EU, O VIRA-LATA E A FUTILIDADE


Ela chegou do nada, expontânea e explosiva, e, diante da minha figura carrancuda, disparou, apontando para a prateleira no centro da livraria de shoping: “Este livro é muito bom! Já leu?” Sem dar um grunhido, respondi com um simples balançar de cabeça (tão forte que me deixou com cara de um abestelhado tímido qualquer!), sem sequer ler o título, percebendo apenas que na capa havia a figura de um cachorro branco de orelhas caídas, com aquele ar abandonado e curioso do famoso cachorro do bibelô (que ladeia um piá vendendo jornais).

Passada a surpresa daquela voz feminina, praticamente adulta no corpo de uma menina de onze anos (nada bonita nem sensual, mas simplesmente uma agitada guria de onze anos), fui verificar o título: Marley & Eu – vida e amor ao lado do pior cão do mundo. E, por alguns instantes, com a mesma expressão, de quem mijou fora do penico, do protagonista do livro, fiquei imaginando a razão do interesse literário da guria.

A princípio, supus fosse a óbvia identidade entre o tema e a mentalidade de uma pré-adolescente. Mas, quando, dando a volta na estante, dei com a importuna me olhando de soslaio, com uma expressão afetada de mulher fatal (agitando, entre nervosa e sedutora, a manta que trazia ao pescoço, e disparando porta afora como um gato arisco), me convenci de que as “forças cósmicas” do inconsciente universal estavam me aprontando uma terrível piada! (pra me sacudir do mau humor ciclópico que me causara um encontro frustrado).

E concluí que a indicação bem me cabia: o totó com a pose suplicante de quem fez todas as cagadas, mas espera a clemência do dono em troca de um sorriso (sou tão divertido, gosto tanto de ti e estou aí pra o que der e vier, pouco importa se pisei fundo na bola) era eu mesmo! Tenho passado a vida a meter os pés pelas mãos, a dar safanões de rabo, com a melhor das intenções, e a fuder com tudo, não por qualquer inconseqüência ou perfídia de meus atos ou convicções, mas justamente por tentar agradar a meio mundo, em meu próprio prejuízo, o que acaba por botar a perder todos os meus projetos! E ainda me atormento, depois de dar com a cara no poste, com o flagelo digno de um xiita doidão, pela minha idiotice. Para depois tentar me conciliar comigo mesmo, estampando aquele sorriso amarelo perante o juiz inquisidor que me habita o inconsciente.

Talvez devesse mandar à merda a minha seriedade compulsiva (digna do adolescente cartilhesco mais cretino), que escondo sob a capa da irreverência, e assimilar a extroversão espevitada daquela guria, cometendo as besteiras sem remorsos e ainda saindo por aí orgulhoso, a agitar ao mundo a vaidade da minha cretinice assumida!

Ubirajara Passos

 

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Um comentário em “EU, O VIRA-LATA E A FUTILIDADE

  1. gerson disse:

    Quinzena passada, quando lí o seu artigo, fiquei preocupado com a tendencia de seus pensamentos. Porém, hoje consigo sentir o mesmo com relação as pessoas que me rodeiam. Será que elas tem que mudar, ou serei eu que terei que me adaptar ao meio que elas vivem. Pessoas de bem e com sentimentos apurados, sensiveis a questões vivenviadas em nossa volta, nos deixam de queixo caído quando não muito indignados. isso nos revolta, mas não podemos nos abater, talvez nossa causa neste momento não interesse a ninguém, mas em um futuro próximo pode ser a semente que irá brotar e dar frutos. Podes crêr, embora não vençamos hoje, não significa que não estejamos certos, nem tão pouco venha justificar um pençamneto de desistência de nossos sonhos ou pricipios, devido aos sacrifícios impostos pelo compromisso com a veradade, mas alguém em um lugar, em um futuro bem próximo será mais feliz, devido a nossas atitudes hoje inconpreendidas. Um abraço fraterno de seu irmão. gerson

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