PEQUENO DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO SOCIAL – 1


As palavras mais comuns que usamos para designar atividades, situações, sentimentos, qualidades e objetos quotidianos ocultam, na sua inocência de termos tornados autônomos e “neutros”, muitas vezes, em suas origens remotas a realidade cruel das contingências concretas por elas simbolizadas.

Na maior parte das vezes, basta procurar o seu significado original e/ou o termo da língua que lhe deu origem para nos concientizarmos dos sofrimentos e injustiças que povoam o nosso dia-a-dia e dos quais mal nos percebemos, na banalização absoluta de tudo a que a massificação e padronização de nossa vida mental (idéias, emoções e comportamentos) induz.

Assim, elenco a seguir uma pequena lista da etimologia (origem) de alguns dos mais “inocentes” e triviais vocábulos que povoam nossos dias, para diversão dos meus entediados leitores (que, desde que abordei a questão sócio-cultural da religião africana, e por ter passado vários dias sem mais nada postar, parecem ter se revoltado, pois as visitas a este blog reduziram-se drasticamente):

Trabalho: vem do latino tripallium, que era nada mais que um chicote de três pontas usado para “acariciar” o lombo de escravos e “criminosos” (se não me engano, Cristo foi um deles) que se opunham ao sadismo da dominação dos senhores romanos (ou, simplesmente, “caíram nas desgraças” de um inimigo poderoso, se homens livres da plebe).

Não é casual, portanto, que quando uma coisa é dificultosa, sofrida de se fazer, se diz que é “trabalhosa”. A utilização, na transposição da língua-mãe (o latim) para o português, do nome de um instrumento de tortura assinala perfeitamente o caráter de atividade penosa e obrigatória exercida (verdadeiro sacrifício) sob o tacão autoritário do dono ou patrão. O que os velhos lusitanos romanizados já sabiam perfeitamente e a ética hipócrita do capitalismo cristão-ocidental tratou de encobrir sob a edificante noção do lavor dignificante e produtivo que dá valor ao peão (o seu contrário, a vadiagem, é transgressão horrenda, salvo se exercida pelo opressor que se impôs às multidões de mulas de carga humanas – a safadeza, o ócio e o roubo são monopólio da burguesia).

A metáfora concreta mais terrível e esclarecedora estava inscrita nos portões de Awschvitz, o maior campo de concentração nazista, onde um letreiro, na entrada, cinicamente advertia: “o trabalho liberta”.

Empregado: este sequer necessita do conhecimento da origem latina (o verbo implicare, que significa “enlaçar” – manietar, portanto – e deu origem a “empregar” – de cujo particípio derivou o substantivo que hoje significa o indivíduo que trabalha no estabelecimento de outrem).

O sentido mais universal e original de empregado quer dizer exatamente “utilizado”, o que é próprio de coisas ou ferramentas (“utensílios”). E deixa claro a abominável realidade dos antigos escravos, servos medievais e dos atuais escravos assalariados que, tendo sua vida regrada e organizada no interesse do seu dono (o ilustre burguês que o “emprega” como a um martelo ou enxada), acaba reduzido à “condição de coisa”, sem vontade nem direito a uma vida digna de um ser humano – que deixa de ter direito à própria sobrevivência depois que não “serve” mais para estufar os bolsos e a pança de seus patrões. Não é pra menos que o Inácio quer extinguir, na prática, o direito da peonada à aposentadoria.

Patrão: derivado da palavra latina patronus (que originou , em português, também padroeiro – o que denuncia a natureza de braço ideológico do poder das elites que a Igreja Católica passou a exercer desde a conversão do imperador romano Constantino).

Neste caso a hipocrisia remonta à romanidade, pois seu significado no idioma do antigo Lácio era o de “protetor” ou “defensor” da plebe (a classe dos trabalhadores não escravizados formalmente – os “proletários” da Roma Antiga – e os negociantes de porte médio, que não pertenciam à nobreza governante, os patrícios).

O patrono antigo era, portanto, uma espécie similar a dos políticos demagogos e clientelistas de nossos dias (que devolvem aos trabalhadores as migalhas geradas do suor do próprio povo, em troca de seu voto). A própria palavra cliente vem de “cliens”, que em latim identificava os “protegidos” que sobreviviam debaixo das asas do “patronus”. Mas, aprofundando a questão, veremos que os próprios senhores feudais europeus, posteriores ao Império Romano, justificavam sua opressão e exploração econômica sobre os servos (o campesinato medieval) em virtude da “proteção” que lhes concendia junto às muralhas do castelo.

Não posso afirmar com certeza, mas o termo patronus (“paizão”) provavelmente era derivado de “pater” (pai), o senhor absoluto do lar, possuidor de poderes de vida e morte sobre filhos, esposa e escravos. Ou seja, o ditadorzinho da velha sociedade machista, a que a respectiva prole devia obediência e “serviço“, pois sem seu poderoso senhor não teria meios de sobrevivência e segurança. O que esclarece perfeitamente a natureza política (o exercício autoritário de um homem sobre o outro, o domínio) da raiz de nossas modernas sociedades de classe exploratórias.

Não é difícil transcrever a situação para os dias de hoje, em que a hipocrisia burguesa, propositalmente, enfia cérebro a dentro da peonada a noção de que é graças ao seu “empreendorismo” e capital acumulado (a partir da expropriação do resultado gerado pelos braços do trabalhador – o que é omitido) que o povão pode “ter um emprego” de que sobreviver.

E também não é casual que ditadores fascistas (que encarnam a velha peste emocional), de direita como Mussolini, ou “vermelhos”, como Stalin e Mao Tsé-Tung se intitulassem os “grandes pais” de suas nações.

A idéia de patrão encerra si a noção de senhor todo poderoso a que seus “dependentes” devem obediência absoluta em razão do próprio status de “criador” (ou gerador), em razão da vida e dos cuidados que lhes proporciona, “provendo-lhes” a sobrevivência com sua magnânima e piedosa vontade (é acidental que o deus judaico-cristão seja qualificado como “pai”? – título que aliás é usado por seus sacerdotes, o português “padre” é mero acidente da formação da língua).

Ubirajara Passos

Anúncios

3 comentários em “PEQUENO DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO SOCIAL – 1

  1. IDEVAL BERNARDONI disse:

    Muito obrigado por esta valiosa colaboração.
    Gostaria de saber a fonte (livro/Dicionário)que você utilizou para transcrever este trabalho.

    Curtir

    • Caro Ideval,
      em minhas publicações sobre etimologia neste blog tenho utilizado o Dicionário da Língua Portuguesa (Editora Nova Cultural Ltda, 1992) e, quando este eventualmente não apresenta a etimologia do termo pesquisado, o Dicionário Houaiss, em sua versão eletrônica.

      Curtir

  2. NILSON DE ALMEIDA JUNIOR disse:

    Impressionante, esclarecedor, profundo, verdadeiro, lógico e…libertador das incoerências na construções dos pensamentos e no uso cotidiano das palavras , diga-se de passagem, “Como usamos de modo incorreto esses termos” , e digo mais, você introduz os “valores” históricos contidos em cada uma dessas palavras nos dando o contexto exato no tempo/espaço parabéns amigo,

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s