ESTRANHO PARAÍSO


Nunca escrevi por encomenda, com excessão do poema que segue, que me foi solicitado pela gata preferida, há uns quatro anos, para que uma amiga sua pudesse apresentá-lo como de sua autoria em um concurso escolar, patrocinado pela Petrobrás, sobre o Brasil (daí o esquematismo étnico e uns certos ares da poesia épica de Castro Alves – o primeiro poeta que li e, com certeza, o que exerceu sobre mim mais influência -, bem como a citação entre aspas de Darcy Ribeiro na última estrofe).

O poema foi escrito, numa segunda-feira pela manhã, entre o banco do ônibus Direto de Porto Alegre a Gravataí (vindo de um fim de semana na “República do Valdir”) e a minha escrivaninha na contadoria forense, ao chegar. Dadas as motivações de sua criação, não é nenhuma pérola literária, mas, na falta de texto novo, e achando-o “engraçadinho” resolvi publicá-lo neste blog. Ah! quanto ao resultado do concurso, nunca tive notícia. Espero somente que a aluna (que, se não me engano, cursava o ensino supletivo fundamental) não tenha levado uma cacetada do professor, pois, por mais que eu tenha me esmerado em disfarçar o estilo e tentando escrever algo simples, à altura da pretensa autora, a coisa não deixou de sair com um certo ar “profissional”.

 

Estranho Paraíso

O árabe errante perde nas areias
Toda medida de espaço
E na luz crua do deserto embriaga o olhar.
Mas, à noite, na gélida barraca,
Sonha oásis de águas sensuais,
Com cachoeiras que agitam ventres
Na espessa mata onde mal entra a luz.

O europeu, contido e frio como as montanhas
De neve eterna e as ponteagudas catedrais,
Rumina no vinho das tavernas
Velhas lendas de glórias imperiais;
Se embebeda nos incensos da saudade,
Mas devaneia, em segredo, com um sol
Cujo calor convidativo nos obriga
À mole e terna preguiça de uma rede,
Sob o frescor da brisa e da caipira.

Na vastidão das savanas africanas
Corre a caça mais farta e elegante,
Os espíritos da natureza,
Nas madrugadas, inspiram os tambores,
Mas o abandono em meio à paisagem
Clama por enxames de massas humanos
Determinadas a domar-lhe o jugo
E construir selvas de concreto.

Todos os povos do mundo se ressentem,
Em meio às suas glórias pátrias,
De faltas fundamentais.
Mas há no sul do mundo uma terra
Onde a luz do Oriente e as névoas da Europa
Juntam-se e bailam ao som dos atabaques.

A gente que o habita é doce e vive,
Mesmo sob os chicotes da miséria,
A boemia mulata e grávida de gozo
Dos trópicos remotos, da cachaça
Frenética que agita o samba.

Neste país a natureza criou
O paraíso terrestre onde os sonhos
Dos demais povos estão todos presentes.
Não faltam águas, nem sol, nem alegria.
Ouros e matas existem às fartas,
Não há durezas rançosas de etiquetas,
E a gandaia é a própria alma do povo..

À sua gente, das outras tantas filha,
Só lhe falta, entretanto, o que há nelas:
O orgulho de existir para si mesma
Que dê à sua maioria,
Exilada das riquezas da terra,
Uma vida digna e humana,
Ao invés da pobreza humilhante
E do quotidiano de trabalho e sofrimento.

Este Brasil, no dia em que deixar
De queimar multidões no árduo trabalho
Para “adoçar a boca de europeu”,
Será, enfim, a terra prometida.

Entre Porto Alegre e Gravataí, manhã de 24 de julho de 2003

Ubirajara Passos

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