QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA – 5


De volta a Posadas, na tarde de segunda-feira, tive, na calçada do café mais “chique” da cidade um destes raros momentos em que o espaço se abre à nossa frente e nos vemos lançados numa dimensão fora do tempo. Tomando uma Quilmes, mais uma vez, com o alemão Valdir, me dedicava a um dos meus esportes preferidos (espreitar mulher boa na rua), quando dei com aquela moreninha, de cabelos negros e nariz afilado, simplesmente linda e misteriosa como uma esfinge (possivelmente mestiça de índios e espanhóis), num vestido bege que lhe desenhava perfeitamente o corpo esguio e saboroso.

A deusa descida na terra ia caminhando junto à vitrine do café, a minha direita, e para sorte dos meus olhos, acabou por sentar-se na mesa onde estava a “espiã” no outro dia. Encarei-a e, quando menos esperava, ela, se levantando, me olha pergunta, se dirigindo para uma mesa à minha frente: “eestá ocupada”. Quase desmaiei e lhe respondi laconicamente no meu precário castelhano um “no”, para ouvir daquela voz paradisíaca um “muchas gracias” e lhe responder “no sea por eso”.

Este foi o formal e seco diálogo que mantivemos, mas o simples fato daquela criatura apaixonante falar comigo me deixou doido. A morena sentou-se e puxou do que pensei ser uma revista (mais tarde, quando já havia ido embora, fui até a mesa e verifiquei que eram prospectos de uma loja), e imaginei que iria se repetir a cena da loira do dia anterior. Mas logo chegou uma amiga e sentou-se à sua mesa.

É evidente que não despreguei os olhos da gatinha e tive a ocasião de vê-la mencionar-me à amiga, que voltou-se para trás, me espiando, umas duas vezes. Lá pelas tantas a coisinha linda foi ao interior do restaurante e, voltando com uma caneta, começou a escrever. O idiota aqui imaginou que iria receber um torpedo, mas conversaram mais um pouco e se mandaram, as duas, depois de uns vinte minutos.

A gata era tão impressionante, tinha um rosto tão decidido e enigmático, além do corpo voluptuoso, que cheguei a viajar e imaginar um romance ambientando em Posadas, a um passo do Paraguai, no qual o personagem principal, um jornalista desempregado, encontra a guria e acabava se envolvendo em mil peripécias, com direito a uma trama de espionagem e guerrilha. Quem sabe um dia eu o escreva. Mas o fato é que, diante daquela caboclinha, a capital de Misiones transfigurou-se e eu de repente vi uma cidade aprazível, numa encruzilhada internacional do mundo, ao mesmo tempo provinciana e populosa, na qual bem gostaria de morar. Viva o romantismo sem concerto.

 

Ubirajara Passos

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