que vim a confirmar mais tarde com a própria mãe da criança.

A questão que nos salta à mente é óbvia: se não há “destino”, nenhum roteiro pré-determinado em nossas biografia – seja pelas condicionantes materiais reconhecíveis da natureza (o questionamento e a abertura de possibilidades da filosofia libertária esbarra, na concretude, sem nenhuma excessão conhecida, em fatos irrefutáveis, como o de que jamais se viu um gato miar ou os ratos do Palácio da Alvorada latindo em homenagem ao Inácio), seja por uma pretensa divindade acima da humanidade – se nada do que está por vir é certo, como é possível prever o futuro?

Os especuladores mais malucos, a partir da física quântica e da teoria das super-cordas (que admite a existência de dezenas de “dimensões” materiais além das três conhecidas), dirão que cada decisão que tomamos e, conseqüentemente, cada ato nosso, cria futuros alternativos paralelos, existentes realmente, em mundos que convivem lado a lado sem se comunicarem. O doido do Richard Bach (ex-aviador e escritor norte-americano que li bastante e ajudou-me a suscitar ou confirmar muitas das minhas convicções, autor de “Fernão Capelo Gaivota”) chegou a escrever um romance (“Um”) onde ele e sua mulher passeiam, no seu bi-plano, por vários futuros ou passados alternativos, sobre um “mapa” do tempo.

Mas, em uma das rápidas conversas que mantemos todo dia entre os foros de Gravataí e Giruá, pelo telefone, eu e o Alemão Valdir cagamos (à moda das reflexões que fazíamos, há uns dez anos, sentados preguiçosamente na margem direita do Guaíba, vendo Porto Alegre do outro lado do rio-lago) uma teoria mais razoável.

Se na própria interação da sociedade humana (da economia à política, passando pelos meios de condicionamento cultural) há uma certa margem de previsão semelhante às condições físicas da atmosfera, é bem possível que a interação de nossos desejos e decisões – que virão a tornar-se ação – determinem uma certa linha previsível de estado futuro, das nações aos indivíduos. Que evidentemente pode ser afetada pelas mudanças de decisões e atitudes.

Ou seja, se o Tarô (que é uma forma de conhecimento mais complexa do que a banal arte dos cartomantes, pois faz questionamentos e análises emocionais sutis do presente do consulente, traçando linhas gerais de desenvolvimento futuro) aponta a possibilidade de prejuízo financeiro se mantivermos certa atitude em relação a determinados investimentos, por exemplo, seria possível evitar a desgraça, alterando a atitude presente.

Mas esta seria uma explicação muito frouxa para sonhos ou visões “proféticos” que “prevêem” fatos com antecedência até de anos e séculos, que, na inexistência absoluta de futuro certo, poderiam jamais realizar-se, perdidos nas ramificações e desvios dos “futuros” gerados a cada mudança de rumo das criaturas.

O que me fez aventar que o “futuro” seja uma entidade energético-mental composta de “pacotes”, conjuntos inteiros de fatos interligados a partir do menor ato ou decisão, cuja criação ou alteração radical só seja possível se forem tocadas determinadas “decisões-chaves” da cadeia de acontecimentos, que pela sua essencialidade sejam capazes de alterar o rumo para outro pacote alternativo…

A coisa pode estar parecendo muito mística, mas desde que se afirma que usamos conscientemente apenas 10% das capacidades mentais potenciais do nosso conjunto encefálico e que a maior parte dos nossos gestos e reações diários são automáticos ou condicionados inconscientemente nos softwares e programas cerebrais com que nascemos (e vão sendo alterados ou criados pela experiência concreta da atividade “real” e de nossos sonhos, desejos e imaginações, vida a fora) é bem plausível a existência do “pacote”. Que nos deve servir, no máximo, de farol de navegação nas próximas dificuldades e não para nos postrarmos ante o inapelável, pois a vida sem rebeldia não é vida.

Mesmo Epicuro (o filósofo grego do prazer e não o personagem da minha fábula incompleta), que defendia a escola atomística de Demócrito (na qual tudo derivava do movimento perpétuo, contínuo e uniforme da queda dos “átomos” no vácuo), especulava a possibilidade do “clínamen” (o desvio do rumo pré-determinado da partícula) no que diz respeito aos atos e realidades humanas. Sem a fuga aos moldes pré-fixados da natureza e da cultura coletiva, estamos condenados à despersonalização e à infelicidade. A rebeldia (a concretude do questionamento do mundo “pronto” em que nascemos e vivemos) é, portanto, a forma concreta e plausível da liberdade.

Fica em aberto, portanto, se existe o pacote de ramificações do futuro (mais ou menos determinado no geral, mas com várias atalhos, diferenciados como os galhos de uma árvore ou os braços de um delta). Mas, seja como for, quando a sua intuição lhe apontar uma trilha que se aproxima da realização dos seus mais caros e profundos sonhos, desejos e convicções, quando aquele “formigamento” agitar não só sua mão, mas o seu cérebro, vá com tudo e mergulhe no “pacote do futuro alternativo” que se apresenta. Outros virão, ou não. Mas a vida vale antes pelos momentos do que pelo desaguadouro final projetado de nossas correntezas.

Que, até o que se conhece racionalmente, dá sempre na fatal e absurda inexistência (uma senhora que não anda de capuz e foice à mão, mas é feita de um branco e inalterável mármore, eternamente frio e igual).

Ubirajara Passos

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2 comentários em “O “PACOTE” DE FUTUROS

  1. Apreciei o "tendinite" disse:

    Caro Bira,
    Alguém me passou o artigo “tendinite de punheteiro”. Tive a curiosidade saber quem era voce e cai nesse blog. Apreciei.

    Olha esse mail abaixo que recebi. Acho que vai-lhe agradar. Talvez você o conheça. Se for o caso, desculpe ter-lhe enviado o dito cujo. De qualquer modo, nas nao sei se é de verdade ou gozaçao. Mas creio que seja verdadeiro.
    Segue meu email (com um nome que nao é o meu porque nao quero ver meu nome publicado.Sei que você prometeu que nao, mas prefiro ser precavido) Se voce responder, prometo dar retorno com meu proprio nome.
    Este mail, voce vai ver, é francês. Eu moro perto de Paris.
    Abraços

    POSIÇÕES SEXUAIS E SEUS PECADOS…

    (( Bispo EDIR MACEDO ))

    Retirada do livro “Castigo Divino” da Igreja Universal do Reino de Deus – (( Bispo Edir Macedo)) … Os pecados das posições sexuais:

    Posição de Quatro:
    É uma das posições mais humilhantes para a mulher, pois ela fica prostrada como um animal enquanto seu parceiro ajoelhado a penetra. Animais são seres que não possuem espírito, então o homem que faz o cachorrinho com sua parceira fica com sua alma amaldiçoada e fétida.

    Sexo Oral:
    O prazer de levar um órgão sexual a boca é condenado pelas leis divinas. A boca foi feita para falar e ingerir alimentos e a língua para apreciar OS sabores. A mulher engolindo o sêmen não vai ter filhos. E o homem somente sentirá dores musculares na língua ao sugar a vagina de sua parceira.

    Sexo Anal:
    O ânus é sujo, fétido e possui em suas paredes milhões de bactérias. É o esgoto propriamente dito. No esgoto só existem ratos, baratas e mendigos. A pessoa que sodomia ou é sodomizada ela se iguala a um rato pestilento. Seu espírito permanece imundo e amaldiçoado. Mas o pior é quando o ato é homossexual, pois o passaporte dessa infeliz criatura já está carimbado nos confins do inferno.

    ::: Veja a maneira certa de se relacionar sexualmente, segundo a cartilha:::

    Posição Recomendada:

    O homem e a mulher devem lavar suas partes com 1 litro de água corrente misturado com uma colher de vinagre e outra de sal grosso. Após isso, a mulher deve abrir as pernas e esperar o membro enrijecido do seu parceiro para iniciar a penetração. O homem após penetrar a mulher, não deve encostar seu peito nos seios dela, pois a fêmea deve estar orando ao Senhor para que seu óvulo esteja sadio ao encontrar o espermatozóide. Depois do ato sexual, os dois devem orar, pedindo perdão pelo prazer proibido do orgasmo. Como penitência… O açoite com vara de bambu é aceito em forma de purificação.

    Conclusão I: OU NOS VEREMOS TODOS NO INFERNO OU VAI FALTAR BAMBU NO MUNDO!!!

    Conclusão II: SE ALGUÉM PRECISAR DE BAMBU, LÁ EM CASA TEM MAS EU NÃO USO.

    Conclusão III: SAL GROSSO E VINAGRE? VAI TRANSAR OU VAI FAZER CHURRASCO??? ???

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  2. Bárbara disse:

    É triste ver a decadência da religião,amei as suas conclusões a repeito como o homem pode fazer do prazer um pecado,e se punir por isso…Vivemos no seculo XX ñ a quem acredite mais nisso.

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