DA CERTEZA METAFÍSICA DOS SENTIMENTOS


Vivemos em mundo dominado pela supremacia e infalibilidade do racionalismo formal, da lógica distintiva (e, portanto, o mais matemática, no sentido euclidiano e hermético, possível), que se amoldam perfeitamente às necessidades da produção e manutenção de máquinas e sistemas mecânicos e automatizados (e, conseqüentemente aos interesses dos dominadores), mas em nada atende à nossa natureza de seres sensíveis, surgidos da evolução de simples moléculas de carbono que um dia resolveram transgredir a velha inércia e aprenderam a se duplicar, a partir de reações com o meio circundante. Aliás, se nos aprofundarmos até o nível das partículas quânticas (os menores constituintes das partículas sub-atômicas, que se ora se comportam como matéria, ora como onda), tudo que encontraremos de certo é uma espécie de vontade expontânea e indeterminada, formando com as demais tudo quanto há no universo.

A mentalidade não-verbalizada, mas subjacente no quotidiano, pensamentos e decisões do menos adestrado na “cultura formal” de nós é de que a lógica consciente e organizada por princípios e operações materiais tipicamente algébricos (verdadeiras equações “qualitativas”) é absoluta e, a única ferramenta mental capaz de produzir conhecimento válido. A própria noção de “verdade” (embora assim não o deva supor necessariamente a razão matemática) aparece como o resultado mecânico de aferições “científicas” universais, inquestionáveis e acima dos raciocínios particulares de cada ser pensante.

As demais formas de consciência e conhecimento, como a intuição, a “ciência” empírica derivada da experiência subjetiva integrada ao longo de gerações (como a medicina fitoterápica tradicional, herdada da prática ancestral, a “meterologia caipira”, os sistemas filosóficos e cosmogônicos orientais) são relegadas à categoria de curiosidades “primitivas”, quando não totalmente invalidadas .

Nos embasbacamos, e celebramos na nossa escravidão mental auto-impingida, com o produto da ciência especializada (hermética para maioria) e matematizada, mas não percebemos o quanto nos tornamos, nas mãos dos donos que dominam não apenas a tecnologia do produzir e desvendar, mas principalmente a de nos induzir a tanto, meras peças da engrenagem automatizada (“mecanizada” seria um termo por demais desatualizado na civilização da informática onipresente) no jogo que produz a vadiagem e o luxo refinado e sádico dos patrões!

Não é casual que a expressão “cálculo” (e seu operador, o “calculista”) seja sinônimo de ação e reação “precavida”, propositalmente pensada para atingir os próprios interesses através da manipulação da crença alheia. O que exclui, como “prejudicial” e contrário à nossa sobrevivência, no mundo da competição, a manifestação autêntica e saudável das nossas emoções mais profundas e genuínas (os sentimentos).

No entanto, muito maior do que nossa capacidade intelectiva (desenvolvida ao longo de centenas de gerações desde o primeiro primata que se soube diferente do resto do mundo e teve consciência da própria existência e condição mortal) – que muitas vezes nos atira ao mar da perplexidade diante da vida concreta – são os sentimentos os mais genuínos faróis dos rumos que devemos seguir em nossas vidas.

Se é que há algo inquestionável sobre a face da Terra (o que é muito duvidoso) são as emoções vindas do âmago inconsciente de nossos cérebros e da memória, não condicionada propositalmente, de nossas células.

Quando nossas intuições e reações puramente emocionais (interações físicas e químicas internas do corpo frente às sensações e à consciência dos fatos externos) gritam de forma candente, ainda que inverbalizada e, muitas vezes, contrárias ao mais livre dos nossos raciocínios, poderemos até nos estrepar seguindo-as, porém, em noventa e nove por cento das vezes elas representam o que há de mais legítimo e benfazejo a nós, animais dotados da capacidade auto-organizativa tornada consciente. Mas sobretudo feitos de pura energia imanente, presente em cada par de genes da dupla hélice de DNA , desenvolvida e sofisticada ao longo de milhões de anos, não de forma ossificada e inalterável, porém, treinada nas mais diversas e infinitas circunstâncias, segundo o caráter de cada uma delas, e, por não estar sujeita à censura das ideologias alheias, capaz de reagir a cada novo fato sem o apego a velhas formas pré-organizadas.

A mente humana é muito maior do que os simples silogismos e estes são apenas a forma sistematizada de percepções e diálogos internos, em que interagem desde os sentidos comuns do corpo até os padrões emocionais e de concepções mais básicos ou decorrentes da atividade psíquica deliberada.

Não somos meras máquinas de raciocínio (caso em que um super-computador seria bem mais eficiente), nem simples organismos de sentir, sem nenhuma capacidade de elaboração e combinação de realidades concretas e fantasias (caso em que um asno no suplantaria). Mais do que aos questionamentos mais profundos e livres, portanto, dê poder à sua imaginação!

Ubirajara Passos

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