O SIGNIFICADO DAS ELEIÇÕES DO SINDJUS


Esta não é uma análise política coletiva, nem o desabafo de um candidato frustrado, mas o depoimento e a reflexão de um trabalhador que jamais abriu mão do questionamento permanente sobre tudo e da disposição em lutar, até a última gota de sangue, pela dignidade e pela liberdade a que todo ser consciente que atende pelo adjetivo de “humano” tem direito.

Me tornei sócio do Sindjus-RS em 1991, quando a entidade contava apenas 3 anos e recentemente tivera a 1ª eleição direta para a diretoria, fundada que foi pelas associações pelegas do judiciário estadual. E desde então a minha luta foi a de um “peão” que só vê possibilidade de ter garantidas condições de trabalho e sobrevivência dignas através da pressão contundente, precisa e incoercível da massa dos trabalhadores sobre o Tribunal de Justiça.

Mas, mesmo militando por necessidade, como trabalhador com interesses comuns aos dos demais membros da categoria, a minha prática nunca foi a de um sindicalista isolado do mundo, sem convicções além do estrito círculo profissional. Já aos quatorze anos (em 1979) eu não era indiferente à realidade da dominação social da maioria por uma meia dúzia que se arroga o privilégio de viver um carnaval perpétuo, enquanto o restante desfila no cordão do sacrifício e da miséria.

Na última gestão do sindicato me empenhei, a cada instante, na construção de um Sindjus formado na participação consciente, crítica e democrática de cada companheiro a fim de resistir à avalanche de truculência e arrocho despejada pelos poderes judiciário e executivo. E pudesse avançar na recuperação de perdas salariais históricas e na conquista de benefícios mínimos (como o plano de carreira) por que esperamos há décadas.

Fui candidato a Diretor de Regionalização pela chapa 1 (Sindicato é Pra Lutar – Todo Poder à Base) e fiz campanha pelo interior do Estado nas 3 últimas semanas anteriores à eleição. Praticamente não botei o pé em casa e percorri milhares de quilômetros, desde Uruguaiana até Gravataí, de Bagé a Rodeio Bonito, de Santa Rosa a Cachoeira. E pude constatar, mais do que já conhecia na minha comarca e nas atividades sindicais, o quanto ainda são precárias e opressivas nossas condições materiais e psicológicas de trabalho. Pude ver no rosto de cada servidor o sofrimento e o desejo de uma realidade mais humana, bem como a necessidade e o anseio por um sindicato mais próximo, mais vivo, mais participativo, forjado nas veias e nervos e na luta de cada companheiro e companheiro.

É bem verdade que também presenciei o acomodamento e a visão paternalista de vários colegas, daqueles que vêem no Sindjus apenas a diretoria e esperam que esta conquiste, como uma equipe de lobistas, as reivindicações, sem qualquer envolvimento do restante dos trabalhadores. Mas o resultado eleitoral é absurdamente surpreendente e parece apontar para uma grave doença. Tudo indica que além de LER-DORT e depressão, que grassam nos locais de trabalho como ferrugem em plantação de soja, a grande maioria (com exceção dos valorosos 331 companheiros que nos honraram com seus votos, a que muito agradecemos e esperamos estejam conosco irmanados na continuidade da luta) está contaminada pelo MEDO!

Senão como explicar a vitória de um grupo tradicionalmente imobilista, flagrantemente apoiado pela central pelega (a CUT) que defende o governo anti-povo de Lula e cujo ex-presidente é hoje Ministro da Previdência, encarregado da elaboração de nova reforma previdenciária, em que o mínimo que irá nos acontecer será a elevação da idade mínima de aposentadoria para os 65 anos, tanto para homens quanto mulheres (vejam bem: o peão ou a trabalhadora poderão estar trabalhando há mais de 40 anos, mas se não tiver 65 não se aposenta!). Ou a votação em 2.º lugar na chapa sempre ligada ao Tribunal e que, descaradamente, defendeu a avaliação de desempenho e quebra da estabilidade dos servidores proposta pelo patrão em 2006, fazendo coro às falas do Presidente do TJ sobre “servidor vagabundo”?

Parece que o quotidiano de pressão, trabalho excessivo, falta de servidores e salários insuficientes já nublou a consciência, e jogou ao desamparo desesperado, da grande maioria dos companheiros, que prefere balbuciar ante o carrasco do que se abraçar, na mútua solidariedade que humaniza e dá firmeza às massas, para avançar sobre o opressor. Mas fica o alerta: as forças que hoje nos oprimem (e que vão do Palácio do Planalto ao gabinete do juiz – a maior prova é o envolvimento explícito da CUT e do próprio TJ nas eleições) não são nada complacentes e não cedem a pedidos de clemência. O que se avizinha no próximo semestre para a classe trabalhadora do Brasil como um todo, e nos inclui, é mais um festival de ataques dignos de um PCC.

Ubirajara Passos – coordenador do Núcleo Regional da Grande Porto Alegre

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