ERNESTO: O espírito que falta ao mundo


 

Ernesto Guevara de la Serna, nas suas concepções teóricas, nos seus discursos e atitudes à frente de cargos governamentais (ou mesmo no comando de forças revolucionários no Congo ou na Bolívia) não era nenhum libertário e beirava ao grotesco em seu apego às cartilhas do comunismo oficial (o fascismo vermelho), tivesse ele colorações soviéticas “revisionistas” ou o stalinismo “alternativo” do caminho chinês (o maoísmo, de que se aproximava nos seus últimos anos de vida).

Suas atitudes e pregações na direção do Ministério da Economia de Cuba (o incentivo e a própria dedicação ao “trabalho voluntário nos feriados, e a concepção do novo homem comunista) beiravam ao sectarismo ingênuo de petistas que ainda crêem – se é que isto é possível – em Lula como instrumento da transformação social e a um masoquismo franciscano digno do católico mais autêntico e sofredor.

Mas, ao contrário de velhos caudilhos latino-americano (como Bolívar), tão “revolucionários” e obstinados quanto ele, porém terrivelmente matreiros, vaidosos e manipuladores de conchavos políticos, o que distinguia o “Che” dos políticos comuns, e de noventa por cento da humanidade, era a sua autenticidade absoluta e o seu compromisso incoercível com aquilo em que acreditava, que o levava aos maiores sacrifícios na ação prática em sua defesa, sem a menor hesitação pequeno-burguesa, e uma convicção de fazer corar aos mais fundamentalistas dos muçulmanos que se auto-flagelam!

 

Che possuía em si a mais rara das “virtudes”, que, mais que o modismo absorvedor do capitalismo moderno, o qual transformou-o em símbolo pop (tão vazio de significado atual quanto a calça jeans, o rock das antigas e a contra-cultura) justifica a sobrevivência, e o culto do seu ícone, quarenta anos após sua morte: a certeza de que só a luta, a ação concreta e sem desvios, muda a vida; e a capacidade de se lançar de forma total, sem a menor concessão, a um ideal de redenção, ainda que disto resulte a própria morte!

Creio que, por mais equivocadas e autoritárias que fossem suas convicções pretensamente socialistas, Ernesto Che Guevara encarnava em si uma ternura imensa pela humanidade, pelo homem comum fudido do povo, que é a imensa maioria anônima e muda de nosso mundo.

E era o maluco capaz de se jogar ao mais viciado e cruel dos jogos (a guerrilha débil contra um sistema que oprime a partir do domínio sobre a mente dos próprios oprimidos) em nome de uma vida válida e digna de gente para os que geram com o seu trabalho os luxos e a sofisticação tecnológica dos “donos do mundo”!

Para ele não havia medidas, nem meias-medidas! Mas somente a certeza (não o dogma fanático ou estudado da rejeição a todo questionamento), que lhe brotava do fundo dos sentimentos, do único caminho capaz de nos redimir a todos das servidões que nos oprimem: a rebelião convicta e inquebrantável!

Há quarenta anos, nas selvas bolivianas, vítima da incoerência política de seus aliados russos e cubanos (quem sabe se da traição do próprio Fidel), e da perfídia do imperialismo yankee, morria, em 1967, enquanto eu, piá de apenas dois anos mal sabia do mundo, um cara que era mais doido na mania da revolução do que eu (que nunca joguei o fuzil sobre o ombro), mas com o qual comungo a teimosia: ERNESTO CHE GUEVARA!

 

 

Ubirajara Passos

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