QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA – 3


Na manhã de segunda-feira de carnaval, finalmente tivemos contato com a alma de Posadas. Percorrendo a praça principal, lotada de barracas de artesanato e de guaranis desempregados a perambular, vendendo alguma bugigana ou simplesmente vagando, alguns dormindo bêbados ao pé dos monumentos, tivemos a ocasião de constatar o conflito subjacente de um povo cujo coração da capital ostenta homenagens em pedra ao opressor portenho que subjugou, na Guerra do Paraguai, uma região pertencente ao Paraguai e, anteriormente, fora parte da vasta república (informal) guarani estabelecida pelos jesuítas.

A seriedade provinciana patriarcal do branco descendente de espanhóis pesa, naquelas latitudes, como o próprio calor sufocante, sobre o mudo sofrimento dos filhos da terra. E, em nenhum lugar vi, até hoje, atitude tão refratária à curiosidade “religiosa” de dois ateus safados. Valdir, entusiasmado com o templo católico secular que se erguia no fundo da praça, se dirigiu a uma ilustre “señora” da cidade, que dele saia, perguntando-lhe: “que iglesia es esta?” E a “madame”, que mais parecia a mulher de um “don” que uma beata, na faixa dos quarenta anos, nos responde secamente: “la iglesia catedral!” Nada de informação sobre o santo de invocação nela cultuado ou sobre a história da catedral. A mensagem sub-reptícia era óbvia: o que querem estes brasileiros curiosos e irreverentes? Esta aqui é a casa sede da nossa rotina ossificada e necessária e está acabado. Aqui é a casa em que o supremo poderoso abençoa os poderosos cá da terra em nome da ordem imutável e nada de firulas, senhores turistas “devassos”.

Mas apenas a algumas dezenas de metros à direita, junto à rua lateral onde se ergue o palácio do governo provincial (velho palacete de um único andar, construído com pátio interno à moda das antigas sedes de fazendas da América espanhola, e com uma arquitetatura mais de quartel que de sede de governo) tivemos o absoluto contraste com a castelhana seca.

Perguntamos à algumas índias que casa era aquela e, como ninguém sabia nos responder, questionei um velho colono, destes de chapéu de palha e calça remendada (verdadeira figura de caipira ou matuto na região nordeste do Rio Grande do Sul) se aquele era o palácio do governo. E o velho, com um sorriso maroto, atravessado por um palheiro típico, nos respondeu: “Es la casa del cabeza grande”. Eu, encontrando naquela figura algo familiar a um roceiro brasileiro, resolvi fazer graça e lhe respondi: “dicen por la calle que él (o governador, o ‘cabeça grande’) también es cuerno!” E o velho, entre sarcástico e socrático, me devolveu: “Se es casado este es un regalo que hace parte”.

 

Ubirajara Passos

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