QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA – 6


Na terça-feira de carnaval, após beber todas durante a madrugada, o alemão Valdir ainda pretendia se despedir de Posadas a caráter: enchendo a cara na calçada do restaurante mais fino da cidade. E assim, oito horas da manhã, marchamos, heróicos bêbados desafiadores do moralismo local (onde já se viu tomar cerveja logo de manhã cedo?), rumo ao café com nome francês.

Sentados com toda pompa na rua, o garçom castelhano nos recebe com a contida cordialidade local, que logo se esvai em estranhamento e censura quando pedimos uma Quilmes. O sujeito olha para o relógio e nos responde que só servem cerveja após nove horas da manhã! Putos da vida, fomos procurar um posto de gasolina para adquirir umas latas do produto redentor e demos de cara com uma lona preta sobre a porta do freezer onde ficava a cerveja.

Ainda assim, julgando se tratar apenas uma questão de costume “austero” da castelhanada (chegamos a supor que o garçom se recusara a nos servir para não deixar o estabelecimento “mal-falado” – os pequenos-burgueses de Posadas poderiam se escandalizar ao ver dois bêbados “imorais” tomando porre na calçada de um restaurante “familiar de classe” logo cedo), não tivemos dúvida e íamos retirando as latinhas, quando o dono da loja de conveniência nos intercepta, porque “no se puede vender bebida alcoólica en la via pública antes de las nueve: es ley de la municipalidad”!

Voltamos para o City Hotel revoltados. Que cretinice é esta do Estado de controlar a vida das criaturas humanas a ponto de regulamentar os horários em que podem embriagar-se e criminalizar quem bebe de manhã cedo (pelo que nos disseram, poderíamos ser presos se fôssemos pegos na rua com uma lata de cerveja antes das 9 h). Qual a diferença entre encher os cornos, e eventualmente fazer uma arruaça (esta deve ser a preocupação do prefeito) às oito e meia ou às dez horas da manhã. E se o “imoral gambá arruaceiro” quiser comprar a sua vodka antes do horário interditado e tomá-la, saindo para aprontar todas na rua entre meia-noite e nove horas, qual o efeito que tem a “educativa lei”?

Narramos aos atendentes da portaria do Hotel a nossa desventura e, quando fomos tomar um café na copa (que não serve nem almoço, mas apenas pão e café com leite), já passado de las nueve evidentemente, qual não foi a nossa surpresa: a administração do Hotel, pesarosa com a infelicidade dos turistas brasileiros (e temerosa de perder eventuais clientes futuros) havia mandado comprar um litro de Quilmes especialmente para nós. E na sacada do City Hotel, em plena praça principal da capital da Província de Misiones, a irreverência escandalizou e rompeu os estritos canônes do autoritarismo tacanho do lugar: dois gaúchos anarquistas e safados sorviam, com o ar da maior pompa possível, uma cerveja em local onde nem Coca-Cola se bebe, para espanto dos seríssimos clientes que tomavam seu café!

Ubirajara Passos

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