PEQUENO DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO SOCIAL – 2


Paixão: oriunda do latim, passionis, que significava “passividade”, “sofrimento”, a palavra que corriqueiramente é tida como o auge do amor e do êxtase, do fogo transcendente de alma e corpo, surgiu justamente no século XIII – quando os portugueses medievais a grafavam paixon.

Nesta época tomava corpo o amor romântico ou cortês, que consistia na adoração platônica e eternamente frustrada do cavaleiro pela gostosa mulher do senhor feudal (bom negociante e rufião, que incentivava o exibicionismo recatado da senhora, a fim de manipular o cavaleiro através dela, em favor de seus interesses).

E, conseqüentemente, os nossos ancentrais ibéricos passaram a designar esta situação de voyeurismo involuntário (o máximo que a “senhora” permitia ao adorador é mostrar-se nua – o pobre idiota não podia sequer tocar-lhe o dedo mínimo do pé), que se renovava, repetidamente, sem jamais dar na foda enlouquecida, com o termo equivalente a sofrimento passivo. Que, não por acaso, constitui a natureza essencial, até hoje de nossas devoções amorosas, sexuais e intelectuais.

Ao contrário das suposições politicamente corretas, as grandes paixões, em geral, nada possuem de prazeroso, realizador e feliz, mas, na tentativa de sua conversão em realidade concreta, acabam por resultar em frustração, extremo sofrimento, depressão e verdadeira e insana melancolia, daquelas em que o apaixonado se compraz em revirar e atiçar as brasas do próprio sofrimento.

A natureza autoritária e coisificada das relações “amorosas” (que padecem das noções de propriedade, uso e domínio, com que as contamina a sociedade autoritária e exploratória) se revela, assim, perfeitamente, na acepção original do termo, que (desaparecido o amor cortês tipicamente feudal) passou a designar o forte arrebatamento do desejo, especialmente o amoroso, e da obessão por um objeto ou causa.

Não é de espantar, no que se refere às paixões políticas, filosóficas e existenciais, que a palavra tenha sido utilizada, também, desde a sua incorporação às línguas novilatinas, para identificar o sofrimento específico do “redentor da humanidade” no cristianismo, o profeta “anarquista” Jesus, cujos ideais de igualdade e cordialidade entre os homens, segundo o Evangelho, valeram-lhe a tortura e morte na cruz.

Ubirajara Passos

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