ILUSÕES DA PIÇA


O que não faz uma tarde de tédio? Depois de dormir até o meio-dia, apanhar alguns limões-bergamota no pé e almoçar, pobre solteirão desventurado que não sabe cozinhar, uma lasanha pré-fabricada com pepino, vieram-me à cabeça os versos dramáticos e filosóficos de Francisco Otaviano, poeta romântico carioca nascido em 1825 e morto em 1884, que fizeram o maior sucesso até a geração dos nosso avós (1920, 1930, por aí): “Quem passou pela vida em branca nuvem/ E em plácido repouso adormeceu;/ Quem não sentiu o frio da desgraça,/ Quem passou pela vida e não sofreu,/ Foi espectro de homem – não foi homem,/ Só passou pela vida – não viveu”.

Como se percebe, o tom é dos maiores sérios e pessimistas possíveis. Mas o poemeto me veio à cabeça justamente na forma de uma paródia cretina, impagável, e nada original (centenas de poetas de buteco, quem sabe algum obscuro escritor do século XIX ou da primeira geração do modernismo brasileiro, e, com certeza, milhares de estudantes da velha guarda devem ter escrito coisa semelhante), que, após o primeiro verso surgido espontaneamente, redigi com as “Ilusões da Vida” em punho, e aqui publico na intenção da edificação moral de nossas crianças e jovens – com as quais tanto se preocupa o ditador fascista Inácio dos nove dedos, que até reviveu, de forma (mal) disfarçada, a velha censura do regime militar, obrigando as emissoras da TV aberta (com exceção dos intervalos comerciais, é claro, que o faturamento da burguesia não é digno de censura) a passar só depois da meia-noite os programas considerados indecentes por meia dúzia de classificadores (os novos censores) auxiliares do zeloso ministro Tarso Genro, a cujos éticos olhares a portaria ministerial recomenda sejam encaminhados os programas antes de sua exibição (a velha censura prévia).

Mas, como dizia Odorico Paraguaçu (protagonista de “O Bem Amado”, de Dias Gomes), deixemos os entretantos e vamos aos finalmentes. Pois este post já está virando panfleto político e a questão da nova censura (que é tão “democrática”, que a função de tesoura não será exercida diretamente pelo executivo, cabendo a honra ao judiciário, a quem os amigos do Inácio encaminharão os “causos”, para punir as emissoras rebeldes, tudo no mais puro espírito da “Constituição-Cidadã”) merece uma crônica a parte. Vamos ao poema:

Ilusões da Piça

Quem passou sua piça em brancas vulvas
E rápido, de gozo, adormeceu;
Quem não sentiu o gosto da cachaça,
Quem brincou com a prima e não fudeu,
Foi esperto só de nome – não foi homem,
Só passou pela foda – não fudeu.

Gravataí, 30 de junho de 2007

Ubirajara Passos

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