QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA – 4


Na passagem da ponte entre Posadas (Argentina) e Encarnación (Paraguai), a burocracia revela a completa falência do Mercosul e nos dá a noção do caráter autoritário e irracional do Estado. Têm-se de aguentar filas homéricas, de uma hora e meia, para ir de uma margem à outra e, ainda que não se leve mercadoria de um para outro país, se submeter ao ritual de apresentação de documentos e interrogatório da polícia de ambos os lados.

Para entrar no Paraguai tivemos de entregar nossos vistos de entrada e identidades no posto argentino e depois obtermos novos vistos no posto paraguaio (na passagem Brasil argentina tudo é feito no posto de Alba Posse). Aí até que os burocratas foram ágeis. Mas na volta há dois postos paraguaios de identificação sucessivos, a fora o posto de legalização de mercadorias compradas (pelo qual não passamos, pois tudo que possuíamos era coisa de pequeno volume e, ou colocamos no porta-luvas, ou viemos usando) e a inspeção prévia do porta-mala. a impressão é de que nos encontramos em algum campo de concentração nazista.

No último posto paraguaio da volta um cartaz oferece uma recompensa vultosa em guaranis para quem der informações de um bandido internacional, provavelmente traficante ou contrabandista, que atende pelo nome de “Gardelito”. Aí, vendo um cinqüentão qualquer que se achava na fila, nos divertimos com a idéia de “denunciá-lo” às “otoridades” para ganhar uma grana.

Encarnación nos pareceu bem mais provinciana que Posadas, ainda que seu povo possua um típico humor descontraído e sacana de brasileiros. O Paraguai é uma espécie de sub-colônia cultural do Brasil, onde a atitude e a mentalidade mais povão se manifesta radicalizada. Na “zona baja” (o mercado informal, situado na várzea do Rio Paraná, de um calor úmido insuportável) os camelôs com mesas na calçada (nem tendas ou barracas existem, lá o governo ainda não resolveu “civilizar” o comércio da muamba, como no Brasil) são os mais sofisticados. Pois a regra é o andarilho, que percorre a rua com suas quinquilharias, abordando veementemente cada estrangeiro, ou raro nacional desavisado que por ela circula.

Foi com um destes que o companheiro Valdir acabou comprando um relógio de “primeira” pela bagatela de uns cinqüenta reais, com a minha influência, pois além de achar barato o produto, acreditei na lábia do paraguaio e lhê afiancei o qualidade e autenticidade do belo relógio “Oriento” que lhe era oferecido. Só no dia seguinte, quando íamos de Posadas a Oberá, voltando para o Brasil, e o alemão deu com um atraso de vinte minutos no relógio a pilha, em relação aos nossos relógios, é que fomos examinar a marca dele e descubrimos que era um produto autenticamente nacional. O tal “Oriento” (comprado junto com um fajuto “Ray Ban”, que outro ambulante conseguiu passar ao alemão, na mesma ocasião) não passava de um “Orenete” original… do Paraguai!

Ainda quando visitamos a “zona baja”, tive a ocasião de divertir-me, e me esquivar de gastar meus pesos argentinos (há em Encarnación, não sei porque, uma certa preferência pelo dinheiro platino em relação ao Real), quando um índio gaiato, mais ou menos da mesma idade e compleição física do matuto de Posadas, na praça principal, horas antes, me oferecia aos gritos, e com um sorriso maroto, uma “faca para matar la sogra”. Confesso, que se não tivesse me livrado do arremedo de semelhante parente, que possuí na época em que me enredei com o grande amor da minha vida, teria certamente pago até o dobro do preço para adquirir tão útil objeto.

No almoço, ocorrido antes da visita ao mercado popular, foi que descobrimos, com o garçom, o significado de “panceta” (gordura da barrica do porco, ou, conforme os “grandes irmãos” – the big brothers – yankees, bacon) e do próprio do estabelecimento: Carumbé – que, conforme o simpático caboclo paraguaio, “es la tortuga”. Vendo que o gaúcho idiota de ascendência açoriana, e de velhos portugueses lagunistas, aqui não entendia, apesar de lhe perguntar em castelhano, me traduziu de imediato: “tartaruga”.

Mas a grande sensação da expedição ao Paraguai foi o guaraná local, de marca “Simba”. Seu sabor simplesmente passa a milhões de quilômetros adiante dos nossos guaranás aguados e açucarados. É o mesmo dos extratos medicinais de guaraná em pó, com o sabor acentuado da fruta. E a multinacional que o produz no Paraguai, e no Brasil vende água açucarada, é a mesma Coca-Cola yankee de cada dia. Apaixonados pelo sabor, quase trouxemos alguns litrões de contrabando.

 

Ubirajara Passos

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